Pé de cabra ou cintura de vespa?

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Anos 80 do séc. XIX, Colecção de Miriam e Ira D. Wallach

Antes de entrarmos em algumas considerações sobre a origem da deformação dos pés das mulheres chinezas, vamos expor muito por alto a forma por que tal operação é feita, servindo-nos para isso de esclarecimentos prestados pelo dr. Cooper á associaçãao de medicina de Londres, depois do estudo que fizera do pé de uma chineza, estudo que não é facil fazer por ser quasi impossivel ver na China o pé de uma dama, o que representa a quebra de todo o respeito que por ella se tenha, pelo que os maridos e os paes não permittem que alguem lh’os veja em vida, e muito menos consentem que no corpo dos mortos se façam estudos anatomicos, o que, segundo os chinezes, é um dos maiores sacrilegios que se podem commetter.

O dedo grande do pé, diz o dr. Cooper, é dobrado para cima e para baixo muitas vezes até se deslocar completamente; o segundo e o terceiro são dobrados para baixo, de fórma que fiquem sob a planta do pé. A cabeça do dedo grande separa aquelles dois do quarto e quinto dedos, sendo estes tambem dobrados mais obliquamente, ficando o quinto entalado entre o quarto e a planta do pé.

Bem ligados então os dedos, dobra-se o pé approximando os dedos tanto quanto possivel do calcanhar, fazendo com que o pé forme um arco que mais tarde é cheio de um tecido cellular muito compacto. Com o tempo o osso calcaneo toma um grande desenvolvimento de cima para baixo, ficando em linha recta com a tibia e o peroneo. O calcaneo, a extremidade do metatarso do dedo grande e os dois dedos mais pequenos dobrados para baixo constituem os tres pontos que se apoiam no solo para se andar; não ficando o pé com mais de 3 pollegadas de comprido por 3 1/2 de altura. Os musculos da barriga da perna, não tendo um livre desenvolvimento, dão á perna a forma conica do joelho para baixo. Os pés quando se lhes tiram as ligaduras, em que andam sempre envolvidos, são extremamente desagradaveis á vista, já pela fórma que apresentam, já por que a pelle que envolve todo o pé toma um aspecto repugnante, parecendo ter sido coberta de espuma de sabão. 

Quando os pés das creanças são deformados nos primeiros annos, é menos dolorosa a operação, porque os ossos offerecem pouca resistencia, e parece que depois da creança se tornar mulher não soffre tanto quanto se suppõe. Mas se a rapariga é operada depois dos sete annos, é preferivel dobrar-lhe todos os dedos para baixo, mettendo-lhe os pés em sapatos de madeira que obstem ao desenvolvimento dos musculos e dos ossos. N’este caso a mulher soffre sempre mais ou menos. 

Passemos agora á origem provavel d’este barbaro costume, considerando de pouco valor a lenda chineza que diz ter começádo no tempo da dynastia «Chow», 1100-225 A.C, vulgarisando-se na epocha da sexta dynastia, 220-580 D.C.

Os europeus, em geral, suppõem que a deformação dos pés foi um dos expedientes de que o caracter ciumento dos chinezes lançou não para obrigar as mulheres a ficar em casa, por Ihes ser doloroso o andar. Isto tem-se escripto muita vez, e nós mesmo já o ouvimos a alguns chinezes. Nós não acreditamos, porém, que essa fosse a causa. A mulher chineza é condemnada a viver sempre em casa, porque esse dever Ihe é imposto pela civilisação que a China adoptou ha milhares de annos e que ainda hoje conserva. Quantos exemplos nos não dá este povo do seu espirito conservador? Quantas superstições ridiculas aos olhos dos proprios chinezes se não praticam ainda hoje só porque os seus antepassados as estatuiram? Remontando mesmo a esses tempos primitivos, mais antigos ainda que as religiões hoje seguidas, nós vemos a vida da familia servir de norma para a constituição do governo patriarchal que rege o imperio. Vemos que o assumpto que mais tem chamado a attenção dos governos e dos governados é o exapto cumprimento dos «ritos», chave de toda a organisação chineza.

E os «ritos», prescrevendo todas as regras que se devem adoptar n’este mundo com uma minuciosidade espantosa, não tem uma palavra, sequer, a respeito dos pés das mulheres, quando n´aquellas prescripções não foi esquecido regular os fatos, o penteado e cousas mais insignificantes da vida domestica. Que tivesse havido algum homem de tal fórma ciumento que mutilasse os pés de sua mulher, comprehende-se, e cremos mesmo que ainda os ha, e capazes de muito mais. Que esse exemplo fosse seguido por alguns ainda se admitte. Mas que um povo inteiro, que mantem a sua unidade de raça ha milhares de annos, tenha quasi desde tempos immemoriaes adoptado tal costume, só por ciume, e para não deixar sair as mulheres de casa, não nos parece rasoavel nem crivel. Demais a mais, elles deformam não os pés das suas mulheres, mas os das suas filhas, o que faz uma grande differença. Os «ritos» determinam a separação dos dois sexos, e que a mulher não pode saber ler, que não deve sair de casa, que não póde sentir ou inspirar amor, que deve casar com um homem que vê no dia do casamento e a quem não sabe o nome, que ella é apenas um objecto material indispensavel á propagação da raça! Legislou-se assim ha milhares de seculos, cumpriu-se então, e cumpre-se ainda hoje, porque foram os antepassados que assim o entenderam.

O povo chinez, hoje como sempre, não pensa, não sente; cumpre o que está escripto, mantem as tradições, e isso lhe basta para tranquillidade da consciencia. Estabeleceu-se o costume de deformar os pés ás mulheres; que importa saber por quê e para quê? O que é indispensavel é fazer o mesmo que os antepassados fizeram, e que as gerações futuras nada modifiquem ao que se lhes ensinar. Ora se nos livros dos «ritos» não ha nada escripto a respeito dos pés das mulheres, se não é admissivel o ciume como origem da sua deformação, onde está, pois, a causa? 

Quanto a nós, é provavel que alguma dama ou princeza (devia ter sido princeza...) dos tempos antigos, orgulhosa dos seus pés pequenos, fizesse com que a moda desse grande valor áquellas que a natureza tinha favorecido com uns pésinhos minusculos; e que a moda, quem póde fugir a ella? obrigasse ao uso de sapatos pequenos a despeito das dores intoleraveis que toda a gente sabe que causa uma bota apertada. D’ahi a preferencia áquellas que tinham pés pequeninos, e que ainda hoje se traduz pela difficuldade que tem em casar as mulheres de pés não deformados. E as mães, sempre solícitas em tudo que póde tornar suas filhas preferidas, na idea talvez de lhes garantir o futuro, começaram a ligar-lhes os pés a pouco e pouco, de forma que com o decorrer dos seculos deu o resultado que hoje faz a admiração do mundo civilisado, mundo que ainda ha pouco não conhecia a China, que sempre se tem conservado no limite das suas fronteiras sem querer entreter relações com os outros povos da terra.

É doloroso, verdade, ver as pobres mulheres tentar equilibrar-se, inclinando-se ora para a direita ora para a esquerda, como um acrobata sobre a corda, chegando muitas a terem de ser amparadas pelos creados para não caírem, ou de irem ás costas d’elles. Mas tambem é incontestavel que aquellas que não tem aias e creados, andam milhas e milhas a pé sem mostrarem soffrimento algum. E mesmo as ricas, as taes que vão ás costas, passam ás vezes tardes inteiras nos seus jardins, jogando á bola, o que as obriga a correr e a saltar. Ora se n’estes exercicios ellas não mostram dor ou fadiga, se de facto aquelles pés são, como nós cremos, sem vida, é muito natural que a affecção e o coquetismo, natural impulso da vaidade feminina, não sejam estranhos ás difficuldades de equilibrio que ellas apresentam defronte das pessoas de fora: por serem chinezas não deixam de ser mulheres. 

Ultimamente as senhoras europêas, residentes na China, começaram a fazer propaganda contra aquella deformação, por iniciativa das damas inglezas a quem Deus conserve os grandes pés que teem. É humanitaria a propaganda toda a gente dirá, á primeira vista; e não haverá coração simples que não sympathise com tal idéa. Nós, porém, já estamos muito descrentes da sinceridade de algumas das chamadas boas obras, e esta é uma d’ellas. Procuram porventura as damas europêas incutir ás da China o temor de Deus verdadeiro, e o amor do proximo, e do trabalho honesto, unicas bases que podem civilisar um povo? Não, que para isso lá andam os missionarios de todos os paizes na sua ingrata e penosa tarefa, e a respeito dos quaes a maior parte das pessoas se não lembra sequer que elles existem. 

A propaganda contra a escravatura da mulher e da creança, embora na China tambem, essa nem se pensa, porque não vale a pena fazer-se, pois que traria despezas, sacrificios e desgostos, emquanto que promover abaixo assignados dirigidos ao imperador, é cousa facil e que dá nas vistas. Depois, os jornaes fallam tecendo encomios; as familias na Europa choram de ternura, ao saberem que os parentes que vivem cá longe, no celeste imperio, a milhares de leguas, promovem o bem-estar das desgraçadas aleijadinhas, victimas de um povo barbaro. Os amigos escrevem cartas laudatorias, pondo em relevo as virtudes de corações bons e generosos. Adoraveis!

Não pense quem nos lê, que nós, redicularisando tal propaganda, defendemos ou approvâmos a deformação dos pés. De fórma alguma. Mas um costume embora mau, que seculos não tem conseguido destruir n’um paiz conservador das suas tradições como nenhum outro, póde acaso fazer-se desapparecer com um abaixo assignado dirigido ao imperador, ás mãos do qual se sabe que não chega? E dirigido por europeus a quem os chinezes votam um odio de morte, e por mulheres que elles consideram em toda a parte escravas? E alem d’isso temos nós a força moral para ir prégar contra um costume barbaro, é verdade, quando nós os povos civilisados bem precisavamos que os chinezes viessem fazer propaganda a nossa casa a favor das suas tunicas e cabayas? Não usam as nossas mulheres outra moda de peiores consequencias que a deformação dos pés? Pois o espartilho não é peior? Quantas mulheres, devido a elle, não tem sido victimas de doenças que legam, como herança terrivel, aos filhos inoffensivos? Qual será, pois, mais barbaro, a deformação dos pés, que faz chorar uma creança tres dias, ou a deformação do peito, que victima tanta gente? Qual é mais ridiculo, uns pés de cabra, ou uma cintura de vespa?

Confessâmos que não sabemos resolver o assumpto. O melhor será que as senhoras europêas e as senhoras chinezas cheguem a um accordo, porque assim talvez adoptem as duas modas ao mesmo tempo, e que nós, depois de taes modas bem transformadas pelo espirito inventivo das que as usam, talvez tenhamos ainda por companheira, não a mulher que Deus creou, mas um animal diferente... que deve ser muito curioso. Isto é se toda aquella phiIanthropia contra os pés pequenos não tem por fim abrir novos mercados á industria da sapataria. Quem sabe?

Cousas da China, costumes e crenças de Callado Crespo. 1898
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