Sun Yat-sen, Francisco Fernandes, Pedreiros Livres, Tongmenghui e o Lobo Branco

Funeral de Sun Yat-sen Funeral de Sun Yat-sen 
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funeral de Sun Yat-sen
Pequim, Março de 1925
Sidney Gamble

O que pensava siara Debra da prostituição era altamente explosivo para as convicções europeias. A prostituição não era um delito mas um contrato de paz entre os desejos dos homens que os podem levar às mais cruéis batalhas. Uma pei-pa-chai não era uma criatura desprezível, mas o símbolo duma fantasia erótica misturada com os ingredientes da arte e da irresistível chama maternal. Ouvir cantar uma mulher as suas árias de ópera, vê-la mover-se em passos curtos, com doce bamboleio, fazendo girar a sombrinha de papel, é, por si só, uma paisagem celestial. É certo que a pobreza, a mísera vida das tankás, a embriaguez, podem fazer um quadro em que a prostituição se destaca como uma horrível fraude do sentimento. Mas, na sua função ideal, a prostituição na China era, e é ainda, uma forma legal de diversão de espírito dançante, de nuvem luminosa posta diante da terrível realidade da vida humana. (…)

A militância de Sun-Yat-Sen, misto de cavaleiro épico e bandido sonhador mas determinado até à crueldade, começou praticamente em Macau. O pai, sapateiro de profissão em Cuiheng, onde Sun nasceu, seria um refugiado da revolta Taiping, em 1862, abrigado no pequeno território português. O pobre sapateiro da rua do Hospital (que se chama hoje Nolasco da Silva) regressara a Cuiheng, onde Sun veio ao mundo em 1866. 

Desde criança sentira a influência dum dos seus tios que participou na marcha de vinte milhões de homens contra Pekin. Aventura prodigiosa que acabou no fracasso mas que guiou os sonhos do pequeno Sun de doze anos ao empreender o caminho da utopia. Foi por Macau que ele passou para embarcar para os Estados Unidos na modesta ambição de enriquecer no comércio de arroz e de molho de soja.

Para termos uma ideia do que seria o envolvimento nas sociedades secretas do já mencionado Francisco Hermenegildo Fernandes, temos uma carta dirigida por ele a Sun-Yat-Sen, escrita em inglês que ele dominava bem, assim como o cantonense e o mandarim. «Por favor, informe-me se é membro da Fraternidade dos Pedreiros Livres e também a forma secreta de que dispõe para poder fazer chegar até si as minhas cartas». 

Estava-se em 1912 e Sun gozava já o triunfo da revolução chinesa na companhia da sua terceira mulher, a bela Song-Ging-Ling que foi irmã da extraordinária senhora Tchang kai Chek.

Parece ingénua a forma como o Fernandes, que integrou em Hong Kong os quadros da estrutura judicial britânica, possivelmente como tradutor qualificado, se dirige ao poderoso Sun cujas actividades subversivas em Macau acompanhara de perto e muito auxiliara. Numa casa da Travessa dos Santos, que era propriedade dum dos que formaram o Bando dos quatro, sendo aqui o número quatro um desafio à superstição ou até uma provocação à sua própria morte, decorriam as tertúlias ainda insuficientes dos jovens revolucionários. Tão jovens e bem apadrinhados que as autoridades portuguesas não os incomodavam.

Não há dúvida que Francisco Fernandes contribuiu para a segurança de Sun em Macau, pois tinha como encargo efectuar o jogo diplomático entre a comunidade chinesa e a administração da Cidade de Deus. Sun-Yat-Sen concluíu o curso de medicina e foi em Macau, no hospital Kiang Wu, que praticou cirurgia nas condições habituais da época, com assistência das multidões como se fosse espectáculo teatral. O Kiang Wu era propriedade duma associação de Beneficiência à qual pertenciam muitos dos comerciantes de Macau e que estavam ligados ao movimento reformista. Como colónia de um país estrangeiro, Macau oferecia condições favoráveis a actividades subversivas que o próprio governador fazia por ignorar para não quebrar a combinação pacífica das coisas.

Esta vida de Sun em Macau é um romance acabado. Depreende-se que era um jovem audacioso mas não convencido do que seria uma fulgurante carreira política. Aos poucos foi sendo seleccionado pelas diversas entidades que encabeçavam o movimento revolucionário no mundo, a começar pela «Liga Unida», a Tongmenghui, movimento republicano que teve sede na Praia Grande, em Macau, e que funcionava como Centro de Estudos, registado legalmente na Conservatória do Governo.

Foi em Macau, na rua da Felicidade, consagrada aos bordéis, que Sun foi buscar a segunda esposa, no que se pode avaliar o carácter sentimental do que constituía, no centro conspirador de Macau e Hong Kong, um escolhido. Não é propriamente um herói, mas um desses rapazes que desde o vale de Cuiheng descortinam a terra inteira que lhes promete glória e fortuna.

O segundo casamento durou pouco, e o primeiro, ainda que sempre honrado com uma pensão de sustento que em 1914 ainda era paga desde o Japão, não deixou mais memória em Macau do que um túmulo modesto no cemitério da Taipa. Aí estão sepultadas a esposa e as duas filhas do primeiro casamento. O filho, Sun Ke, foi primeiro-ministro em Taiwan, com certeza arrastado pela vingança que os pais merecem e que sempre busca razões nas hostes inimigas. (…) 

Dia após dia, Macau parecia-lhe uma rede intrincada de segredos e de formidáveis dramas. Macbeth e Otelo podiam andar ali lado a lado. Os piratas e os camponeses, os mandarins e as polícias secretas, conheciam-se e trocavam cumprimentos e sinais com um simples abanar de leque ou um sorriso amável. Nunca se sabia ao certo quem ocupava uma cadeirinha transportada por miseráveis cules. Ou quem transpunha as Portas do Cerco, disfarçado de mulher, como fizera Sun-Yat-Sen, para chegar a casa de Francisco Fernandes na rua da Casa Forte, número três. (…) 

Francisco Fernandes esteve sempre no segredo das estadias de Sun em Macau. Preparou-lhe a fuga para o Japão, sendo utilizados os juncos piratas cujos chefes pertenciam à Tríade (…), gente de mão de burgueses do grande comércio ou da aristocracia dos mandarins. (…)

À chegada, o governador Melo Machado não parece suspeitar do que se passa naquelas estreitas ruas mal-cheirosas. Mas sabe com certeza que na rua de S. Domingos, no centro da cidade, existia um centro subversivo conhecido por «clube de leitura» que sustentava o espírito revolucionário da época. Dizer que as actividades revolucionárias eram apenas do conhecimento da comunidade chinesa, não parece muito de acreditar. As autoridades portuguesas não se limitavam apenas a ter relações oficiosas com os líderes políticos, a começar pelo mirífico Sun-Yat-Sen.

O próprio governador interino tinha que encarar (e estava preparado para isso) a época difícil da agitação revolucionária que começaria com a conspiração de Hankow. Ao ser descoberta a conspiração, só restava o levantamento geral. Macau teve um papel importante, contribuindo com a liderança das associações secretas, a que Camilo Pessanha e muitos comerciantes e letrados portugueses pertenciam. Álvaro de Melo Machado, no seu comentário à revolução chinesa, cheia de «muitas dificuldades, muitas complicações, muitas fases críticas e perigosas», não deixa de frisar a responsabilidade portuguesa em Macau, onde os militantes se tinha organizado para obrigar a guarnição militar da cidade de Ch´ien-shan a desertar. Assentava-se, assim, um golpe decisivo no Império. 

O dragão imperial já não estava representado nas festas de 18 de Outubro de 1911, em Macau, festas que celebravam o aniversário de Confúcio. Os revolucionários de Macau, com a sua loja de Luís de Camões, esses estiveram activos na marcha da cidade de Shi-ch´i, capital do distrito de Zhongshan onde a cidade do Nome de Deus está inserida. A transformação da China do século XX que desperta nos movimentos de nove de Outubro e cinco de Novembro começava em Macau. (…)

Sun-Yat-sem chegou a Macau em 1878. Conhecia o pequeno território por tradição dos seus negócios e fraudes, pelo brilho dos seus mandarins, pelas suas histórias de pirataria. Era um lugar ideal para reuniões clandestinas, e Sun não tardou a instalar-se na rua das Estalagens com consultório no primeiro andar e farmácia no piso térreo. A igreja e os sectores tradicionais da comunidade portuguesa viam com desconfiança a presença de Sun e proibiram-lhe o exercício da medicina em Macau, com o pretexto de ele não possuir diploma passado por qualquer universidade de Portugal. Isto fez com que Sun se mudasse para Cantão (…).

Na fotografia que foi tirada para comemorar a recepção que foi dada por Sun-Yat-sen, em 1912, está o pai de siara Debra, um mestiço branco de boa apresentação. A mãe não se encontra entre as dez senhoras europeias, possivelmente porque ela era chinesa, filha duma famosa família de contribuintes da revolução e cujo chefe também figura entre os circunstantes. Camilo Pessanha, com a barba quadrada e uma pose cuidada, como ele gostava, mesmo em fase de degradação, está ao canto esquerdo. São poucos os convidados chineses, do que se presume que Macau contava com um número superior de aderentes portugueses. A fotografia data de Maio de 1912, de quando Sun vai a Macau, instalando-se no palacete de Lou Lin Ioc. A recepção é no Clube Militar e o governador interino, Álvaro de Melo Machado, manifestou-lhe o seu apoio. 

A revolução estava longe de estabilizar a república, e Macau seria ainda durante muito tempo alvo de suspeitas por abrigar chefes revolucionários foragidos. A existência duma seita chamada Lobo Branco acarreta dissabores às autoridades portuguesas, e mais uma vez se volta a falar dos piratas entre cuja tripulação seriam aliciados recrutas a mando de Sun-Yat-sen.

Por muito tempo correu o boato de que o Lobo Branco era europeu e português. Foi uma época romanesca, a que não faltava a polícia secreta, governadores em missões misteriosas e informadores pitorescos, e sobretudo uma ambiguidade nos relatórios que acabariam por pôr em risco a presença portuguesa em Macau. 

Agustina Bessa-Luís em A Quinta Essência, 1999

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