A fisionomia e belleza dos chinas

George Ernest Morrison. China, finais do séc XIX e inÃ-cios séc XX
George Ernest Morrison 
China, finais do séc XIX e inícios séc XX

Os europeus fórmão huma idea estranha da fisionomia dos chinas, pelas figuras pintadas nas manufacturas, ou feitas de loiça, que nos vem de Cantão, e que pela maior parte representão figuras grotescas: he como se hum china de Pekin julgasse da fisionomia dos europeus por huma das muitas caricaturas que os inglezes e franceses téem por costume publicar. Destas falsas noções resulta que geralmente se fórma huma idea ridicula daquella nação grave, pensadora, e digna a muitos respeitos de servir de modelo aos europeus.

Os chinas das provincias do sul téem as feições menos angulares, que os habitantes de Pekin. As pessoas que não vivem muito exportas á influencia da atmosfera mostrão huma pelle tão delicada como a dos portugueses e hespanhoes; mas tal he alli o effeito dos ardores do sol, que alguns chinas que ordinariamente costumão andar nús até á cintura, vendo-se todos despidos, apresentão meio corpo de hum asiático, e outro meio de hum europeu. Em geral elles téem agradavel presença até aos trinta annos; mas passada esta idade, a proeminencia dos ossos das faces dá á sua fisionomia huma expressão dura, e que muito os avelhenta. 

Huma mulher para ser bem feita hade ser magra e débil; pelo contrario o homem deve ser gordo e corpulento. He muito da moda entre homens e mulheres deixarem crescer excessivamente as unhas da mão esquerda e como em rasão de sua fragilidade, ellas ficão assim muito expostas a quebrarem-se, elles as guarnecem ás vezes por dentro de lascas de canna da India muito finas. Este uso he na verdade muito incómmodo pois que as unhas assim crescidas impedem quasi todo o serviço dos dedos. Mas outro uso têem elles ainda mais estranho, e de que se não pode allegar razão alguma, he a mutilação dos pés das mulheres, mutilação pela qual os chinas se distinguem de todos os outros póvos. Nada se conhece, entre elles, sobre a origem deste costume, e sómente que teve principio pelos fins da dinastía de Tang, ou pelo nono seculo da nossa era.

Como he pela pequenhez de seus pés que se avalia a belleza de huma mulher, desde a idade mais tenra as começão a metter a tormento, ligando-lhes estreitamente os pés de modo a não poderem crescer se não em altura: os quatro dedos pequenos são dobrados para debaixo da planta, e assim fortemente comprimidos, de maneira que o dedo grande forma a ponta do pé, o qual por esta cruel operação nunca tem mais de cinco pollegadas de comprimento. Assim tolhidas as mulheres chinas andão com muito custo, o seu passo he incerto e vacilante, dir-se-hia que todas são coxas. Os homens são apaixonados deste ar de fraqueza e soffrimento que huma tal mutilação imprime nas mulheres, e comparão com prazer a sua marcha, quando ellas vão saltando sobre os calcanhares, ao balanceamento de hum salgueiro agitado pelo vento. Tem-se dito que este costume absurdo he hum signal de distincção; porém isto não he exacto: elle se acha introdutido na classe baixa, mais do que se dévia esperar de gente que tem precisão de trabalhar para ganhar a vida. Os çapatos de que usão são de hum trabalho exquisito em bordaduras e enfeites, e ás vezes de excessiva riqueza em perolas e pedrarias: a solla tem pelo menos meia pollegada de grossura.

O vestuario ordinario das chinas consiste em hum roupão largo de seda, mais ou menos elegantemente bordado segundo a qualidade da pessoa: este roupão aberto adiante, do meio para baixo, deixa ver huma especie de saia curta, e as largas calças de tafetá que vão franzir no tornozello, com muitos adornos de franjas e laços. Os cabellos todos puchados ao alto da cabeça alli se ajuntão e torcem em hum mólho: algumas flores enfeitão de ambos os lados este penteado, que se completa com huma especie de sevigné de oiro ou diamantes em roda da testa. Pendentes de orelhas e colares de grãos de coral e materias aromaticas substituem os diamantes das nossas damas. O arco das sobrancelhas he vivamente traçado a favor de huma tinta negra, e hum traço de carmim mui vivo lhes contorna engraçadamente o beiço inferior.

Archivo Popular, leituras de instrucção e recreio, semanário pintoresco, Vol 2 (1838).

Sem comentários: