As mulheres de distincção vivem isoladas


Em verdade, os chinezes differem de todos os outros povos, por suas leis, costumes, e mesmo na figura. Têm a fronte alta; olhos pequenos, e rasgados; grandes sobrancelhas; nariz curto; ventas abertas; bocca regular; rosto branco, e largo; cabellos pretos, e corredios. A reunião de todas estas partes forma uma physionomia agradavel; porém, differente dos outros povos, que habitam no resto do globo. As feições referidas, e os vestidos talares, são communs aos dois sexos. Sobre as cores do vestuario ha pragmatica. A cor amarella pertence á familia imperial; a encarnada aos mandarins; as outras, a toda a nação. Têm vestidos de etiqueta, para fazer visitas; porém, a moda não tem variado no longo espaço de 4460 annos. As mulheres usam as cores, e distincções de seus maridos; trazem bordados em seus vestidos, assim como elles, os symbolos da sua ordem.
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As mulheres de distincção vivem isoladas; nunca se expõem a serem vistas pelos homens. As casas têm dois aposentos; um para a mulher, outro para o marido. Cada um domina no seu. A mulher sahe á rua duas vezes no anno, para visitar seus parentes. Comtudo, a presumpção natural do sexo faz, com que empregue muitas horas a enfeitar-se, para ser vista pelas suas criadas.

Os chinezes respeitam muito os superiores; e faz-se notavel a consideração, que tem pelos velhos. São apreciados como pessoas, que a idade, e o tempo fizeram depositarios da sabedoria. Nem os homens mais distinctos, deixam de lhes prestar o respeito devido: até o imperador se ufana em os venerar. 

Do mesmo modo, os filhos consagram o maior respeito aos pais. Quando estes morrem, o primogenito é investido nos direitos paternaes; os outros obedecem-lhe, como se fora seu pai. Comtudo, são livres, para se separarem, quando queiram. N'este caso, o primogenito dá-lhe uma porção da herança, igual á que toma para si. Ainda que o governo d'este imperio tenha por fundamento os principios monarchicos, as heranças são repartidas com igualdade, pelos filhos masculinos. As filhas são mantidas pelos irmãos, em quanto ellas não casam. Os chinezes seguem n'esta parte a doutrina de Brama. (...)

A auctoridade paternal, e a piedade filial motivam a grande população d'este imperio; comtudo, não é permittido ao marido esposar segunda mulher, sem que a primeira demonstre ser infecunda. Em tal caso, ella mesma procura outra mulher, que dê filhos a seu marido. D'este modo, fica não só com dominio na segunda mulher, mas tambem tem nos filhos direito de mãi legitima. (...)

O augmento dos deveres na união conjugal, são para elle prazeres duplicados. Descobre no futuro a immortalidade celeste, que espera ter em seus filhos. Esta lei natural, imposta aos entes, que povoam o mundo, em nenhum paiz é tão ajudada, como na China, onde nada é tão raro, como a intemperança, onde reina equidade na repartição das fortunas, onde o ar se oppõe a que hajam epidemias; assim, não admira haver n'este imperio tão grande população.

Os antigos chinezes fizeram uma lei particular para os monarchas, ácerca do matrimonio. Concede-lhes uma imperatriz, tres rainhas, nove mulheres da segunda ordem, vinte sete da terceira, oitenta e uma da quarta. Assim, pertence o imperador a cada uma de suas mulheres três dias no anno, não complectos. Sendo todas da sua escolha, não é presumivel sobrar-lhe tempo para distracções. (...)

Concordo em que a igualdade entre os dois sexos deve existir, ao menos em regras de direito; porém, vejo que a sorte das mulheres, não é mais liberal na Europa. Basta comparar as leis dos dois paizes ácerca do adulterio. Sendo a mulher chineza uma propriedade, sempre comprada pelo marido, é mais favorecida por lei, do que as mulheres da Europa, que pelos dotes compram algumas vezes os maridos. Comtudo, as barbaridades, que ha nas leis da Europa, não dissipam as que se encontram nas leis da China. (...)

Que te direi da educação das mulheres? Até na Grecia, paiz das luzes, foi desprezada a sua educação! Na India, assim que entram na adolescencia, são mettidas em harens, e dominadas por tyrannos de nova especie; isto é, por monstros, que não pertencem a nenhum sexo. Na China, por moda, aleijam as mulheres ao nascerem! Todavia, cultivam-lhe o espirito: repara no voo, que tomou o genio da célebre Pan-Hoei-Pan; e verás, que o teu sexo brilha em qualquer parte, onde se cuida na educação das mulheres.

«Aos quatorze annos, diz Pan-Hoei-Pan, vim da casa paternal, para a de Tsao-che-chou, escolhido por meus parentes para meu esposo. Não entrei na idade de trinta annos, em que me acho, sem adquirir experiencia de muitas cousas, e conhecer as obrigações impostas á metade do genero humano, que por natureza é submettida á outra. Em quanto estive na casa paternal, fui docil aos avisos, que recebia; cuidava em aproveitar as lições dos que me deram a vida, na certeza de que, todas ellas se dirigiam á minha ventura no futuro. Assim que fui mulher, cuidei em preencher os meus deveres, persuadida de que o meio de ser feliz, consistia em fazer ditoso o homem, a quem me prendiam as linhas do casamento. Para se obter esse bom resultado, é preciso exercitar em solteira as immensas virtudes, que os homens exigem das pessoas destinadas a dar-lhes filhos, e a participar de seus incommodos domesticos. Jovens donzellas, não vos enganeis: se na casa paternal não cuidardes em cumprir os vossos deveres, jámais sereis boas mãis, nem agradareis por muito tempo a vossos maridos. Para vos unir a elles, compuz esta obra, a qual vos offereço, na esperança de aproveitar.»

Pan-Hoei-Pan dividio o seu tractado de educação das mulheres, em sete capitulos: envio-te a substancia do quarto, por me parecer conforme com as lições, que te deu teu pai. Bastará isso, para leres gostosa essas poucas linhas, e teres noção complecta da educação dada ás mulheres chinezas.

«As qualidades, que fazem uma mulher amavel, diz Pan-Hoei-Pan, reduzem-se a quatro: virtudes, palavras, figura, e acções. A virtude deve ser perfeita, e constante; a mulher precisa ser docil, e sempre honesta; deve medir as palavras, e usar d'ellas a proposito. Se tem instrucção, não ostente de erudita; a mulher jámais agrada, quando cita com frequencia os poetas, e os philosophos; mas goza estimação, sabendo esconder os conhecimentos, pelo uso de propósitos ordinarios. Quando fallar das sciencias, e das letras, seja concisa, mesmo para os que desejam ouvi-la. A vaidade, paixão commum nos dois sexos, tem grande imperio sobre o nosso: assim, desagrada-nos ver nas outras, vaidade, que subjugue a nossa. A mulher torna-se insopportavel, quando, por suas fallas, e maneiras, exige acatamento das pessoas, que a rodeam. Este defeito, e os mais, que derivam d'elle, evitam-se, convencendo-nos de que, jámais devemos abrir a bocca, para offender. A regularidade das feições, a belleza da cor, a elegancia dos contornos, e tudo o que na opinião commum complecta uma beldade, contribue sem dúvida, para fazer uma mulher amavel; porém, não são os agrados da figura, na minha opinião, por onde ella se deve fazer amar. Não depende de nós o ser bella; e eu exijo as qualidades, que podem adquirir-se; pois sobresahem muito ás da natureza. A mulher, é formosa aos olhos de seu marido, quando usa, de continuo, doçura na voz, meiguice nos olhos, limpeza nos vestidos, e na pessoa, modestia nos discursos, e em tudo, que lhe diz respeito. Quanto ás acções, não deve praticar nenhuma que desagrade a seu marido, e não seja exemplar a seus filhos, e criados. Deve ter o cuidado da sua casa, por objecto principal; mas praticado em tempo, a fim de não ser escrava do momento preciso. Deve ser em tudo applicada, mas sem incómmodo; engraçada, mas sem affectação, etc.»

Tu, não tens que aprender nas obras da famosa Pan-Hoei-Pan; comtudo, recommendo-te, que as leias, nas memorias concernentes á China, para recreares o espirito, e alegrares o coração. São cheias de eloquencia sublime, e de imagens bellissimas; o colorido é encantador: tem doçura no estilo, elegancia nas phrases, e mais ainda, nos conceitos. Na China é tão grande o número das mulheres illustradas, e uteis em todos os sentidos, quanto na Europa é diminuto. A metade mais encantadora da especie humana, a que a natureza destinou a dar maior prazer á outra; a domar-lhe a rudeza, e a faze-la mais sensivel pela doçura dos costumes, é a que motiva ahi grandes penas, e desordens, por mingua de educação. Parece que os homens, de proposito, querem formar as mulheres na frivolidade, e na inconstancia; isto é, que hajam toda a vida a razão da infancia, esquecendo-se, de que ellas são destinadas a contribuir, para a sua ventura. Superior glorificação mereceu teu pai, por se affastar d'esse máo costume.

Cartas escriptas da India e da China nos annos de 1815 a 1835, por José Ignacio de Andrade a sua mulher d. Maria Gertrudes. José Ignacio de Andrade, 1847.

Imagem de fotógrafo desconhecido. Shanghai, 1880-1890. 
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