O jantar do rico negociante ship-chandler

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1. Universidade de Bristol, Fotografias históricas.1903.
2.Um jardim chinês, Geldolph Adriaan Kessler. 1908

Fomos convidados a jantar, eu e os meus companheiros europeos que estavam no pagode chin, por um rico negociante «ship-chandler» (ou fornecedor de navios) desta nação, chamado Hahao, parente do seu principal bonzo e sócio ou amigo do opulento chim Wampoa de quem já havíamos ouvido fallar muito em toda a cidade, e com quem mesmo havia jantado Mr. Waverley um dos nossos companheiros de viagem de Shang'hae para Inglaterra, no seu fu (palacio) ou magnifica casa de campo que, parece, reune todas as commodidades á ingleza, á elegancia e sumptuosidade dos chinas.

Mettemo-nos, pois, outra vez nas exquisitas carruagens de aluguel, do paiz, especie de guarita, ao alto, sobre duas rodas, com dous varaes e um cavallo (…) um só assento para duas pessoas, com uma porta de cada lado e janellas por todos os lados; e assim nos dirigimos para casa de Hahao.

Um pouco mais da metade do terreno estava occupado por bellas alamedas, bonitos pateos, e vistosissimos jardins, vendo-se aqui e acola cascatas lindas, pontes phantasticas, viveiros de plantas, de peixes em tanques feitos a capricho, e de passaros, especialmente pavões e faisões dourados, brilhando e animando tão aprazível e pittoresca scena, entre as numerosas jarras de porcellana ou de outra louça pintada e envernisada, contendo arvores em miniatura, jasmins, plantas trepadoras, flôres de toda a especie e mesmo até parreiras.

A sala ou o quarto principal era ao réz do chão, aberta para o lado do jardim na frente, um repartimento de persianas formava a separação entre o quarto de cama e aquella sala que, sendo a da entrada, era, segundo o costume invariavel dos chins, consagrada aos antepassados e genios da familia, tendo moveis de muito feitio, gosto e valor, charões, marfins, quadros com curiosas pinturas, e, em todo o caso, sentenças e versos escriptos em grossos caracteres chins, n'umas bandeirolas, ou rôlos pendurado das paredes com certa elegancia e symetria.

No lehu ou andar de cima havia dispensas e quartos, com o kang, especie de leito e canapé ao mesmo tempo, as bellas cadeiras, mezas, etc., de laca, candelabros exquisitos de muitas fórmas, cortinados de sedas as mais valiosas, e ricas e curiosas esteirinhas finissimas, representando toda a qualidade de figuras e caricaturas grotescas.

Ás horas do maior calor foi-nos proposto pelo nosso amigo china tomarmos um banho para nos refrescarmos, o que alguns de nós aceitamos com satisfação, já que haviamos recusado os seus incessantes offerecimentos de chicaras de chá e de fumaça de opio a que nos convidava dando-nos um cingular cachimbo, que, segundo observei, se acendia e enchia sem cessar, quasi sem interrupção, pois que, não continha mais opio de cada vez senão o indispensável para cada uma fumaça! A casa de banho tambem era no rez do chão, muito commoda e com tinas ou tanques de marmore, tudo com o maior aceio e até muito luxo. 

Mal teriamos acabado de nos reunir outra vez na sala de visitas, que umas fortes pancadas do gong chamaram os convidados á casa de jantar, igualmente ao rez do chão. (…) Começamos pois pela sobremesa, constava de fructas e cousas frescas taes como, cremes e xaropes de fructas, queijo, gelados, melancia e muitas outras fructas. A primeira coberta que se seguio compoz-se de pratos do meio de doces, pastelaria, tortas e confeitaria de toda a especie, acompanhado tudo de uma pevitada de melancia que continham duas enormes jarras de porcellana, e não sei o que era mais para admirar, se a satisfação que Hahao tinha em beber tão desagradavel licor (ao menos para o meu gosto), se as caretas que fazia ao mastigar as pevides que se entretinha em abrir com as suas compridissimas unhas, emquanto que aspirava n'um dos cantos da boca as fumaças do seu immenso e singular cachimbo, que pousava no chão e se elevava até á sua boca por meio de um conductor elastico, muito semelhante a tantos outros tambem chamados «á turca» que se vêem á venda na Europa nas lojas de curiosidades chinas.

De sorte, que o que alguns dos nossos convivas faziam, isto é, ora comer, ora fumar, fazia-o elle de uma só vez, tomando a mais exquisita physionomia por consequencia, o nosso digno amphitrião, que de um canto da bocca aspirava o seu opio, em quanto que mastigava do outro ao mesmo tempo!

Ao menos, pela parte que nos dizia respeito, os criados, com as suas magnificas cabaias, de calça branca, chinellas vistosas e compridos rabichos, não deixavam nem um instante de nos encher os copos de vinhos de Champanha, claret, Madeira, Porto, Xerez, Constancia, Burgonha; etc. O mais galante é que de intervallo em intervallo offereciam-nos chicrinhas de chá, microscopicas como as do templo de Budhah; que realmente pareciam de crianças, mas que eram muito curiosas e de grande valôr, porque, alem de serem de porcelana finissima, cada uma dellas era differente e representava em mosaico uma vista ou paysagem diversa. 

Nos intervallos offereceram-nos tambem muitos licores, marrasquino e coraçáo, e uma bebida que na verdade não é nada desagradavel, a que chamam «vinho d'arroz». 

Depois seguio-se uma profusão extraordinaria de pratos de viandas de muitissimas qualidades. Finalmente appareceu o nec plus ultra da cozinha chin, o prato de obsequio. É' a sopa. Compõe-se esta de cousas gelatinosas e diz-se que mui estimulantes. Vinha n'uma terrina enorme, dividida em quatro compartimentos em cada um dos quaes havia sôpa de uma qualidade. Foi assim que tive de provar pela primeira vez dos famosos e desagradaveis ninhos de andorinhas, barbatanas de tubarão etc., etc.!

Se o nosso china fizera tanta carantonha ao fumar o seu opio e ao beber e mastigar ao mesmo tempo, da sua pevitada, como referi, ficou sem duvida bem desforrado pelas curiosas caretas que nós, os seus convivas européos, fariamos ao engulir-mos a sua famosa sôpa! E o peior é que, influido, apertava comnosco para que repetisse-mos as dózes!

Ao menos divertia-nos vêr por detraz das cortinas, dos biombos, e das persianas as caras e os olhos exquisitos das mulheres chins que nos espreitavam. 

Depois do jantar jogou-se o xadrez, e o dominó com jogos cujas peças eram não só de muito valôr em charão e marfim, mas de bastante gosto e até raridade. Tambem houve quem tentasse jogar com as singulares e compridas cartas chins. Eu nunca as poude comprehender e ainda menos o prazer que dous sobrinhos e um amigo de Hahao mostravam achar no tal joguinho. 

Era já quasi noite quando nos despedimos do nosso bom e obzequiador amigo china, que não só nos acompanhou até a porta da rua e ali, como fizera quando entramos, segundo a sua etiqueta, nos fez duas grandes cortezias; mas tambem levou a sua delicadeza e attenção ao ponto de nos mandar reconduzir para o «Hotel Esperanza» nas suas explendidas carruagens.

Mesmo assim ainda que já era tarde, vendo uma porta de entrada de um passeio todo lluminado, com o seguinte distico, em letras de fogo «Tea garden» em inglez de um lado, além de umas garatujas em chinez do outro, que provavelmente significariam o mesmo (jardim para tomar chá), tentamo-nos a ir ainda visitar este estabelecimento.

Havia ali uma soffrivel musica de indios, e estavam sentados vários chinas e inglezes bebendo chá, e estes fumando tabaco emquanto que aquelles, embora bebessem tambem chá fumavam opio. O jardim era em si muito agradavel e vistoso. Via-se ali uma montanha fictícia, com rochas igualmente tingidas postas e sobrepostas umas em cima das outras com uma tal ou qual naturalidade; um rio artificial em miniatura e pequenas pontes suspensas e de diversos feitios, bem como pavilhões de tectos curvos cheios de campainhas e de balões allumiados de differentes côres; onde estavam mesas e bancos para os freguezes.

Na verdade gostei e é bonito.

Da Oceania a Lisboa de Francisco Travassos Valdez.1866
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