A Deusa Kun Iam abriu o cofre

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No 26º dia do 1º mês do calendário lunar, os templos da Deusa da Compaixão não fecham as portas e na Avenida Coronel Mesquita, perto da meia-noite, muitos são os crentes a aguardar a sua vez para entrar no maior templo de Macau dedicado a Kun Iam, enquanto ouvem os toques no gongo de quem, lá dentro, já cumpriu todos os rituais.

Parece que os devotos se multiplicam em cada ano que passa, pois é mais difícil dar um passo dentro do templo e o fumo não ajuda nada; falta o ar, faz chorar e tossir. Só os fiéis previdentes, protegendo o nariz, a boca e os olhos com máscaras faciais e com óculos de natação ou com viseiras de soldador, fazem as suas rezas sem pressa.

Todos querem prestar homenagem à divindade, acendendo pauzinhos de incenso, oferecendo fruta, flores, lingotes de ouro feitos de papel dobrado, retribuindo, assim, as bençãos recebidas durante o ano que findou. E, claro está, todos querem também contrair novos empréstimos para atrair a fortuna e a prosperidade nos negócios durante o ano da Cabra, neste dia em que a deusa abre os cofres e os deixa à disposição dos devotos. 

Por isso, queima-se uma fortuna em dinheiro do Inferno numa enorme fogueira, que não é dia de se usar o forno; e tanta riqueza vai assim direitinha ao céu. A fé diz que do Além virá a recompensa e que, quanto mais se oferece, mais se recebe. Por isso, os devotos chegam carregados de sacos e, alguns, até, trazem malas de viagem e carrinhos de mão repletos de dinheiro válido no outro mundo. 

O sonho de todos é a abastançadizia Tiziano Terzani que conheceu bem a alma chinesa, explicando que prece dirigida aos deuses com mais frequência é a de ficar rico. Aqui se vê que assim é. No Ocidente, tudo é diferente; os crentes fazem promessas e pedidos relacionados com a saúde, o amor, o trabalho. Também não poderia ser de outra forma; as divindades não têm cofres e consta que são, até, bastante pobres...      

16 de Março de 2015
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