Mais virtudes na China do que em qualquer parte

Na vespera da minha partida de Cantão, cortaram as cabeças a alguns dos prisioneiros de Kuang-si fóra das muralhas da cidade, em um logar destinado para as execuções, no districto onde é permittido aos estrangeiros o livre transito. Lá os foram ver muitos dos nossos, - os chins mal se atreviam a miral-os de longe.

Um passeio de sete mil leguas: cartas a um amigo de Francisco Maria Bordalo, 1854

Sidney D. Gamble Sidney D. Gamble
Sidney D. Gamble Sidney D. Gamble
Sidney D. Gamble. China, 1917-29

Os filósofos não gostam das imagens e continuam a olhá-las com desconfiança pois são potenciais rivais dos seus escritos. Antropología da imagem de Hans Belting. 2007


Montesquieu, fosse por desejar amoldar as cousas da China á sua opinião, fosse por julgar, que, para dizer a verdade, bastava contrariar os jesuitas, escreveu falsidades, ácerca d'este imperio. «Ignoro, diz elle, o que seja honra no paiz, onde tudo se manda fazer ás bastonadas.»

Na China pune-se o malevolo com bastonadas, quando não se lhe póde infligir outra pena, equivalente ao número das bastonadas, segundo a especie, e o gráo do delicto: na Europa bastona-se arbitrariamente. Ainda ahi são os militares punidos com o bastão. A primeira das leis, que te envio n'esta carta, demonstra o engano de Montesquieu.

«A necessidade, ou a natureza do clima, diz ainda, deu a todos os chinezes cobiça inexplicavel; e os seus legisladores não cuidaram em atalha-la. (...) Na China é permittido enganar: assim, não póde comparar-se a moral dos chinezes com a dos europeus.»

Muito illudido estava aquelle célebre escriptor, acerca dos chinezes! Que diria, se vivendo, visse no codigo penal da China penas gravissimas contra os enganadores? Que diria, se lêsse na viagem do seu patricio S. Croix, á China, serem os europeus os enganadores dos chinezes? Montesquieu avaliou estes pelos gregos, e romanos; enganou-se! Voltaire, ácerca da China, firmou o seu juizo em factos, expendeu a verdade. Sim, Voltaire vio por informações exactas o espirito de ordem, o gosto das sciencias, a perfeição da moral, e a cultura das artes necessarias á vida, parte essencial da sabedoria chineza. (...)

Tratando da sabedoria que preside a este imperio, ha mais de quatro mil annos, deves lembrar-te, que não fallo do vulgo; esse é o mesmo em toda a parte, destinado a occupações braçaes; comtudo, nos logares onde ha boas leis, e justiça, o povo tem logar, para adquirir o pequeno número de idéas, que precisa, para se conduzir pela razão. Ainda não te disse, que o meu bom amigo J. M. DA COSTA SILVEIRA DA MOTTA analysára a doutrina dos legisladores chinezes, e me brindara com o resultado d'essa analyse. 

Possuindo razão illustrada pela experiencia, adquirida no officio de Cicero, e methodo analytico, pelo costume da exposição de cada termo no texto das leis, demonstrou, em poucas paginas, as perfeições, e defeitos contidos no codigo penal da China.

Achou n'elle optimas leis, e leis pessimas; louvou aquellas, e julgou provirem estas da auctoridade paternal concedida ao imperante, e de ser aqui a mulher uma propriedade comprada pelo marido. Concedo; porém tendo a nação esta doutrina por melhor, como haviam os legisladores, na formação do codigo, dispensar os subditos do respeito filial devido ao imperador, e a mulher da sujeição devida ao marido por leis promulgadas, e estabelecidas pelo imperador Fou-Hi, ha 5:300 annos (...) ? Todos lhe obedecem gostosos: quando uma lei tem o cunho de 5:300 annos, tem direito a ser venerada. (...)

O nosso amigo fez a sua analyse como philosopho, e como jurisconsulto: como bom cultor da philosophia exultou, vendo leis ungidas com a moral de CONFUCIO: como versado no conhecimento das leis, teve de fechar o livro, de affrontado, na presença de algumas contrarias á natureza intelligente, e por isso refutadas por mui abalisados jurisperitos (...).

Assim podêmos concluir, não ser dado a povo algum possuir codigo perfeito. Todavia, se as leis tendem a fazer os povos virtuosos, assevero-te, guardada a proporção dos habitantes, que se praticam mais virtudes na China, do que em outra qualquer parte do mundo.

Cartas escriptas da India e da China nos annos de 1815 a 1835, por José Ignacio de Andrade a sua mulher d. Maria Gertrudes. José Ignacio de Andrade, 1847.

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