A medicina legal na China

O Tribunal
O tribunal (186?) Colecção de Miriam e Ira D. Wallach. 
Biblioteca Pública de Nova Iorque

Na China houve sempre da parte das auctoridades a maior solicitude em constatar os homicidios e verificar nos cadaveres das victimas a existencia do crime. Ha para isso um livro que todos os magistrados possuem, e que se chama «Si-yeun» que quer dizer «lavagem da cova». Lava-se o cadaver com vinagre e expõe-se aos vapores de vinho de arroz, a ferver; esta operação é feita dentro de uma cova onde se colloca o cadaver, sobre travessas de madeira, depois da cova ter sido previamente aquecida com um grande lume de lenha, e a que se põe uma cobertura qualquer que não deixe sair os vapores do vinho para que ataquem o corpo por todos os lados. Duas horas depois, dizem elles, todas as feridas e contusões estão perfeitamente nitidas no corpo, e é pelo exame d’ellas que se conhece a causa da morte!

Todo o magistrado é obrigado pela lei a fazer exhumar os cadaveres, embora em estado de decomposição, logo que haja denuncia de que a morte não foi natural, e lá está o livro para explicar depois em que posição estava o homem, se morreu, por exemplo, estrangulado, e de como tinha sido feito o nó da corda que lhe acabou com a vida, etc. 

O livro diz e explica tudo; o que é preciso, e n´isso é que está o saber, é interpretar bem as manchas que o cadaver apresenta. Mas ha melhor. Appareceu, por exemplo, um cadaver carbonisado; necessario é que a justiça saiba se o corpo foi mettido no fogo para que desappareçam os vestigios de um crime, ou se o homem morreu em consequencia do mesmo fogo. Nada mais facil de saber, porque o «Si-yeun» diz logo: se o cadaver tiver cinza na bôca e nas narinas, houve crime; se não... não.

Cousas da China, costumes e crenças de Callado Crespo, 1898

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