O bazar de Macau, intrincado labyrintho

Por toda a cidade de Macau se acha a população chineza disseminada promiscuamente com a européa; mas onde a achamos isolada e compacta é no bazar, bairro exclusivamente habitado por ella, intrincado labyrintho de viellas e becos, onde o europeu necessariamente se perde e não acha meio de orientar-se (...). Da primeira vez que me aventurei por aquellas ruas compridas e similhantes todas umas ás outras, andei mais de uma hora sem atinar com o meio de sair d'alli, até que providencialmente se me deparou um soldado da policia, que me serviu de pratico. (...)

É alli que nos achámos em plena China. Aspecto sombrio das ruas estreitas, orladas de predios altos de construcção chineza; boticas em quasi todos os baixos das casas; taboleiros com bolos da conservaria nacional; chinas aos bandos, sendo n'alguns pontos difficil o transito e pouca a segurança das algibeiras; por toda a parte a pouco euphonica lingua dos filhos do celeste imperio; ahi tens o bazar.

Além de poucas outras, as boticas d'aquelle bairro quasi se resumem em tres generos, que alternam em collocação: a casa de comida (cullao), a do jogo (latane) e a de emprestimos sobre penhores (hão). Denuncia isto a indole viciosa daquelle povo, que é um mixto incomprehensivel de qualidades contradictorias: laborioso e activo, e ao mesmo tempo com uma tendencia pronunciada para todo o genero de vicio; submisso e docil, sem deixar de ser desconfiado e vingativo. 

A casa de latane é de ordinario uma casa espaçosa, tendo no centro uma mesa forrada de baeta. Para dentro da grade a que se encosta a cabeceira da mesa, e que separa uma secção da casa, vedando-a ao ingresso do publico, senta-se o banqueiro. Os jogadores agrupam-se em volta da mesa. Os que querem guardar o incognito, e taes são sempre os europeus que alli concorrem, tomam logar numa galeria lançada em torno da sala, e proxima do tecto, donde véem o que se passa na mesa sem serem reconhecidos de baixo, porque a illuminação está disposta de modo que o alto da casa fica abrigado n'uma obscuridade protectora. Um empregado da casa lhes serve de interprete, e, n´um cesto suspenso por um cordão, dá para baixo o dinheiro, e diz verbalmente ao banqueiro o sentido da aposta de cada um dos jogadores de cima. Depois de te fazer conhecer a disposição da casa, vou explicar-te o mecanismo do latane. O banqueiro separa de um avultado montão de sapécas um monte mais pequeno, de que, pela simples vista, se não póde calcular, nem aproximadamente, o numero.

sapecasAbro aqui um parenthesis para te dizer o que são sapecas. São pequenas moedas chinezas de cobre, do tamanho, pouco mais ou menos, das nossas moedas de 3 réis, com caracteres chinezes em relevo, e no centro um furo quadrado. Usam-se em enfiadas de cincoenta, cem ou mais. Tem, aproximadamente, o valor de um real nosso, valor que varia para mais ou para menos, segundo a abundancia que d'ellas ha no mercado. Ha tambem umas outras moedas de cobre valendo 10 sapécas, mas não são muito vulgares em Macau. De amhas verás a cópia fiel nos desenhos que acompanham esta carta. 

São estas as duas unicas moedas da China; mas tem alli curso as moedas de oiro e prata de todas as nações, pelo valor do peso, bem como o oiro e prata em barra. No commercio chinez, quando ha que dar uma demasia equivalente a uma fracção de pataca (especie a que alli se usa referir todos os valores), e não ha moeda que valha exactamente isso, corta-se de qualquer outra um fragmento do peso necessario, e dá-se embrulhada num papel com a indicação do valor escripta exteriormente. 

No latane, logo que o banqueiro separa o monte menor de sapecas, formulam os jogadores as suas apostas, que podem ser pelos numeros um, dois, tres ou quatro. Depois de feitas as apostas e de recolhido o dinheiro que cada um aventura, começa o banqueiro a separar as sapecas do monte por grupos de quatro, servindo-se para isso de um ponteiro que applica ao furo central d'ellas. Corrido assim todo o monte, se fica de resto uma sapéca, ganha quem apostou pelo numero um; do mesmo modo para o resto de dois ou de tres, ganhando quem apostou pelo numero quatro se as sapécas se dividiram exactamente nos grupos de quatro. Quem ganha recebe o dinheiro que depositou e uma quantia egual de lucro. Isto é o jogo na sua mais nua simplicidade. Ha ás vezes n'elle modificações e convenções especiaes. Dizem, mas não t'o afianço, que se usam alli, como em todos os jogos de azar, meios subrepticios e dolosos.

N'este jogo se consomem fortunas avultadas, e por elle se tem reduzido a miseria muitos chinas endinheirados. São numerosas em Macau as casas de latane publicas e auctorisadas, e todas prosperam, não obstante acharem-se sobrecarregadas com pesados tributos. 

Recordações de viagem, cartas ao meu amigo Xavier da Cunha de João de Lacerda em Archivo Pittoresco, semanario illustrado, Vol X. 1867

Sem comentários: