O desencanto do país das compridas tranças pretas

Macau Macau 
Rua Ribeira do Patane e Travessa da Ribeira

Referindo as minhas impressões da viagem ao Celeste Império, cumprindo assim, em primeiro lugar, com um dever se sinceridade, e, depois, com a caritativa intenção de evitar que algum dos meus leitores bastante aventureiros empreendam tão grande e azarada excursão, conto o desencanto que a mim me fez sofrer o país das compridas tranças pretas, dos pés disformes, das mulheres de olhos oblíquos e de seios secos, do bambú e da canga (argola chinesa usada em certos suplícios), o país onde o chá se bebe sem açúcar, onde os pauzinhos de marfim servem de colher e de garfo, onde se comem cães e ratazanas, bifes de crocodilo e formigas vermelhas, vermes de seda fritos e molhos feitos com azeite de rícino; um país tão cerimonioso que obriga a tratar qualquer desconhecido de irmão mais velho, um país onde o credor tem o direito de se sentir pago com um bocado de carne do devedor teimoso, onde é costume que o devedor se vingue deste atropelo enforcando-se na porta do credor... (…)

Para além dos armazéns de leques, sedas, lacas e objectos de marfim que toda a gente conhece, Cantão não tem nada mais notável do que os seus jardins flutuantes, barcos cobertos de flores, amarrados às margens do rio, e que reflectem na água milhares de luzes que pela noite querem rivalizar com o firmamento. A minha exaltada imaginação fizera-me sonhar com estes barcos de flores com grandes jarras de madeiras preciosas encrustadas de nácar, envoltos em vaporosa nuvem de seda e rendas, sob cujos pavilhões se escondia uma tripulação feminina, composta de chinesas de olhos negros, pés descalços, mãos suaves e sorriso insinuante, estátuas de marfim antigo representando em lânguidas e indolentes posturas, de voluptuosidade oriental. Mas qual quê! Cruel desencanto: são sujas e fétidas as águas do rio, os barcos de flores não deslizam para cima e para baixo mas estão fixos no cais, não ouvi o confuso e grato rumor de beijos ardentes, mesclados com o doce chocar dos remos na água, perdido como um suspiro entre os acordes da música que inunda o espaço de harmonia.

No entanto, uma vez tentada a aventura, não quis recuar; ao fim e ao cabo, era curioso o espectáculo que ofereciam esses batéis formando linhas paralelas e unidos por pontes de tábuas, como uma pequena cidade de recreio flutuante: as suas janelas, cujos vidros azuis, amarelos ou encarnados formam torrentes de luz; as suas portas abertas de par em par sobre a proa extravagantemente adornada com grinaldas de flores, lanternas de vistosas cores, tudo forma um conjunto fantástico e de um estilo tão chinês, que trepei pela escada do primeiro que tive à mão, e baixando três terraços me achei num dos dois salões (...).

Assim, enquanto absorvia uma chávena de chá, pude contemplar à vontade um grupo de veneráveis e obesos chineses que comiam à volta da mesma mesa, servidos por donzelas de catorze ou quinze anos, muito bonitas, a pesar de demasiado pintadas para a sua idade. Tão jovens, e tão desgraçadas já!

Estas kuneang (jovens) vestem com elegância, adornam a sua negra e reluzente cabeleira com flores naturais, e nos seus braços luzem pulseiras de ouro ou jade verde; os seus olhos são brilhantes, finas as suas mãos e os seus pés diminutos, o que tem mais mérito, porque não sendo mulheres de casta privilegiada, não sofreram desde meninas a tortura do sapato de chumbo.

Curiosas, como costumam ser as mulheres, olhavam-me de fugida, e depois riam-se tapando a cara com os leques; entretanto, os chineses devoravam a comida como lobos e bebiam como esponjas, fingindo não terem dado pela minha presença; e chegada a sobremesa, sentiam-se sufocados e, impudicamente, se despojam da sua túnica e me revelam mistérios que, contra vontade, tive que ver: ventres proeminentes, costas de camponês e braços sem músculos.

De repente, estes vendedores de arroz, de gengibre, de ópio ou de ninhos de andorinhas, sem pudor, fazem um sinal, e, acto contínuo, se aproximam as donzelas e os abanam com os leques; recebem a fresca brisa artificial, sérios, magestosos, e com uma expressão de ingenuidade e beatitude tal que desarmou a minha ira; pouco a pouco se animam aqueles sacos de carne, aumentam as suas bebidas, e brincam com as suas servidoras, apostando quem beberá mais copos de vinho quente.

C´en etait trop! - Levantei-me para sair; o banquete acabou e os comensais e servidoras entram na primeira sala, me rodeiam e detêm-me fazendo mil ceremónias; volto a ocupar a minha cadeira com encosto de mármore, serve-se chá e circulam cachimbos de água; um chinês muito cortês larga o que estava a fumar e põe-no entre os meus dentes, fineza que tive de aceitar, renegando mentalmente, para não faltar às conveniências sociais.

Uma jovem canta umas quadras, tapando o rosto com o seu leque, é ouvida com atenção, só interrompida pelo ruído de sementes de melancia tostadas que os chineses mastigam depois do jantar. Este exercício é, segundo eles, muito favorável à digestão; mais chávenas de chá, mais cachimbos e mais canções, cujo tom lamecha e monótono me tinha feito adormecer se não me desse cabo dos nervos. Sofri durante bastante tempo; mas como anunciaram que se ia fumar ópio, retirei-me, cumprimentando os presentes com recurso à etiqueta do país: «Saúde, nobres mandarins!» - E acrescentei: «Ming tien hué, ta lao yé»; que significa até amanhã, grande e velho senhor.

Eu tinha então vinte e oito anos, um carácter impaciente e propenso ao aborrecimento, que ainda persiste; pelo que pensava não voltar no dia seguinte nem nos sucessivos até a consumação da minha existência. Esta impressão reflectia-se, sem dúvida, no meu ar contraído pelo meu desdenhoso gesto, porque o dono do barco me disse, acompanhando-me obsequiosamente: 
Espero que não seja esta vossa visita a última; eu convido-o a repeti-la, pois se hoje não vai satisfeito, posso oferecer-lhe algo melhor para a próxima, desde que me avise com a necessária antecedência. 
- Qué quer dizer com isso? - ripostei.
Nada, senhor, - contestou, piscando um olho e em tom sinistro, - a minha intenção é indicar-lhe que, se lhe agrada alugar o barco com o intuito de jantar com alguma bela kaneang, esteja à vontade; são duzentos pesos, uma bagatela! A iluminação, as flores e um serviço de vinte e quatro pratos, cozinha anglo-franco-chinesa... 
Para quê tantos pratos, não sendo mais que dois comensais? 
- Engano seu, cavalheiro! Eu conto com as amigas da beldade eleita por si que não podem deixar de ser convidadas; conto, além disso, com amigos seus e também com o chá que, por costume, se oferece aos visitantes. 
Cómo? Qualquer pessoa podia entrar sem a minha autorização? 
Todos aqueles que nos fizerem a honra de vir, ta lao yé; a etiqueta chinesa assim o exige.

Decididamente, os chineses não têm ideia do que é um gabinete particular; no entanto, dissimulando a minha contrariedade, perguntei:
- Que devo fazer para conseguir que uma dessas belas senhoras jante comigo?
Se não fosses estrangeiro, era uma tarefa fácil; mas … com mil diabos! Um bárbaro com barba e cabelo crespo, jamais! Impossível! Qualquer uma perderia a sua reputação, ainda que fosse moda. Agora, se quiser barbear a cabeça, substituir essas melenas por uma trança postiça, untar com açafrão o rosto e as mãos, disfarçar-se de chinês e aprender algumas palavras da nossa língua, eu conheço uma muito linda que talvez o aceite.
- Abrenúncio! – gritei, e, voltando as costas, saltei da minha canoa e fui deitar-me.

Impresiones de un viaje á la China (tradução livre) de Adolfo Mentaberry, 1876     

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