Travessa dos Bombeiros
Quando o medico entra no quarto do doente, avança magestosamente e toma o pulso ao desgraçado que lhe caíu nas mãos. O que é preciso saber desde já é que os medicos chinezes admittem diferentes especies de «pulso» que correspondem a cada um dos cinco orgãos nobres do corpo, o coração, o figado, o estomago, os pulmões e os rins.
O tomar, pois, o pulso não é uma operação muito facil, porque é preciso saber a que órgão a pulsação corresponde, a sua força, e a relação em que está para com todas as partes do corpo; eis porque tal operação é sempre longa, durante a qual o «doutor» fica mergulhado n´uma profunda meditação, com a cabeça baixa e os olhos fixos nas biqueiras dos sapatos, pois que seria uma prova de charlatanismo fazer qualquer pergunta ao doente. Depois de experimentado o braço direito, passa ao esquerdo, e depois de pensar maduramente no caso, levanta a cabeça, dilue uma pouca de tinta n’uma pedra negra que lhe serve de tinteiro, pega no pincel e escreve uma longa receita, que Iê depois a meia voz com toda a attenção. Avança para o doente, e com o index da mão direita, terminado por uma unha muito comprida e muito suja, vae-lhe explicando os caracteres que escreveu, não deixando de recommendar que todos os remedios são tomados tão quentes quanto possivel para que produzam effeito os mil e um ingredientes que entram na sua composição.
Em geral é o proprio medico quem vende os medicamentos, e d’ahi resulta haver muitas vezes graves disputas entre elle e o doente por causa do preço. Este pede que supprima uma ou mais drogas, para que o remedio fique mais barato; o medico, porém, insiste que a vida do doente depende do remedio sem alterações; e é quasi sempre a familia que reunida em conselho vem decidir a contenda, depois de deliberar muito gravemente sobre se valerá a pena, em attenção a idade do doente ou ao perigo em que elle está, de gastar o dinheiro inutilmente com o remedio, ou deixar ir correndo as cousas, e guardar o dinheiro para comprar um bom caixão em que o desgraçado vá mais dignamente para a cova. Taes são as graves preoccupações dos chinezes em presença da morte.
Outras vezes é o proprio doente o primeiro a despedir o medico, e a mandar chamar o fabricante de caixões! E se tem a sorte de escapar da doença, o caixão acompanha-o depois para toda a parte.
Cousas da China, costumes e crenças de Callado Crespo, 1898
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