Um chinês não diz a hora do nascimento a ninguém

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É certo que bagate quer dizer feitiço. Mas como se opera, como se atinge o seu objectivo? Ninguém é estranho ao desejo de convencer, desarmar e repelir o outro. Ninguém fica indiferente ao combate de duas vontades, seja pelo elogio, a sedução ou, se preferirem, o massacre puro e simples. Bagatear quer dizer levar alguém ao estado de inacção, deixando de constituir estorvo ou perigo. Em Macau pai sin ian quer dizer afugentar os inimigos. A palavra pai traduz um rito religioso, ou um rito aplicado à vida quotidiana em que nada de anormal acontece. Mas o bagate está lá.

Agustina Bessa-Luís em A Quinta Essência, 1999


Conhecer a hora de nascimento de uma pessoa significa possuir uma arma contra ela. Esse dado pode ser usado para lhe ocasionar desgraças, para analisar a sua personalidade e prever as suas reacções numa situação particular. Por isso, muitos políticos asiáticos escondem a sua hora de nascimento ou indicam uma que não é a verdadeira.

Toda a gente sabe que Deng Xiaoping nasceu a 22 de Agosto de 1904 (ano do dragão!), mas ninguém sabe exactamente a que horas. Esse é um dos maiores segredos da China. Mao Tsé-Tung e Chu En-Lai não conseguiram fazer o mesmo. Nos anos 20 ambos viviam em Xangai e consultaram – quem sabe se por brincadeira, se por acreditarem – o astrólogo mais famoso dessa cidade, um tal Yuan Shu Shuan.

Quando em 1949 os nacionalistas fugiram da China e foram refugiar-se em Taiwan, entre as montanhas de documentos que levaram consigo também iam as fichas com os horóscopos de todos os clientes do Mestre Yuan, que ele conservara diligentemente. Os das personalidades que entretanto se tornaram famosas foram publicados. Com base na hora de nascimento que Mao e Chu haviam indicado ao Mestre Yuan, um astrólogo de Taiwan, em 1962, vaticinou que morreriam ambos no mesmo ano, 1976. E assim aconteceu.

Uma vez que é do conhecimento geral que na Ásia muitas decisões políticas são tomadas com base na astrologia, os serviços secretos de vários países da região têm ao seu serviço peritos, cuja tarefa é prever aquilo que os astrólogos dos seus adversários possam pensar e sugerir em determinadas situações, perante certas alternativas. É sabido que os vietnamitas, os indianos, os coreanos do Sul e os chineses dispõem de uma secção de «Astrologia» nos seus serviços de contra-espionagem. (…)

A história do mundo está cheia de profecias e de prodígios, mas a impressão dominante, sobretudo no Ocidente, é de que isso são coisas do passado. Na Ásia, porém, o oculto ainda serve para explicar os factos do quotidiano, pelo menos tanto quanto a economia, e até há pouco tempo, a ideologia.

Na China, na Índia ou na Indonésia, aquilo a que chamamos superstição continua a ser um facto do quotidiano (...); a escolha do nome para um filho, a compra de um terreno, a venda de um lote de acções, a reparação de um telhado, uma data de partida ou uma declaração de guerra são decisões que dependem de critérios que nada têm que ver com a nossa lógica. 

Tiziano Terzani em Disse-me um adivinho, Em Viagem Pelos Mistérios do Extremo Oriente. 2014
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