A música chinesa depressa fatiga

Orquestra chinesa
Orquestra chinesa
W. Saunders. 1862-1888

A musica chineza apresenta um certo caracter de suavidade que a principio nos não desagrada talvez pela originalidade; mas é tão monotona e uniforme, que depressa fatiga. Os chinezes não tocam ao acaso, nem tocam por inspiração; têem regras fixas de que nunca se afastam, limitando-se a tocar hoje as mesmas musicas que os seus antepassados tocavam ha muitos seculos. A escala, que elles notam por signaes particulares, póde dizer-se que não admitte o meio tom, porque embora tenha fá, sol, lá, dó, ré sustenidos, as musicas chinezas são quasi absolutamente todas em tom natural; alem d’isto, os chinezes só fazem uso de cinco dos sete tons da escala, de onde resulta a fatigante monotonia das suas composições.

Na antiguidade a musica desempenhou um papel muito importante, sendo considerada como elemento essencial não só para o bom governo, mas para a felicidade dos povos, como se vê das obras de Mencio na sua conversação com Chwang-Paon, e com o rei Seuen.

No tempo de Confucio havia dois generos de musica: o genero Shasse ou a musica de Shun, perfeita na melodia e sentimental, o genero Woo, do rei Woo, tambem perfeita na melodia, marcial porém. 

Entre os livros sagrados antigos havia um, o «Yo-king» ou «livro da musica» que se perdeu n’um incendio, e de que Confucio falla como sendo uma compilação de peças e canticos usados nos sacrificios e solemnidades religiosas. O livro dos ritos devia ser a continuação d’aquella obra, como se deprehende de muitos exemplos tirados dos annaes e livros canonicos, o que está de accordo com a opinião dos que affirmam que nos tempos antigos os ritos e a musica eram a expressão da religião. Effectivamente no livro «Li-ki» lê-se: 

«A musica é a expressão da união da terra com o céu; sem o ceremonial e a musica nada ha difficil no imperio; o fim da musica é regular as paixões; ella ensina aos paes e aos filhos, aos principes e aos povos, aos maridos e ás esposas os seus deveres reciprocos; o sabio encontra na musica as regras da sua conducta.»

Os sabios chinezes, acceitando esta doutrina, têem animado muito a musica, segundo dizem os historiadores, havendo mesmo alguns imperadores que nunca lhe faltaram com a sua protecção, como, por exemplo, o imperador «Churi» (2255 A. C.), que amiudadas vezes perguntava se o seu povo cultivava a musica, pois, no seu entender, «a musica devia ser para o povo um passatempo tal que o espirito não podesse preoccupar-se com pensamentos menos innocentes, ou que fossem prejudiciaes á tranquillidade publica». 

O proprio Confucio não faltava nunca a ir ouvir musica, para o que punha os seus melhores fatos, ouvindo-a de pé, attento e silencioso. A musica, dizia o grande philosopho, tem a virtude de ser um preventivo contra muitas doenças physicas e moraes, que provém do aborrecimento, do desgosto e da melancolia. Comquanto o imperador «Huang-ti» (2697 A.C.) tenha dado á musica a sua fórma caracteristica, só na dynastia «T´sang» (600 D.C.) e que se creou a musica moderna. 

Nós não gostâmos da musica chineza, da mesma maneira que o chinez não gosta da musica europêa. Não é por antipathia de raça de certo; mas os nossos ouvidos não foram educados para ouvir a monotonia das suas musicas, que para nós é sobremaneira fatigante. O porque elles não gostam das nossas, não sabemos nós; mas ponham um chinez a ouvir um trecho das nossas operas, por mais suave, por mais harmonioso que seja, o chinez mostra não o comprehender, ouvindo-o com o maior indifferentismo; mas passem na rua n´esse momento, uns musicos ambulantes, com umas flautas muito agudas, umas guitarras muito desafinadas, um tambor, um «gong», elle volta-nos as costas, e corre immediatamente a ouvil-os, radiante de alegria, prestar-lhes attenção, conhecendo-se logo que aquella musica verdadeiramente infernal o impressiona, o commove. (...)

Uma philarmonica chineza é em geral composta de musicos muito mal vestidos, muito immundos, de caras patibulares e gestos cansados; uma philarmonica cujos serviços se alugam a 1 dollar por cabeça, para tocar durante vinte e quatro horas; chamam-se musicos de «kou-ti-iao» ou de aluguer, e têem como principaes instrumentos, violas de diversos tamanhos e feitios, rebecas de duas, tres e quatro cordas, flautas sem chaves, cornetas, tambores, «gongs», etc. O mestre traz «botão» e «pennas» no chapéu; de longe parece uma cabeça de mandarim. Mas o botão é de pau pintado de branco, e a «penna» não é mais que uma cauda de cão, distinctivos que a auctoridade o obriga a trazer como signal da sua vergonha pela desprezivel posição social que occupa, e para mostrar ao povo que nem o mestre de musica nem os seus filhos podem aspirar a qualquer titulo, dignidade ou cargo militar ou civil! 

É preciso ainda notar que os chinezes gostam muito de barulho; por isso não ha para elles festa ou divertimento que não seja acompanhado de musica, de petardos ou pelo menos de panchões.

Cousas da China, costumes e crenças de Callado Crespo, 1898
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