Uma festa chinesa em Macau

Thomas Wallace Knox
Thomas Wallace Knox
Harper, 1880-1905. 

É do n.° 808, de A Pátria, de Macau, que transcrevemos êste artigo, da autoria de Madame Tamagnini Barbosa, ilustre espôsa de S. Ex.a o Governador daquela nossa colonia. Madame Tamagnini Barbosa é um finissimo espírito de poetisa, cujo livro, Flor de Lotus, ainda recente, a bem dizer, está para as Belas Letras Portuguesas, como para a Literatura Francesa o famoso e formoso Livro de Jade, de Judith Gaulthier, filha de sangue, da arte e do genio daquele que, entre os Parnasianos, ficou sendo o Divino Theo. O artigo que hoje o nosso Boletim reproduz, constitui um quadro de doces e evocativos tons de aguarela em que a uma inspiração bizarra se associa uma ou outra nota de saudade lusiada.

Boletim da Agência Geral das Colónias, Junho de 1928


Desde manhã cedo que esperamos o momento alegre de ver passar as primeiras figuras decorativas desta memorável procissão chinesa. As ruas tomam um aspecto de desusada animação. 18 de Março de 1928. Dia de luz acariciante. Macau vive hoje a sua hora compensadora e feliz. Abrem-se as janelas de par em par. A multidão apressa-se curiosa de ver entrar neste cantinho, português desde 1557, a China cumprimentadora e sorridente. Macau abre livremente as suas portas para dar entrada ao luzido cortejo que vem alçado de setim e oiro, desprezando a poeira dos caminhos, inclinar-se reverente e amável ante o Governador que pode tornar realidade um sonho de há muito acalentado.

São onze horas, o povo impacienta-se, mas já ao longe se ouve o bater dos tambores chineses, às janelas assomam rostos curiosos, enfim, as nuvens claras e transparentes. Surge, tremulando, a primeira bandeira dum roxo-violeta, bordada a oiro e matiz, elegante e simbólica. Vejo-a inclinar-se respeitosa ao passar diante do torreão do Palácio do Govêrno, onde, por uma feliz e curiosa coincidência, dois Governadores e amigos assistem ao majestoso desfile: o de Hong-Kong, Sir Cecil Clementi, e o da Colónia, Artur Tamagnini Barbosa. É sorrindo e verdadeiramente interessados, que os olhares de ambos contemplam o desfilar das inúmeras bandeiras, recamadas de bordados preciosos, representando lendas; seguem-se-lhes alguns andores decorados a vermelho e oiro, com donzelinhas vestidas a rigor, de faces pintadas como bonecas de biscuit. Ordem, serenidade e uma perfeita compenetração dos papéis que lhes foram destinados, nota-se em todos os figurantes que compõem a luxuosa procissão de hoje.

Mas o momento curioso aproxima-se.

Ao bater ritmado do tambor chinês, surge, no seu maneio, cadenciado e airoso, o primeiro Dragão. Desceu do céu, segundo a lenda, para manifestar, a quem de direito, a alegria do povo chinês, nesta hora, e ao céu voltará, cumprida a missão que o trouxe à terra. Olhos salientes, guela hiante, todo em escamas doiradas e reluzentes, ergue majestoso a cabeça disforme, sacode-a, e, ora saúda, altaneiro e impávido, ora se inclina e humilha rastejante. Enrosca-se o seu corpo de serpente numa vaga atitude de repouso, mas, imediatamente, ei-lo que se distende e, coleando, coleando sempre, toma novas atitudes, movimentos requebrados, ondulantes passos de dança, que lhe fazem dobrar o dorso volutuoso, sacudir alegremente a cauda, tornando vivo e palpitante o estranho símbolo da velha China.

Para traduzir uma alegria verdadeiramente sentida, pareceu ao povo de Heung-Shan que um só Dragão seria pouco e, assim, nesta demonstração de requintada cortesia, são três as serpentes fantásticas, que, vistosas, coloridas, cobertas de sedas de variegadas côres, se incorporam no suntuoso cortejo. Brilham ao soI os arabescos prateados, a pregaria doirada, as pedras reluzentes dos seus complicados ornamentos. Cabeças enormes, olhos esbugalhados, uma após outra, recomeçam o colear requebrado dos seus dorsos faiscantes, o menear onduloso dos seus corpos, maravilhosos de côr e de ritmo. Das dezenas de chineses, ocultos sob as vestes dos Dragões, só os seus pés, calçados de setim, aparecem; e é dos seus movimentos certos e cadenciados que as hidras tomam o serpentear airoso e inconfundivel, que sugestiona e acaba por nos ilusionar.

Que arte natural e instintiva existe nos chineses! Como êstes homens, homens do povo, sabem emprestar graciosidade e vida palpitante ao símbolo misterioso da sua Pátria! Numa longa serpente de 40 a 50 metros de comprido, conduzida por dezenas de corpos diferentes, uma só alma existe. E é desta homogeneidade que nasce o ritmo, a cadência dêstes espectáculos feéricos que a pena não consegue descrever e que os olhos muitas vezes não absorvem completamente.

Ao longo da Praia Grande a procissão pagã segue em todo o seu fulgor, realçada pela beleza do scenário: um mar calmo e espeIhado, onde se projectam sombras de embarcações chinesas e se reflectem todos os cambiantes da luz solar. Ao fundo as altas montanhas envoltas numa transparente neblina azulada, que se dilui pouco a pouco. Sôbre um andor, presa à delicada haste duma flôr, esculpida em madeira rendilhada, uma criança chinesa poisa os pèzinhos levemente, como borboleta sôbre flor viçosa. Mas ainda, nêste ponto, é a arte chinesa que nos cria a ilusão de óptica. Os pèzinhos minúscuIos que poisam na flôr não são os da criança, êsses ficam ocultos; os que apercebemos sob a longa cabaia de sêda são dois sapatinhos que a fantasia do artista criou, mais pequeninos do que a flôr onde poisam. A contrastar com a graciosidade e leveza das crianças em seus andores, vem aos saltos, em cabriolas alégres e buliçosas, um leão doirado e vermelho que oculta nos seus flancos dois dançarinos eméritos. Um china saltitando à sua frente oferece-Ihe, tentador, uma bola de côres, que gira na extremidade dum bambu, e que simboliza a ambicionada lua. O leão salta e piroteia e avança e abre a bôca numa atitude devorante, mas a bola foge-lhe, aparece, desaparece, como por encanto, e o monstro salta de novo, volta, contorce-se, sacode-se, forma o pulo, recua, toma um ar de falso cansaço para apanhar a lua de surpresa; mas à habilidade dos dançarinos ocultos, que atacam, corresponde a agilidade do china que defende o seu tesouro. E a dança segue, segue sempre, ao som monótono do tambor.

Um enorme pavão de grande leque quebrou as grades doiradas da sua gaiola fantástica para juntar a beleza do seu colorido ao berrante e singular cortejo. Airosamente inclina o pescoço longo e flexivel em cumprimentos cerimoniosos. No bico vermelho segura rolos de papel onde estão impressos caracteres chineses, mensagens por certo. Mais um enviado da China, cumprimentadora e sorridente, se oculta sob a rica plumagem dum pavão real. Bandeiras, mais bandeiras de sedas extravagantes; e, a tantas, vão juntar-se ainda as que o Governador de Macau oferece em sinal de boas vindas; azues, verdes, rosas, vermelhas, etc. O cortejo pára um instante para as agradecer e vai seguindo. Torneja agora o jardim do Palácio. 

Atrás dos vários andares os largos chapeus chineses de palha de arroz, com seus decorativos caracteres a negro de Nanquim, encobrem-nos as frontes tostadas dos homens que vieram de longe, pomposamente trajados, para mostrarem à nossa gente que a procissão não é só de bonecos e de símbolos, mas também de homens que esperam e crêem num futuro risonho e próspero, compreendendo o alto significado da procissão de hoje: Novo caminho aberto entre Macau e Seac-ki. Para nós novos horizontes, verdes arrozais, aldeias, monumentos erectos à piedade filial, à virtude e à honra, velhas muralhas defendendo cidades, pontes arqueadas, árvores consagradas ao culto, todo o scenário, enfim, da China latente, que tem para nós o particular encanto da sua antiguidade, que se perde na sombra dos séculos. Para os chineses a certeza dum comércio florescente, o contacto com a Europa Iongínqua, através dos europeus que vivem nestas paragens, um pôrto que há-de ser útil, o convívio íntimo com «Tai-Sai-Yong-Kuo» (Gente do grande Portugal) que, pelos seus feitos de coragem, lhes mereceu há perto de quatro séculos êste lindo rincão da tèrra. Com amor o edificaram, arborizaram, e criaram a seu modo, dando-lhe por tal forma o cunho pitoresco das nossas cidades que, ao virmos do ocidente, depois da longa travessia dos mares e da diversidade das paisagens estranhas, em Macau revemos um trecho risonho das terras de Portugal: casas feitas de retalhos de côres alegres, árvores seculares, cantar dos sinos e, lá, no alto da verde colina, a pequenina, branca Ermida de Nossa Senhora da Guia e o seu velho farol, o primeiro nos mares da China, estrêla fixa dos navegantes, a evocar comovidamente às nossas almas os destemidos portugueses de outras eras, que, tendo espalhado a sua luz pelo mundo, de nós exigem que não mais a deixemos extingir.

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