As iguarias chinas

Hedda Morrison, 1933-1946 Hedda Morrison, 1933-1946

Nas iguarias chinas que se vêem pelas casas de comida, em que abunda o bazar, destinadas a acompanharem o arroz, base da alimentação dos chins, como de todos os povos do Oriente, predominam a carne de porco e os mariscos. Mas os mais delicados e exquisitos manjares da sua cozinha fazem-n'os os chinas de varios bichos. Entre elles é de grande valia e apreço a carne do rato.

Todo o lauto jantar chinez termina pela celebre sopa de ninho de passaro, substancia de grande estimação e bastante cara. Os vinhos são extrahidos de fructos e outras substancias vegetaes; até os ha de rosas e de arroz. São geralmente fortes e de um sabor desagradavel. Usam-se quentes, e servem-se em bules, como o chá. Ha um muito apreciado, e conhecido pelo nome de vinho-fogo. Não tive occasião de o observar.

Um genero que tem grande consumo entre o povo chinez, e que não só está exposto á venda nas casas de comida, mas se vê a cada passo nas mãos de vendedores ambulantes, são os bolos. Apresentam formas e cores variadas, como que a tentar a gulodice, mas affirmo-te que é necessario ter o paladar muito depravado para se poderem tragar aquelles productos repugnantes de uma conservaria absurda. Quando se vae a metter dente num pastel de seductora apparencia, topa-se com um bocado de carne de porco muito gorda, que deixa ficar na boca um impertinente gosto de cebo. No entanto, é com estas gulodices que a classe baixa dos christãos deteriora o estomago, e são ellas tambem a causa das doenças dos orgãos digestivos, que em subido grau lavram entre os soldados.

Um costume notavel e de bem entendida commodidade, que observei em Macau, foi a existencia de vendedores ambulantes de comida, que a toda a hora do dia e da noite percorrem as ruas da cidade, tocando uma matraca, ou entoando um pregão em lingua china. E nem só fornecem a comida, mas mesa, banco, luz e talher. São portadores de uma verdadeira casa de pasto. O china que recolhe do jogo, e ouve na rua o som da matraca ou o pregão respectivo, chama o vendilhão, que promptamente arma a mesa e o banco que serve de assento, e colloca sobre aquella a comida, o talher e a lanterna. O consumidor come, paga o ajustado numero de sapécas e retira-se em paz; o homem da matraca desarma o improvisado restaurant e continua a sua peregrinação. O talher dos chins, como de certo sabes, consiste em dois pausinhos delgados e cylindricos, com que elles apprehendem e levam á boca os alimentos.

Hedda Morrison, 1933-1946 Hedda Morrison, 1933-1946

Nem só nas ruas de Macau se vêem estes fornecedores ambulantes de comida. No porto interior toda a noite se ouve o pregão dos que, em tancás (...), fornecem manjares á população fluctuante, que é numerosa, e vive disseminada por muitas lorchas e outras embarcações de menor capacidade que povoam o porto.

Recordações de viagem, cartas ao meu amigo Xavier da Cunha de João de Lacerda em Archivo Pittoresco, semanario illustrado, Vol X. 1867 

imagens de Hedda Morrison, Pequim. 1933-1946

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