Até que ponto chega o espirito observador dos chinezes

Sidney D. GambleConta um missionario muito serio e respeitavel, mr. Huc, que viajando urna vez na provincia de Pekim, teve occasião de presenciar um facto por onde se vê até que ponto chega o espirito observador dos chinezes. Acompanhava o nosso missionario um mestre escola que ía montado n’um burro explendido tão altivo e arrogante que bastava ver outro animal da sua especie, para logo começar a zurrar tão desesperadamente que forçoso era castigal-o para o reduzir ao silencio. Chegando a uma certa pousada, o endiabrado burro vendo-se sósinho na cavallariça sem ninguem ao pé que o castigasse, em vez de descansar das fadigas da jornada, começou a zurrar tanto ou tão pouco que o pobre missionario não conseguiu dormir. E assim todas as noites. Este foi, comtudo, soffrendo, soffrendo, até que um dia não pôde occultar o enfado que lhe causava o tanto zurrar do burro. «Porque me não disse isso ha mais tempo?! interrompeu o mestre escola, muito pezaroso, garanto a vossa reverendissima que o burro não o torna a incommodar.»

O missionario que sabia o amor que o mestre escola tinha ao seu burrinho, sorriu-se com incredulidade, deu-lhe as boas noites, e foi-se deitar. Antegosava já a troça que no dia seguinte havia de fazer ao seu companheiro de viagem, que tinha mostrado poder dispor dos orgãos vocaes do causador de tantas vigilias. Esperou... esperou... até que o somno o venceu. Dormiu como um justo, e só acordou a altas horas da manhã. O burro não tinha zurrado!

O missionario a primeira cousa que fez ao levantar-se foi ir à cavallariça, mas o burro lá estava á mangedoura! Muito intrigado com o caso, foi pedir explicações ao mestre escola. «Nada mais simples, respondeu elle, os burros antes de zurrar levantam a cauda, e conservam-a em posição quasi horisontal emquanto dura a sua cantiga. Eu então penduro-lhe uma pedra á cauda... e já não canta.» 

Cousas da China, costumes e crenças, Callado Crespo, 1898

Imagem de Ding Xian, China (1931-32). Sidney Gamble
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