Costumes chineses à mesa

PARA te dar idéa complecta dos costumes na mesa, descreverei dois jantares; um dado a embaixadores, outro a particulares amigos, aos quaes assistio S. Croix, tão ingenuo, como ingrato: ingenuo, por não diminuir os obsequios recebidos; ingrato, por dar aos chinezes o epitheto de barbaros. Pelo que os chinezes lhe fizeram, e elle escreveu, se conclue, serem aquelles mais civilisados, do que o parisiense S. Croix. 
Rua da Barca da Lenha
«Pan-Kequa deu um jantar, na sua casa de campo, aos embaixadores de Sião: fui convidado com outros europeus, diz S. Croix; entrando no jardim, vi grandes lagos rodeados de bellas salas, mui bem dispostas, e arejadas; estavam ornadas com muita riqueza, ao gosto do paiz. Na primeira estava Pan-Kequa, fallando com os embaixadores. Feitas as primeiras ceremonias, fui passear ao jardim; achei cousas deliciosas, e pictorescas. Grutas, rochas de varias cores, vasos riquissimos, muitas, e diversas flores odoriferas; passaros elegantes na forma, e bellos em plumagem: tudo achei admiravel. Ás cinco horas nos sentámos á mesa: começámos pelos postres: compunham-se de trinta bandejas de manjares diversos. Vieram depois mais de cem iguarias differentes; porém desagradaveis ao meu paladar. Pan-Kequa, e o seu bom sobrinho Con-sequa, andavam em torno da mesa, a fim de obsequiarem com igualdade a todos os convidados. Os embaixadores comeram de tudo, e fizeram algumas saudes: o modo consistia em se levantarem todos, quando se bebia á saude de cada um, e mostrarem os copos vasios. No fim do jantar, disse Con-sequa aos europeus: Meu tio não póde satisfazer-vos, n'esta occasião, com iguarias, e vinhos da Europa; mas, d'aqui a poucos dias, sereis indemnisados. 

Tres dias depois festejou Con-sequa o seu natal: ás cinco horas da tarde entrei na sua casa; achei uma companhia de comicos, promptos a representar: na Europa costuma-se ir ao theatro, depois de jantar; na China, entre os ricos, gozam d'esse espectaculo durante a mesa. Principiámos a comer, e os comicos a representar; todos desempenhámos optimamente. O jantar foi mui bem servido: rica baixelIa, excellentes iguarias, e optimos vinhos. Depois, fomos convidados para novos divertimentos.»

Avalia agora quaes são mais civilisados, se os chinezes, tratando assim os europeus; se estes, que, recebendo tão generoso, e cortez gasalhado, os vituperam, chamando-lhes barbaros! Os chinezes levam a prática da civilisação a extremo gráo. No primeiro jantar, que SÃO QUA me deu este anno, apenas havia seis convidados, e todos europeus. A mesa era quadrada, coberta de panno escarlate, igual aos estofos das cadeiras. SAO QUA deu logar aos hospedes nos tres lados da mesa, e elle tomou o quarto, em cadeira mais baixa.

Observando os costumes na casa de SAO QUA, onde tudo mostrava tanta riqueza, como gosto sublime, não me escapou saber o motivo, de estar o dono sentado em uma cadeira, onde elle, sem embargo de ser bem apessoado, ficava inferior aos hospedes. Perguntei-lhe a razão da differença; respondeu: «Quando os meus escolhidos amigos vêm obsequiar-me, o seu logar deve ser em tudo superior ao meu!»

Esta gente une sempre as acções ás palavras, e usa com frequencia d'aquellas, em logar d'estas. A cadeira mais baixa, significava o que SAO QUA me respondeu. 

Estando sentadas á mesa sete pessoas, rodeavam-na quatorze servidores, vestidos de cabaias de setim preto lavrado, tendo na cabeça barretes de abas levantadas, da mesma cor dos vestidos, com grandes borlas escarlates. Os manjares vinham á mesa trinchados: contei cincoenta cobertas! O jantar foi dado, segundo o uso chinez: serviam de copos, pequenas chavenas de louça transparente; pareciam cascas de meios ovos na grossura, e tamanho. Os vinhos eram trazidos em riquissimos bules: os europeus refrescam os vinhos, para usar d'elles; os chinezes mandam-os aquecer.

Em occasião opportuna, convidei os amigos de SÃO QUA para bebermos á saude do dono da casa, desejando a continuação da sua prospera fortuna. Confesso-te, que me deu grande prazer a resposta de SAO QUA, por se achar presente um inglez millionario, que nunca mais pode tirar os olhos de mim. SAO QUA, com a modesta, e honrosa graça, que lhe é propria, disse: «Agradeço a todos vós o favor, que acabo de receber; e tenho grande satisfação em vos declarar, que se a minha fortuna é prospera, devo-a, em parte, ao Sr. Andrade.» 

Nas expressões de SAO QUA, entrou grande porção da sua nimia civilidade; se pozessemos em uma balança os productos da nossa generosidade, o fiel penderia para SAO QUA.

Cartas escriptas da India e da China nos annos de 1815 a 1835, por José Ignacio de Andrade a sua mulher d. Maria Gertrudes. José Ignacio de Andrade, 1847.

fotografia tirada na Rua da Barca da Lenha

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