As árvores em miniatura

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Jardim Lou Lim Ioc

No meu regresso entrei no pequeno jardim publico, que tinha antigamente a fórma de um jardim symetrico e regular, medido e traçado a compasso, e que o meu collega Brito tentou transformar em jardim e parque moderno, á ingleza. Está muito limpo e varrido, e é este o seu unico merito, tendo muito pequena área e sendo vulgares as plantas que o adornam. 

Um guarda e jardineiro mostra-se como a medo, e offerece a figura a mais extraordinaria e original que é possivel imaginar. É um china, um verdadeiro china de rabicho, mas vestido de cabaia e calção encarnados! Soube depois que para aquella pittoresca toilette fora aproveitado um panno de mesa, ou uns velhos reposteiros, que havia nas obras publicas. 

Mais extravagante do que aquella figura só ali vi a de muitas plantas em vasos, e a que a paciencia e teimosia do chinez contrafizera por muito tempo, até obrigal-as a tornarem a forma de um dragão, de uma ave, de um mandarim ou mandarina, etc. Para a similhança ser maior, addicionavam-lhes pequenas cabeças de porcellana, e olhos de vidro reluzentes.

Parece que o chim se compraz em contrariar a natureza. Pois pode admittir-se uma laranjeira, um pinheiro de vinte e trinta annos de idade, vivendo em um pequeno vaso de barro?! (…)

A concorrencia era pequena, e por entre os passeiantes perpassava, mephistofelico, o guarda do jardim com a sua cabaia encarnada. 

No Oriente, de Napoles á China (diario de viagem) de Adolpho Loureiro. 1896

Não queremos deixar de fallar nos jardins de «Fa-ti», fronteiros á cidade de Cantão. Vêem-se ali em sete oito jardins contiguos, milhares de plantas em viveiros, e das quaes se faz uma grande exportação. Mas o que chama a nossa attenção pela originalidade, são as arvores minusculas a que uma pachorrenta mutilação impoz a forma humana, em todas as posições possiveis, ou a de animaes e objectos da vida commum, cujas formas lhes são dadas por meio de arames, para onde pacientemente são dirigidos os pequenos ramos durante o seu crescimento. 

Para obterem as arvores anãs procedem da seguinte fórma: na parte superior da planta onde um ramo se bifurca, applica-se terra vegetal segura por tiras de panno que se conservam sempre humidas. No fim de um anno corta-se o ramo pela parte inferior e transplanta-se, porque então já tem lançado raizes na terra que á roda se lhe applicou. São então frequentemente podadas, e de modo que se lhes impeça que cresçam, e que brotem novos rebentos. As plantas assim tratadas, comquanto pequeninas, produzem flores e fructos de tamanho natural, a ponto de ser preciso especal-os para que o tronco não rache; de facto, é bonito ver por exemplo uma laranjeira carregada de formosos fructos, e que não tem mais que palmo e meio de altura.

Cousas da China, costumes e crenças de Callado Crespo. 1898

Tambem sobre barcos há jardins ambulantes, n´esse mesmo estylo de mau gosto que é particular á China. Não podem ahi ter essas ruas de areia encarnada, esses kioskos também pintados de vermelho, essas pontes egualmente ornadas de balustrada escarlate (é a côr que predomina nos jardins!) não lhes cabem ahi as grutas e ruinas artificiaes, e os seus lagos são as águas do tigre que lhe circulam o jardim; mas encontram-se lá, como na terra firme, as laranjeiras plantadas em pequenos vasos, e dando óptimas tangerinas; as faias e os carvalhos dentro de grandes vasos de pedra, tornando-se anões pela cultura, porque é uma das grandes paixões d´este povo extravagante o modificar a natureza a seu bel-prazer.

Um passeio de sete mil leguas: cartas a um amigo de Francisco Maria Bordalo. 1854

Apesar de serem muito populares os bonsai, parece terem sido os chineses e não os japoneses os primeiros a cultivar árvores em vasos. «Penjing» ou «pensai», chamam-lhe.

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