O processo de ler o destino no rosto das pessoas desenvolvera-se na China, a partir da prática da medicina. Os pacientes, principalmente as mulheres, não deixavam que lhes tocassem, e os médicos tinham de perceber quais eram os seus achaques olhando simplesmente para eles, sobretudo para a cara. De tanto observarem doentes e mais doentes, século após século, os chineses tornaram-se capazes de determinar, por exemplo, que uma pequena mancha vermelha numa das faces era sinal de disfunção cardíaca e uma ruga por baixo do olho esquerdo indicava problemas de estômago. Do mesmo modo, mais tarde ou mais cedo, alguém percebeu que todas as pessoas ricas tinham uma curvatura especial no nariz, enquanto as pessoas dotadas de poder tinham um sinal no queixo. Daí nasceu a ideia de que o destino está escrito no corpo. Basta saber olhar para ele.
Nas orelhas, os chineses liam o carácter de uma pessoa, na testa viam a sorte até aos 32 anos, e nos olhos até aos 40. Nas sobrancelhas viam os sinais da vida emotiva, no nariz o destino dos 40 aos 50 anos, e na boca a boa e a má sorte no período derradeiro da vida. Na prega dos lábios, que de facto se altera com o tempo, os chineses liam tudo aquilo que um homem desejara ser e aquilo em que se tornara. (...)
A arte do feng-shui nasceu na China, mas é hoje prática comum em grande parte da Ásia. Quando qualquer coisa não funciona bem – um casamento, um negócio ou uma fábrica -, o primeiro pensamento de um asiático é que há algo errado com o feng-shui e consulta um especialista. Há alguns anos, um casino de Macau que acabara de abrir não conseguia atrair clientes. Segundo o homem do feng-shui, o motivo estava na cor do telhado, que era vermelho como um caranguejo morto, em vez de verde como um caranguejo vivo. O telhado foi pintado e o negócio seguiu de vento em popa.
Anedotas deste género têm tirado ao feng-shui parte da sua antiga respeitabilidade. Mas não reduziram a sua popularidade, e o número de pessoas que hoje, na Ásia, a conselho de especialistas em feng-shui, muda a posição dos móveis, a cor das paredes do escritório ou a forma da porta de casa para tornar a sorte mais propícia aumenta constantemente.
Até os seríssimos ingleses do Hong-Kong Shangai Bank, quando decidiram construir a nova grande sede de Hong Kong, para evitar sarilhos com o feng-shui, recorreram a um dos mais conhecidos peritos da colónia. Durante a fase de projecto desse edifício futurista em vidro e aço, o arquitecto Norman Foster teve de se manter em contacto permanente com aquele «mestre das forças da natureza», agir de acordo com os seus conselhos e ter em conta as suas recomendações. Muitos pormenores arquitectónicos foram decididos por ele, incluindo a estranhíssima posição da escadaria de entrada, que não é perpendicular à rua.
Construído o banco, Foster começou a colaborar no projecto para o novo aeroporto de Hong Kong (em forma de dragão!), mas as pessoas trabalhavam contrariadas no seu gabinete. Os desenhadores e as secretárias, sentados a uma fileira de mesas de trabalho, adoeciam constantemente. Até os empregados que trabalhavam nos escritórios dos pisos inferiores e superiores do mesmo edifício não estavam bem de saúde. Então veio o especialista em feng-shui, estudou o assunto e deu o seu veredicto. A demolição de algumas casas velhas e a construção de novos arranha-céus naquela zona tinham deixado uma passagem aberta, pela qual os «espíritos maus» alcançavam em linha recta precisamente aquele pedaço de parede. Para as pessoas que ali estavam era como se tivessem uma faca sempre espetada no peito, disse o mestre das forças cósmicas. Aconselhou a mudar de lugar todas as mesas de trabalho, a pôr cortinados nas janelas e a instalar espelhos que dissuadissem os espíritos. Absurdo? Talvez, mas feito tudo isso nenhum empregado voltou a queixar-se de nada.
Obviamente, como em todos os métodos de magia, também no feng-shui existe um aspecto de auto-sugestão que explica os seus «êxitos». (…)
Ao contrário do homem ocidental, que há séculos faz a distinção entre o mundo do divino e o mundo natural – para nós, Deus cria a natureza -, para os chineses os dois mundos não são distinguíveis. Deus e natureza são a mesma coisa. Por isso a adivinhação é uma espécie de religião, e o adivinho é também teólogo e sacerdote. (...)
Os chineses – e como eles quase todos os asiáticos – nunca se preocuparam com essa distinção entre religião e superstição, da mesma maneira que nunca se colocaram o problema – também este tipicamente ocidental – de definir o que é ou não é ciência. A astrologia, por exemplo. Os chineses praticaram-na durante séculos sem nunca se interrogarem se as suas bases eram «científicas». Aos olhos deles funcionava, e isso bastava. Ao fim e ao cabo, errado não está!
Disse-me um adivinho, em viagem pelos mistérios do Extremo Oriente de Tiziano Terzani, 2014

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