Foi pelo meado do decimo sexto seculo que obtivemos do imperador da China licença para fundar um estabelecimento nas costas do imperio, ao sul de Cantão, n'um rochedo então arido e deserto, só conhecido dos pescadores das vizinhanças, que n'elle buscavam abrigo contra a tempestade, ou iam levar suas offerendas a uma deusa, patrona dos maritimos, em honra da qual se levantara alli um pequeno santuario.
A este respeito diz uma velha lenda, de muito credito em todo o littoral da China, que em tempos bem remotos, cuja epoca porém se não assignala, chegara a Tokien, uma numerosa esquadra, e que estando a ponto de apparelhar para dar á vela, uma dama ricamente vestida, e de magestoso aspecto, apparecera n'um junco, e rogara á tripulação da esquadra que não largasse do porto, predizendo-lhe que a serenidade do ceo e a calma do mar não eram para fiar, como os capitães julgavam, nem para tomar o largo, pois que prestes se levantaria uma furiosa tempestade.
A mor parte da esquadra, confiando na predicção, permaneceu no ancoradouro; só um junco se aventurou a deitar ao largo, mas a tempestade sobreveiu, e o vaso foi engolido na voragem com tudo que encerrava. Passado o perigo, a dama da apparição convidou os marinheiros a desfraldarem as velas, offerecendo-se a acompanhal-os até onde se destinavam. Foi feliz a viagem, e a esquadra chegou ao seu destino sem accidente; mas apenas se aproximou da terra, a mysteriosa dama saltou ligeiramente para cima d'um grupo de rochedos que jaziam perto da praia, e repentinamente desappareceu aos olhos de todos. Era evidentemente uma deusa, e d'isto ninguem duvidou, e em reconhecimento á visivel protecção que lhes concedera, os marinheiros da esquadra elevaram-lhe logo, no mesmo local da desapparição, um templo que se chamou A-ma-ko, que quer dizer palacio da deusa A-ma, nome que se lhe deu durante a viagem. De Mako fez-se Makao, ou Macau, porque na extremidade occidental d'esta semi-ilha foi que levantámos a bandeira. Durante muitos seculos, este logar de reunião dos devotos navegantes nada apresentou de monumental; mas quando o desinvolvimento do commercio com os europeus attrahiu a Macau numerosa população china, os negociantes cotisaram-se, e, no fim do reinado de Kang-hi, fizeram levantar um magnifico pagode (...).
Está orientado ao norte sobre o porto interior de Macau. Sobe-se por uma escada de granito, cujas rampas estão ornadas com dois leões, e ahi collocados, segundo dizem os chins, para facilitar a evasão dos deuses fracos quando os outros deuses mais fortes os queiram expulsar. Um arco de triumpho de bello estylo chinez corre por defronte da porta de entrada. Renunciamos a descrever o interior do templo, a estatua colossal do idolo de madeira doirada, as numerosas estatuasinhas dos deuses secundarios, e dos heroes, em madeira colorida, os vasos de perfumes, as bandeirolas, os tantans, as lanternas, e outras mil coisas que atulham o logar santo. Preferimos sair do pagode principal, e trepar por aquellas encantadoras alamedas que conduzem a uma immensidade de capellas pequeninas, altares, repousorios, e grutas mysteriosas, que se occultam por entre as sombras espessas das grandes arvores circulares, que de espaço a espaço se multiplicam pelo contacto com a terra dos seus ramos pendentes. Nenhuma descripção pode reproduzir esta vista de fadas, nem dar idéa de quanto a imaginação fica ferida pelo aspecto d'estes pagodes solitarios e silenciosos, habilmente espalhados pelo que a natureza offerece simultaneamente de mais rustico e encantador.
O serviço religioso do pagode foi confiado a bonzos, que, graças ás liberalidades dos peregrinos, reuniram depressa um rico patrimonio suficiente a sustentar numerosa communidade. Porém ahi, como em toda a parte, o luxo trouxe o relaxamento dos costumes, e a vida d'aquelles bonzos tornou-se tão escandalosa, que a autoridade chim teve de intervir.
O serviço religioso do pagode foi confiado a bonzos, que, graças ás liberalidades dos peregrinos, reuniram depressa um rico patrimonio suficiente a sustentar numerosa communidade. Porém ahi, como em toda a parte, o luxo trouxe o relaxamento dos costumes, e a vida d'aquelles bonzos tornou-se tão escandalosa, que a autoridade chim teve de intervir.
O serviço do pagode foi portanto retirado das mãos dos bouddhistas e confiado aos religiosos Tao-se, discipulos de Lao-tze, que muitas vezes ao dia ahi cantam louvores á razão suprema, o que não obsta comtudo a que se prestem ás ceremonias do culto bouddhista, quando ha ricas offerendas a receber. Os visitantes são geralmente bem recebidos pelo superior do pagode, que até os convida a tomarem alguns refrescos; mas esta politica acaba usualmente pela exhibição d'um registro, no qual se pede ao viajante que se inscreva para concorrer ás despezas da festa esplendida que annualmente tem logar na esplanada do templo. Todos os pagodes, cujo rendimento é pouco consideravel, fazem, pelo menos uma vez por anno, uma festa meia religiosa meia profana, cuja parte mais atrahente para os fieis consiste na representação theatral, que dura muitos dias consecutivos. Em Macau, os Tao-se dão a esta festa extraordinario brilhantismo. Levanta-se na esplanada do seu elegante pagode um theatro provisorio de bambus, mas de extraordinária solidez. Com grandes despezas se chamam comediantes do interior, para representarem as melhores peças do repertorio chinez; também se chamam os mais bellos musicos da provincia para formarem uma orchestra a seu modo; e o publico, sem pagar coisa alguma, pode gosar de dia e de noite o espectaculo, porque se representa tres ou quatro dias consecutivos, tendo os actores só o indispensavel repoiso para não caírem em scena de fadiga.
Junho,1858.
O Panorama: jornal litterario e instructivo da Sociedade Propagadora de conhecimentos úteis. Vols 15-16, 1858-66
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