A predilecção dos chineses por galos, galinhas e cata-ventos

Na educação dos filhos avulta como primeiro preceito o respeito aos páes, aos velhos e aos sábios, bem como a amisade entre irmãos. Este salutar principio de moral manifesta-se em todos os chins na vida pratica e até nas infimas classes. É forçoso que confessemos que n'esta parte lhes somos muito inferiores. A côr que designa luto para os chinas é o branco. O luto alliviado é indicado por azul e branco. O lado de honra entre elles é o esquerdo. Os que usam barrete ou chapéu, não se descobrem para cumprimentar. Os proprios chins christãos, quando ajudam á missa, fazem-no cobertos, pois é signal de respeito.

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Ao encontrarem-se, curvam-se uns diante dos outros duas e trez vezes, abaixando a cabeça, cruzando os braços no peito e pronunciando as palavras chin-chin. Depois d'esta contumelia, perguntam uns aos outros se já comeram arroz e se os negocios correm bem. (...) Os chinezes andam sempre armados de leques de variados feitios e qualidades. Usam oculos de dimensões colossaes, e é curioso que reputam pouco polido não os tirar diante de pessoas de respeito. Para arrecadar, tanto os leques como os oculos, trazem os chinas bolsas especiaes, que prendem aos botões das cabaias. 

Os chins, pelo menos os do sul, desconhecem totalmente a dansa.

Têem uma grande predilecção por gallinhas; até os que sempre vivem a bordo as criam ali. Digamos de passagem que o gallo é um dos animaes mais considerados na China, figura sempre em sacrificios religiosos, etc, etc. Ao orgulhoso companheiro da gallinha ligam-se tradições e lendas por extremo curiosas. Em quasi todas as casas se vê um gallo de louça no telhado, com o fim de evitar que as madeiras sejam atacadas pela formiga branca. (…) 

Macau e os seus habitantes, relações com Timor de Bento da França, 1897

Este fraquinho por galos e o hábito dos chineses os colocarem nos telhados, como protecção, fez-me lembrar os cata-ventos, que, muitos deles ou quase todos os que me lembro de ver e de admirar (tenho um fraquinho por cata-ventos, que sempre gostei de ter desde miúda, e ainda tenho, no terraço) têm um galo como adorno. Mas não é, ao que parece por estudos que têm sido feitos, como eu deduzi.

A verdade é que o galo, no ocidente e como símbolo, atravessa épocas históricas e religiões (também com destaque no islão) e, desde os tempos iniciais do cristianismo lá está nas catacumbas, nas práticas litúrgicas e a figurar nas orações do início do dia (sendo esta a hora do canto do galo, chamada de gallicinium). A encimar os campanários de igrejas parece constar o galo desde finais do primeiro milénio, decorrente de uma bula papal, pois, como símbolo de um novo dia, servia de convite à oração. 

Depois, juntamente com as bandeiras, muito úteis na orientação do tiro dos archeiros e já que se esfarrapavam, o galo, símbolo de poder, passou a figurar nos cata-ventos, sob uma seta, e a afirmar a hegemonia da nobreza, aparecendo em castelos e palácios desde a Idade Média. Era um símbolo tão forte de poder que, em França, por édito, foi permitido o uso de cata-ventos a estratos mais baixos da nobreza só em 1659, tendo-se generalizado, claro está, depois da Revolução de 1789. 

Em Portugal não consta haver legislação a propósito, mas é só no século XIX que se torna muito popular e a fazer parte das chaminés e terraços das habitações, com o galo como adorno na maior parte dos casos. 

O galo dos cata-ventos não é, portanto, de influência chinesa. Mas se não é o galo é o próprio cata-vento, como brinquedo. 

A origem do cata-vento como indicador da direcção do vento e seus registos e até como energia eólica já oferece dúvidas; para uns, a origem encontra-se na China; para outros, a invenção atribui-se à Persia; para outros, ainda, ao Iraque, à Síria, ao Egipto, aos romanos e aos gregos...   

imagem retirada da Wikipédia
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