Casamento tradicional chinês e causas do divórcio

Como na China nunca as mulheres se deixam ver dos homens, não se decide o casamento de qualquer donzella senão pelas informações de seus parentes, ou de algumas velhas que costumam exercer o officio de medianeiras em taes negocios, e ás quaes as familias induzem com davidas a que façam uma pintura lisongeira das graças, juizo, e prendas das noivas. As descripções que estas fazem pouca fé merecem todavia, e quando se conhece que mentiram desaforadamente, são castigadas com grande severidade. 
Pequim, 1917-19
No dia destinado para as núpcias, mette-se o noivo n'um carro puxado por um boi, e sáe ao encontro da noiva, acompanhado de musicos que vão tocando melodiosas composições. A comitiva é mui esplendida quando o noivo é mandarim ou algum outro magnate d'alta jerarchia. Á mesma hora entra a menina n'um palanquim, ataviada com pompa, e seguida do seu dote, que commummente consiste, entre a gente da plebe, em certa quantidade de alfaias que o pai lhe dá com as vestes nupciaes, que vão encerradas dentro de cofres, e entre os ricos, em vestidos sumptuosos e em jóias. 

Um cortejo de homens assalariados a acompanha, levando fachos accesos, ainda que seja no pino do dia; pifaros, charamelas e tambores precedem o palanquim, e seguem-o os amigos e parentes da familia. Um domestico de confiança guarda a chave do palanquim, a qual não deve entregar senão ao marido, que espera a esposa em meio caminho da casa.

Logo que se encontram recebe do domestico a chave, apressa-se a abrir o palanquim, e avalia então a sua boa ou má fortuna. Alguns ha que, descontentes da sua sorte, fecham muito depressa o palanquim, e recambiam a donzella com toda a comitiva, preferindo a perda da somma que deram ao cumprimento do contracto; porém tomam-se precauções que fazem mui raros estes acontecimentos. Apeada a donzella, colloca-se o esposo ao seu lado, e entram ambos na sala de assembléa, onde fazem quatro cortezias ao Tien; ella sauda com outras quatro os parentes de seu marido, e depois é entregue ás damas convidadas para a boda, em cuja companhia passa o resto do dia em folguedos, em quanto o marido banquetêa os homens, em quarto separado.

Navarrette faz menção de muitas causas de divorcio, que não seriam admittidas nos nossos tribunaes: 1.° mulher tagarella, que por este defeito se torna incommoda, está sujeita ao repudio, ainda que seja casada ha muito tempo; e tenha muitos filhos; 2.º a mulher que falta á obediência a seu sogro e sogra; 3.º a mulher que furtar alguma cousa a seu marido; 4.° a lepra é outro motivo de divorcio; 5.° o ciúme.

Na noite do casamento conduzem a casada á alcova do marido onde acha, sobre uma meza, tesouras, linhas, algodão, e outros aviamentos, com que se lhe dá a conhecer que deve amar o trabalho e fugir á ociosidade.

Depois deste dia nunca mais o sogro torna a ver o rosto de sua nora, e ainda que habite a mesma casa, jamais lhe entra na alcova, e se ella sáe do seu aposento, occulta-se. Os amigos e parentes da familia não teem a liberdade de fallar-lhe sem testemunhas: esta permissão só a obtem os primos quando são ainda de mui tenra edade; mas os que são mais crescidos jamais alcançam um favor de tal valia. Permitte-se ás mulheres o sair algumas vezes, no decurso do anno, a visitar os seus mais proximos parentes, e a isto se limitam os seus divertimentos e prazeres.

O Panorama: jornal litterario e instructivo da Sociedade Propagadora de conhecimentos úteis, Vol II. 1838

imagem de Sidney Gamble. Pequim, 1917-19

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