Companheiras acidentais e barbeiros ambulantes

Hong Kong
Hong Kong, Carlton H. Graves. 1902


Nicolas Tanco Armero, que visitou a China de 1851 a 1858 (1), diz, a propósito de Hong Kong, que aqui, «além dos culís», pelas ruas se viam mulheres «como uma praga» e explica que «a maior parte, vindas de Macau para servir de companheiras acidentais (chamamos assim para não lhes dar nenhum adjectivo feio), a comerciantes europeus. Que são mulheres, tem uma pessoa que acreditar porque se diz que são, mas não porque a sua imagem deixe isso transparecer ou adivinhar ao ver os seus traços: vestem uma grande cabaia, calças largas, a cabeça coberta por um lenço de algodão indiano, atado graciosamente ao pescoço; e, o mais original, é que usam duas grandes argolas, uma em cada tornezelo, que correspondem às pulseiras usadas pelas nossas damas. Quase sempre saem em grupos de quatro ou seis para imporem respeito e para poderem passar mais despercebidas».

Ainda, com graça, conta, logo a seguir: «mas se isto surpreende, que se pode dizer desses homens que levam aos ombros uma grande vara pendurando em cada ponta uma espécie de caixinha de madeira como se fosse uma pequena cómoda? Vamos seguir esta personagem e vamos ver o que significa todo este aparato. Vemos que se detém, de repente, numa esquina, que outro chinês se senta sobre uma das caixas com um ar muito afectado, ali mesmo diante de todos os que passam, e, sob o céu e as nuvens, desembainha uma espécie de triângulo de aço e começa o bom homem a operação de rapar a cabeça. É um barbeiro, caros leitores; um barbeiro ambulante, carregando às costas todos os seus utensílios: uma das caixas contém navalhas, instrumentos para limpar os ouvidos, tesouras, panos, pentes, etc., e serve de assento ao mesmo tempo. A outra tem fogo, água, sabão e tudo quanto se exige a um profissional e é curioso ver a paciência e a satisfação com que se senta o tártaro para que lhe rapem a cabeça e o penteiem: uns, até, cruzam os braços, fecham os olhos e se entregam nos braços de Morfeu, enquanto o indivíduo executa o seu trabalho. Uma vez terminado, levantam-se, depositam nas mãos do rapadeiro ou rapador umas quantas moedas e lá seguem o seu caminho».


Barbeiros, China
G. E. Morrison, China, finais do séc XIX e inícios séc XX 

A propósito de barbeiros, diz-nos Callado Crespo (2) que «constituem uma classe das mais despreziveis, e não podem aspirar a nenhum outro modo de vida, nem mesmo seus filhos até á terceira geração». 

Por Carlos José Caldeira (3) ficamos a saber que, em meados do século XIX e em Cantão, «o numero dos barbeiros» excederia «8:000, o que não admira n´um paiz onde todos os homens rapam quasi diariamente a cabeça desde a mais tenra idade».

(1) em Viaje de Nueva Granada a China y de China a Francia (tradução livre), 1861
(2) em Cousas da China, costumes e crenças, 1898
(3) em Apontamentos d'uma viagem de Lisboa a China e da China a Lisboa, 1853
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