Uma cena chinesa nas ruas de Macau.
1825-1852 George Chinnery
No dia 9 de Julho lançámos a âncora na rada de Macau. A Cidade pertence aos portuguezes, e terá vinte mil habitantes. Está em uma posição encantadora, junto do mar, e acompanhada de lindas cadeias de collinas e de montes. São notaveis particularmente o palacio do Governador, o convento catholico da Guia, as fortificaçoes e mais alguns bonitos edificios situados sobre as collinas em uma desordem pittoresca.
Mal tinhamos ancorado logo muitos chinezes subiram ao convez da nossa embarcação, conquanto outros mostravam nos seus barcos muitos objectos, fructas, pastelaria, arranjando-os com muita ordem, e formando em roda de nós um verdadeiro mercado. Alguns até elogiavam os seus géneros em mau inglez; mas pouco negocio fìzeram, porque a equipagem apenas comprou alguns cigarros e fructa.
O Capitão Jurianse afretou um barco, e logo fomos para terra. Para poder desembarcar foi necessario pagar ao Mandarim meia pataca hespanhola. Este abuso, secundo vim a saber foi abolido pouco depois.
Atravessámos grande parte da Cidade para chegarmos ás casas dos negociantes portuguezes. Os europeus, tanto homens como mulheres, podem andar com segurança pela Cidade sem perigo de serem apedrejados como nas outras Cidades da China. Nas ruas habitadas só por Chinezes havia grande movimento. Viam-se grupos de homens assentados na rua a jogarem o dominó, e nas lojas serralheiros, marceneiros, sapateiros e outros officios: via-se trabalhar, jogar, conversar e comer. Poucas mulheres vi, e estas só do povo baixo.
Nada achei mais curioso do que o modo como os chinezes comem. Servem-se de dois pausinhos, com que levam a comida á bôca com muita habilidade e delicadeza. Quanto ao arroz chegam o vaso da comida ao pé da bôca e mettem grande quantidade com os mesmos paus, ainda que algum torna a cair no vaso, de um modo pouco appetitoso. Para os liquidos servem-se de colheres redondas de porcelana.
A construcção das casas nada tem de particular; a fachada é de ordinario para um pateo ou para um jardim. Entre outros logares visitei a gruta em que o celebre escriptor portuguez Camões compoz, segundo se diz, os seus Lusiadas. Por ter feito a poesia satyrica Disparates da India foi desterrado em 1556 para Macau, onde passou muitos annos, até que foi chamado para a patria. A gruta está situada perto da cidade em uma elevação encantadora.
A Woman's Journey Round the World de Ida Pleiffer. 1847
apud Annaes do Conselho Ultramarino, parte não oficial. 1854/1858
Sem comentários:
Publicar um comentário