Todas as mulheres de alta cathegoria têem os pés aleijados

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imagens de 1902 (à excepção da penúltima, de 1905)
Universidade de Bristol, Colecção de fotografias históricas da China

O china pobre passam ama vida arrastada, mourejam de sol a sol para grangear o sustento diario. Os homens, em geral operarios, saem de manhã depois de terem tomado a primeira refeição, e só recolhem noite fechada para comer o magro arroz e repousar. As mulheres têem a lida da casa, das creanças e dos animaes domesticos. Não lhes sobeja tempo e passam vida miseravel. Os negociantes remediados vivem em commum com os caixeiros, com os quaos comem em communidade, havendo sempre o cuidado de afastar as mulheres dos homens. (...)

Todas as mulheres de alta cathegoria têem os pés aleijados, porque os chins favorecidos da fortuna mandam comprimil-os com ligaduras ás filhas desde a mais tenra idade e calçam-lhes depois uma especie de botinhas de seda muito pequenas e ponteagudas nas quaes não entra senão pequena parte do pé. D'est´arte os pés vão-se atrophiando, de sorte que as mulheres de classe elevada não podem andar sem o auxilio de creadas graves, em que se apoiam. Quando saem de casa vão fechadas em cadeirinhas ; outras ha que caminham firmando-se em chapéus de sol; também vimos algumas ás cabritas das creadas. 

Este defeito nas mulheres, que nascem na opulencia, serve para ostentar a grandeza de suas familias. Recorre-se a varias lendas para explicar esta, como quasi todas as usanças chinas; é summamente interessante o que diz a tradição. Suppõem uns que se deve tal usança a T´an Ki, formosa imperatriz que nasceu 1:100 annos antes de J.C. com o pé enfezado, e que, para evitar que as damas da sua corte e sequito troçassem de tal deformidade, exigiu de seu marido o imperador K'ang Vang, que publicasse um edito obrigando a comprimir os pés das rapariguinhas até tomarem conformação identica á dos seus. 

Diz outra versão, que o apertar-se o pé, data da epocha do imperador Ho-Ti (501-502 de J. C.) da dynastia T'Si. Este monarcha tomou por concubina a meretriz Chai Paufei, a qual inaugurou a moda do pé pequeno, ao ver que os homens apreciavam mais as mulheres com este requisito. Conta-se que o efeminado principe fez alcatifar com lyrios o caminho por onde devia passar a sua deidade. D'aqui provém que ainda hoje se chamem Kinlién (os lyrios de oiro) aos pés comprimidos. 

Finalmente, outra tradição attribue as honras de iniciadora da moda do pé pequeno a Yao Niang, concubina do imperador Ly-Yu, com o qual acabou a sua ephemera existencia a dynastia Tang do sul, em 975 de J.C. O livro Pemei Tu (ou retratos de cem bellezas) publicou o dessa celebre beldade, e copiou também o que sobre ella disse outro livro intitulado Tao-shan Ts´ing Hoa (ou palavras puras da montanha da virtude). 

«Yao Niang, referia o livro, concubina de Ly-Yu, era subtil, formosa e uma dansarina consumada. Seu senhor possuia lyrios de oiro de seis pés de altura, entre os quaes se viam imagens de resplendentes nuvens, e pediu a Yao-Niang que dansasse ali por cima com os pés dispostos em forma de meia lua. Por este motivo se compozeram os seguintes versos: «Entre os lyrios se vê uma formosa flor / E entre as nuvens um quarto crescente» que foram escriptos em homenagem a Yao Niang. É indubitavel que o costume de apertar os pés ás rapariguinhas não se introduziu na China até ao seculo IX e X da nossa era, aclimatando-se pela força irresistivel que a tyranna moda tem em toda a parte, jamais tratando-se do sexo feminino. 

No tempo da dynastia Ming chegou a cair em desuso, porém breve reviveu com maior intensidade. Como acima de tudo este costume offerecesse serios inconvenientes para o desenvolvimento das mulheres, o imperador tartaro K'ang Hi prohibiu-o ao terceiro anno do seu reinado, por decreto que veiu a ser abolido quatro annos mais tarde, a pedido do ministerio dos ritos de Pekim. De então para cá o seu uso generalisou-se de entre as raparigas que nascem nas dezoito provincias da China propriamente dita; exceptuam-se as de familias muito pobres, que devem dedicar-se ás arduas fadigas da agricultura ou da pesca.

Começa-se a comprimir os pés das raparigas quando têem um anno ou quatorze mezes de idade, apertando-os com ligaduras cujas voltas obrigam os dedos pequenos a inclinar-se para debaixo do pollegar, ao mesmo tempo que o calcanhar é forçado também a deslocar-se para a planta do pé. Tudo isto faz com que a articulação natural se atrophie e que o pé fique apenas formado por metade da respectiva planta, não podendo firmar-se senão nas pontas dos dedos. O arrocho das ligaduras impede a circulação do sangue, e prejudica os musculos e tendões d´aquellas extremidades. Tudo isto dá azo a que desappareçam as barrigas das pernas ficando só as canellas; toda a parte fibrosa se concentra nos musculos, que adquirem grande desenvolvimento. Quando se começa a empregar as ligaduras padecem as raparigas dores atrozes, mas depressa vem a paralysia, e aos dois, ou tres annos, não parecem soffrer cousa alguma. As ligaduras não são nunca postas de banda e substituem-se com pouca frequencia, ao que se deve, sem duvida, que os pés e as pernas das mulheres estejam sempre cobertos de crostas e porcaria, visto que tão razas vezes se lavam. 

Attenta a actual maneira de pensar dos chinas, será difficil abolir-se este costume, porquanto, ainda as familias mais ricas e poderosas, encontrariam grandes empenos para obter marido a uma filha, que não tivesse os pés deformados. É curioso que os chins nos accusem de mais barbaros do que elles, quando os censurámos pela brutalidade de tal costume. Attribuem-nos, porém, maiores responsabilidades por consentirmos ás nossas mulheres o uso e abuso do espartilho. Elles talvez tenham rasão: ao menos os pés deformados não podem implicar mal algum aos seres a que damos a vida. 

Macau e os seus habitantes, relações com Timor de Bento da França, 1897 
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