A antiga povoação de S. Lazaro, hoje encorporada na cidade, está na continuação da parte christã, e é o recinto habitado pelos chins que têem abraçado a nossa religião.
Macau e os seus habitantes, relações com Timor de Bento da França, 1897
Uma pobre povoação de chins christãos com a sua capella de S. Lazaro, que foi a primeira freguezia de Macau.
Um passeio de sete mil leguas: cartas a um amigo de Francisco Maria Bordalo, 1854
Macau e os seus habitantes, relações com Timor de Bento da França, 1897
Uma pobre povoação de chins christãos com a sua capella de S. Lazaro, que foi a primeira freguezia de Macau.
Um passeio de sete mil leguas: cartas a um amigo de Francisco Maria Bordalo, 1854
25 De Outubro de 1818 (26 da 9.° lua do 23.° anno do imperador Kea-king). - «Chapa» do mandarim da Casa Branca ao procurador da cidade de Macau, ordenando-lhe, em cumprimento de outra recebida do vice-rei Yuen, que mandasse recolher para aquem dos muros da cidade todos os christãos moradores na povoação de S. Lazaro, cujo numero de fógos constava ter crescido a noventa e oito.
Ephemerides commemorativas da historia de Macau e das relações da China com os povos christãos de A. Marques Pereira. 1868
A obra de saneamento que primeiro se impunha era a demolição e aterro da horta do Volom. (…) Formado essencialmente de casebres immundos de madeira ou tijolo, assentes n'um solo cavado entre a rua do Campo, o quadro da Guia, a rua do Cemiterio e o bairro do S. Lazaro, era por todos os lados inferior ao nivel dos canos collectores, que não podiam receber os esgotos d'este bairro. Uma fábrica de desfiadura de seda a vapor, que alli existia e que foi a unica poupada pelas expropriações, tinha e tem ainda uma machina destinada a expulsar as aguas e residuos liquidos da fábrica para o mar por uma canalisação metallica directa e especial, condição imposta pela junta de saude para o funccionamento da referida fábrica. Os casebres do bairro, todos térreos, apinhavam-se, como os fructos na sorose d´um ananaz ou d´uma amora, cortados por umas estreitas fachas de terreno, cruzadas em angulo recto, a que pomposamente e por accôrdo tácito se chamava ruas. N'estas, a canalisação reduzia-se a umas vallas descobertas - modelo breveté de Cantão -, repletas sempre de um liquido negro de pez, infecto, pútrido, que fazia a delicia dos habitantes do bairro. Largos, não os havia, que podiam prejudicar as bellezas do conjuncto. Um local talhado adrede para uma orgia de bacterias e vibriões.
Em 1874, o chefe do serviço de saude d'esta colonia, no seu relatorio sobre a dengue, chamava a attenção dos poderes publicos para a horta do Volom. Em 1882 ainda o mesmo funccionario insistia pela remoção das immundicies accumuladas n'aquelle bairro. Pela minha parte, desde que assumi a presidencia da junta de saude, cuidei logo de propor em successivos officios para a secretaria do governo a demolição d'aquelle bairro, por contrario á salubridade publica. Mas os governadores da provincia, animados da melhor boa vontade de sanear a colonia, viam-se enfreados pela estreiteza da verba orçamental destinada a obras publicas e não ousavam emprehender obras de grande vulto pela verba ordinaria.
O tufão de 1885 veio dar uma opportunidade ao governador Thomaz Roza de fazer alguma coisa em favor da hygiene publica. Com o dinheiro que sobrou das reparações dos estragos causados pelo temporal, reparações auctorisadas extraordinariamente pelo governo da metropole, demoliu-se a horta da Mitra; outro foco natural de infecção (…). Arrazada a horta da Mitra, seguia-se naturalmente arrazar a do Volom, separada d'aquella pela largura d'uma estrada apenas. Mas a verba extraordinaria esgotára-se e a ordinaria não dava panno para mangas. Era preciso esperar que viesse outro tufão ou, pelo menos, uma epidemia, para haver pretexto legal de encetar obras de vulto. Veio a epidemia effectivamente e foi de cholera-morbus. Mas a epidemia limitou a sua acção ao lazareto (…).
Surgiu no tempo do governador conselheiro Custodio de Borja uma epidemia de influenza. Mas a influenza, uma epidemia do high-life, atacando de preferencia os ricos e os ociosos, é quasi um documento necessario para que uma cidade adquira foros legitimos de hygienica, elegante e confortavel. Pedir auctorisação para sanear uma colonia visitada por uma epidemia de influenza seria quasi um paradoxo. Até que emfim se ergueu ás portas de Macau o espectro da peste negra. (…)
O governador, com a approvação unanime do conselho do governo, determinou que se procedesse logo ás expropriações e apeamento dos casebres do Volom, que serviam de habitação a chinas, porcos, gallinhas, gatos, ratos e toda a animalidade que povoa um bairro caracteristicamente chinez. (…)
A peste veio infelizmente a Macau no anno seguinte. (…)
Não se limitaram as obras do saneamento da cidade durante o inverno de 1894-1895 á demolição e aterro da horta do Volom. A povoação de Sakom foi arrazada, as ossadas do antigo cemiterio exhumadas e transportadas para fora de Macau, o local terreplenado, as ruas e largos traçados para a futura povoação, de que já hoje existem algumas dezenas de casas alinhadas e sujeitas a condições de construcção previamente impostas. (…)
Parece-me todavia que o restabelecimento da fonte do Lilau, cujas aguas soffreram um desvio de que ninguém cuidou de achar a razão nem a direcção; a exploração dos veios que porventura existam na vertente oeste da collina sobranceira á fortaleza e povoação da Barra; o transporte das aguas da Flora ou da Inveja para os novos bairros visinhos de S. Lazaro; o encanamento das aguas da Solidão, exploradas na origem, para o planalto do hospital militar ou ao menos para a vertente leste da collina; a installação de mananciaes artificiaes na fortaleza do Monte, na collina da Guia e no planalto de S. Januario; emfim, todos os trabalhos racionaes, tendentes a abastecer d'aguas potaveis uma pequena superficie, tão densamente povoada e tão fortemente irrigada pelas chuvas de verão, devem ser largamente compensadores dos esforços produzidos pelas auctoridades locaes para tornarem esta cidade o sanatorium do extremo Oriente.
A epidemia de peste bubonica em Macau de J. Gomes da Silva. 1895
Esse velho padrão da nossa fé, que ameaçava tombar em ruinas, foi salvo durante a admninistração de Thomaz Rosa. Inteiramente reconstruida, a egrea de S. Lazaro é a mais bonita e risonha de todas. Se não lhe tivessem valido estaria a esta hora abandonada como as ruinas de S. Paulo onde os jesuitas tinham o maior collegio do Oriente e que algum tempo occupado por um quartel foi mais tarde pasto das chammas. Hoje, na sua cerca, por onde passeiavam os doutas e virtuosos padres da Companhia, que tanta luz derramaram por este oriente fóra, vivem promiscuamente, n’um chiqueiro immundo, porcos e chinas miseraveis!
Conde de Arnoso em Branco e Negro, semanario illustrado. 20 de Dezembro de 1896
O bairro de S. Lázaro, hoje:

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