Costumes chins: etiqueta

Beco do Coral
Beco do Coral

E geralmente sabido que na China se fazem convites com instancia, mas com o intuito de serem recusados; o que porventura acceitasse provaria má educação. Contam uns missionarios o seguinte facto notavel, que caracterisa os chins (1): 

Era por um dia de festa. Deviamos celebrar missa na casa do principal catechista da povoação, que tinha excellente capella. Os christãos das povoações visinhas alli affluiram em grande numero. Depois da ceremonia religiosa, o dono da casa foi-se ao meio do pateo e gritou aos christãos que saiam da capella:
- Não sáia ninguem. Convido hoje todos para comerem arroz em minha casa.

Depois dirigia-se ora a uns ora a outros para obrigar a ficar; mas observámos que cada qual allegava as suas razões e não ficava. O dono da casa parecia desgostoso por este facto, quando notou que um de seus primos tambem ia sair; então dirigiu-se a elle, gritando-lhe:
- Pois tambem tu, primo, te vaes? Não pode ser. Hoje é dia de festa, e por isso quero que fiques.
- Não instes commigo; tenho que ir ter com a familia para tratar de uns negocios.
- Hoje é dia de descanço para todos; não ha negocios! Has de ficar, sim; não te deixo.
E ao mesmo tempo segurava-o pelas vestes e fazia esforços para conter o primo, que debalde pretendia demonstrar-lhe que os negocios não o deixavam livre.
- Visto que não consigo que jantes commigo, bebámos juntos um copo de vinho.

E os dois entraram em uma sala. O dono da casa ordenou em voz alta, mas sem se dirigir a pessoa alguma, que frigissem dois ovos e aquecessem vinho. Emquanto o vinho e os ovos não appareciam, os dois conversaram e fumaram por algum tempo, mas ninguem serviu o vinho. O primo, que tinha na verdade pressa, perguntou delicadamente se ainda tardariam muito em apparecer com o vinho quente.
- Vinho! - exclama o dono da casa - vinho! É o que não temos! Pois não sabes que não bebo vinho, porque me faz mal?
- Devias então deixar-me sair, porque eu não podia demorar-me.

A estas palavras o dono da casa levantou-se, e, encarando o primo com certa indignação, diz-lhe:
- Em que nação vives tu, desejava sabel-o? Tenho a delicadeza de offerecer-te vinho, e tu não tens a de recusar! Entre quem te educaste! Seguiras os exemplos dos Mongois! Talvez...

O pobre primo comprehendeu que não tinha procedido bem em acceitar; balhuciou algumas palavras de desculpa, e, depois de ter accendido o cachimbo, saiu.

Estavamos presentes a este singular espectaculo. Logo que o primo se partiu, não podémos deixar de rir com prazer; mas o dono da casa não ria; estava muito serio e parecia indignado. Perguntou-nos se tinhamos já visto homem tão ridiculo, tão grosseiro e tão falto de intelligencia, como seu primo; e recordou-nos o grande principio de que um homem cortez deve sempre corresponder aos actos de delicadeza com eguaes actos, e recusar graciosamente o offerecimento do que tem a civilidade de lh'o fazer.
- Se não fóra isso, exclamou elle, como se poderia viver!

Ouvimol-o sem dar a nossa opinião a favor nem contra, pois, em muitos casos, é difficillimo ter uma regra certa e applicavel a todos, principalmente no que se refere aos costumes particulares dos povos. Figurou-se-nos, todavia, que comprehendemos a razão d'este modo de entender a delicadeza: uns querem ter a satisfação de se mostrarem generosos, sem custo, para com todos; e os outros querem receber os convites para terem egualmente o prazer de recusal-os.... Mas como isto é na China, não nos admiremos.»

(1) M. Huc, L'empire chinois.

Archivo Pittoresco, semanario illustrado, Vol VIII. 1865

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