O casamento faz-se no céu e o negócio em Macau ...

Siara Debra dizia sempre, não se sabe a quem o ouviu:
- O casamento faz-se no céu e o negócio faz-se em Macau.
Ela acreditava à letra em Confúcio (…).

Agustina Bessa-Luís em A Quinta Essência, 1999

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Cortejos de casamento, China.1933-46

Os CHINEZES ajustam em geral os casamentos, sem que os contrahentes se vejam. O negocio, do casamento, aqui, trata-se do mesmo modo, que na Europa se negocéa uma galanteria. Ha velhas insignes no officio de procurar noivos ás raparigas: os noivos confiam no testemunho da sua medianeira, ácerca da belleza, e dos talentos da sua futura. Os parentes não usam consultar as inclinações dos noivos: a escolha compete áquelles, e decidem sobre as condições.

O homem jámais obtem noiva, sem fazer despeza com os parentes d'ella. Concluido o ajuste, e entregues os presentes, ou a somma contractada, juntam-se as familias dos noivos, em quarto reservado, a fim de praticarem as ceremonias do casamento. O pai do noivo inclina-se perante os nomes de seus maiores, invoca seus manes, lê os artigos do contracto, e lança depois a escriptura em um brazeiro, preparado para esse fim.

No dia das nupcias entra a noiva em uma cadeirinha; e acompanhada dos parentes, e amigos da sua familia, parte para casa do noivo. Fazem parte do cortejo turmas de musicos, tangendo instrumentos; e muitos andores, levados por homens, com os symbolos do casamento. A pessoa de mais confiança, da familia da noiva, leva a chave da cadeirinha. O noivo espera a sua futura esposa, á porta da casa paternal: assim que ella chega, recebe a chave, e abre a cadeirinha: n'esse momento conhece a sorte do lance, jogado pela sua medianeira, ou parentes. Algumas vezes, succede fecha-la com a mesma rapidez, com que a tinha aberto: e tornar a noiva para casa de seu pai. N'este caso, perde o noivo o dinheiro, que tinha dado ao pai da noiva. 

Se esta agrada ao noivo, dá-lhe elle a mão, para sahir da cadeirinha, e leva-a para a sala do festejo: praticam alli, perante os convidados, as ceremonias, que apertam o laço do casamento; isto é, lavam as mãos de costas um, para o outro; depois faz a noiva quatro mesuras ao noivo, e este retribuo com duas; entornam gotas de vinho pelo chão, e acabam as ceremonias, tirando os manjares, de que mais gostam, para um prato: comem ambos d'elle, bebem pelo mesmo copo (...).

De tarde conduzem a noiva ao quarto do marido: acha sobre uma mesa tesoura, linhas, agulhas, e algumas peças de fazenda, para saber, que se deve applicar ao trabalho. Sabes, que na Europa o uso é mui differente: a noiva acha no seu quarto um açafate com flores, fitas, e aguas de cheiro, para se lembrar, que deve entregar-se aos enfeites, e á galanteria. 

É tolerado juntar a uma mulher legitima, quando esta é infecunda, outras mulheres da segunda ordem: entram para casa, sem precedencia de formalidades. O homem dá aos pais a somma convencionada; promette-lhes, por escripto, tratar bem sua filha; é quanto basta. As segundas mulheres são em tudo subordinadas á primeira, como já te disse.

Os divorcios são mui raros na China, apezar de serem permittidos, em muitos casos. Os chinezes têm, por maxima, que juntar dois corações antipathicos, é o mesmo que ligar um corpo vivo a um cadaver. Eis o motivo de tornar a noiva, para casa de seus pais, se não agrada ao noivo.

Cartas escriptas da India e da China nos annos de 1815 a 1835, por José Ignacio de Andrade a sua mulher d. Maria Gertrudes, de José Ignacio de Andrade. 1847
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