O fascínio pelos pequineses

Radio Digest 
Radio Digest (Maio de 1931 a Maio de 1932)

Quando embarcámos no Franconia, perto do anoitecer, encontrámos pelos corredores e salões uma imensa fauna (...), adquirida pelos nossos companheiros durante a sua permanência no porto. Em gaiolas, chilreavam pássaros treinados pela habilidade e paciência chinesas; em frascos nadavam peixes (...). Mas a tripulação do navio exerce um controlo rigoroso e examina tudo o que os passageiros trazem. Há ordens rigorosas que proibem a admissão de cães. Em todas as viagens transatlânticas, as senhoras mostram-se muito entusiasmadas com a beleza e a barateza de um cão chinês, pequeno, chamado «pequinês» e apressam-se a comprá-lo, mas nenhum chega ao fim da viagem. Conta-me a tripulação que só numa viagem lançaram à água duzentos pequineses e, para evitar a repetição desta mortalidade inevitável e que o navio não cruze os mares como se fosse um canil flutuante, deixando atrás de si um rastro de latidos, a aplicação da ordem é inflexível. 

Algumas senhoras americanas, com a ousadia de sua raça e usando artifícios dignos de um drama cinematográfico, conseguiram meter no seu camarote um lindo cachorrinho, mas antes da partida foram descobertas e tiveram que confiar o bichinho de luxo a carregadores e barqueiros chineses...

La vuelta al mundo de un novelista (tradução livre) de Vicente Blasco Ibáñez, 1924


No Norte há outra raça de cãezinhos, de pêlo comprido e sedoso, orelhas curtas, cauda encaracolada, patas torcidas para fora, olhos muito grandes e salientes e focinho achatado que faz com que a cabeça seja quase redonda. São muito caros e muito procurados pelos estrangeiros que, em diferentes ocasiões, já tentaram adaptá-los na Europa, sem êxito.

Os chineses não dão nome aos cães e quando os chamam é pela sua designação, ou seja, Keu. Algumas vezes ensinam-lhes a apanhar lebres, mas, no geral, são maus para a caça.

La vida en el celeste imperio (tradução livre) de Eduardo Toda. 1890


Diz-se que o Pequinês (ou Leão de Buda) já existe há mais de 4000 anos. Foi levado para a corte da Rainha Vitória pelas tropas britânicas que os descobriram no Palácio de Verão, aquando o saque de 1860. Tornaram-se muito populares na Europa e, depois, nos Estados Unidos, por serem tão diferentes e pequenos, o que fazia deles um fascinante cão de colo. Eram até chamados cão-luva, por constar que se aninhavam dentro das largas mangas dos fatos dos membros da família imperial chinesa, escondendo-se para a poderem proteger, surpreendendo quem se aproximasse com más intencões ou, simplesmente, demais...

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