Anónimo, cerca de 1809. Cantão
Ordinriamente se presume que o imperio que fundamos na Asia desde o começo do seculo 16º foi o fructo da conquista, da superioridade da nossa marinha, e daquella indomavel valentia e capacidade militar dos cavalleiros portuguezes da eschola d'Africa. (...)
Entretanto algumas das possessões portuguezas e outras que ainda conservámos, tiveram por fundamento mais nobres principios, porque nelles não há os escrupulos da violencia, mas antes as virtudes da gratidão e do reconhecimento a serviços prestados. Assim aconteceu (...) com a preciosa e estupenda colonia de Macau; fazendo-se em favor dos portuguezes esta insigne e singular excepção na politica ciumenta, e reservada do celeste imperio. Os especuladores e viajantes que ahi aportam pasmam e se confundem ao contemplar um punhado de portuguezes grupados na ponta d'um rochedo no angulo d'uma ilha chineza sustentar atravez dos seculos e das vicissitudes dos dois povos um ponto de dominação no patrimonio immenso de uma potencia de que se não sabe contar a população.
Entre os curiosos que mais proximamente viram, examinaram e escreveram as cousas de Macau encontramos o celebre navegador, Dumond D'Urville, que em poucas linhas resumiu a historia desta nossa colonia, terminando pelo triste e desconsolado traço, que nossos leitores apreciarão como lhes parecer. Pareceu-nos seria de proveitoso interesse publicar aqui este curto summario, assim como as reflexões do seu companheiro de viagem, o sueco barão Norberg, acerca dos chinas, curiosas pela perspicacia e originalidade dos conceitos.
«Quando o imperador da China, Khang-Hi, no meado do seculo 16.° consentiu dar aos portuguezes onde pozessem um pé no territorio do seu imperio em reconhecimento dos serviços prestados no exterminio dos piratas, soube combinar de tal sorte as cousas que sem faltar aos deveres de gratidão não prejudicasse com a admissão dos novos hospedes a immunidade e segurança do territorio visinho. Para esse effeito em logar de dar-lhes uma ilha inteira, cedeu-lhes somente uma fracção della, tirada logo ahi uma linha de demarcação que assignava os limites de uns e outros. Em despeito destas precauções o nascente Macau, fundado n'uma epocha em que o genio portuguez desenvolvia toda a força de seus recursos, tornou-se bem depressa florecente e rico. Desta vez os portuguezes, em logar d'um ponto militar, estabeleceram ahi uma colonia commercial onde as suas frotas vindas de Malaca, de Góa e de Lisboa entretinham lucrosa e exclusiva mercancia. Passados tempos, hollandezes, e inglezes, rivaes invejosos de sua fortuna, trabalharam tanto que conseguiram abrir-se-lhes a porta de Cantão, fazendo tambem commercio directo nos portos chinezes; desde então o reinado de Macáo acabou. A este motivo deveriamos accrescentar outro: em Macau, como em todas as demais possessões, os portuguezes não tem actividade e energia senão no introito (aux jours du debut)».
O barão Norberg, que havia corrido o mundo desde Stockolmo até a China com o fim somente, segundo dizia, d'affastar o enjôo de sua existencia, passeava n'uma bella noite de luar na solitaria ribeira de Macau com o seu amigo e co-viajante, Dumond D'Urville. Ahi o silencio da hora, a formosura do firmamento, o estranho da posição n'um canto do mais populoso e ao mesmo tempo mais pacifico e mais original imperio do mundo, a recordação talvez simultanea e comparativa da differença desta casta chineza e das dos outros tão variados povos que tinha visto e tratado, e aquella mesma disposição á melancholia que o levava a distrahir-se e espairecer percorrendo o universo, dictaram-lhe a seguinte passagem, que o viajante francez recolheu e consignou nos seus escriptos.
«Isto agora, meu caro amigo, (lhe disse o sueco) é mais digno d'observação e exame: até aqui não temos visto senão ramagem de povos amesquinhada, enfraquecida, ou modificada pela enxertia; agora temos diante de nós um tronco, uma cepa; uma nação emfim que resiste a todas as invasões exteriores; que dá aos estrangeiros, e nada toma delles; raça estacionaria embora, se assim o quereis, porem ao menos original, caracterisada por suas feições tão bem como por seus costumes, infatuada e vangloriosa de si mesma, e adiante deste orgulho uma nacionalidade indelevel. Se fosse praticável convocar um congresso onde as grandes raças da Europa devessem questionar precedencias, verieis como a raça chineza se collocava per si mesma no logar da presidencia; tal é a confiança e a fé que tem na sua sabedoria, na sua superioridade. Esta presumpção, este desprezo que professa pela civilisação estrangeira, é uma injustiça, sem duvida; mas por outro lado pezai quantas vantagens! Vêde entre nós a cada periodo de progresso como na Europa se abala toda a ordem social? (...) O mundo passa avante, e ao ver-nos atraz nos escarnece e ridicularisa porque nossas pernas, já fracas, não podem marchar tão lestas como as dos mancebos. Em cada uma destas epochas criticas é uma educação toda inteira que temos de fazer: despedaçaram-se os idolos que levavam as adorações até agora, ás vezes mesmo sem se collocarem outros em seu logar: tem-se alterado tão completamente o valor dos factos e dos vocabulos em politica, em moral, em litteratura, em philosophia, que se não sabe onde encontrar as noções do bello, do verdadeiro e do justo. Como não ouso duvidar da Providencia, digo como todo o mundo, é o progresso! Mas por descargo de minha consciencia e de minha rasão, accrescento: é a anarchia!»
O Panorama: jornal litterario e instructivo da Sociedade Propagadora de conhecimentos úteis. Vol VIII, 1844

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