Um enterro de algum mandarim

Sidney D. Gamble Sidney D. Gamble 
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Sidney D. Gamble
China, 1917-1927

Era uma grande quantidade de chins e de creanças, marchando dois a dois, uns conduzindo estandartes e bandeiras de variegadas cores, outros tábuas estreitas com caracteres chinezes dourados sobre fundo vermelho, outros empunhando lanternas figurando alguns animaes exquisitos, dragões e serpentes. Em grande numero de andores prateados e dourados levavam-se pagodes de papel e grandes bonecos representando um trabalho delicado, emquanto sobre rodinhas de pau alguns culis faziam avançar cavallos e edificios de papelão. 

Cada andor, ou cada um d’estes grupos de figuras, era seguido por dois clarinetes, pratos, tam-tans e uma especie de tambores, ou panderetas, suspensas a um pau de bambu, que um homem levava ao hombro e em que outro tocava. Todos trajavam fatos mais ou menos exquisitos, trazendo alguns uma especie de opas, como os balandraus dos nossos irmãos do Santissimo. Estas vestimentas eram de sedas de diversas cores. As creanças vestiam lindos fatos de côres vivas, com bordados a oiro e matiz, e levavam na cabeça barretes, chapéus, barretinas e toucas de feitios variados e extravagantes, com adornos de pennas, plumas e flores. Quasi todos os do acompanhamento iam descalços, e atrás seguiam-se numerosas cadeirinhas, em que se viam homens e mulheres com as caras cobertas e envolvidas em esteiras ou pannos ordinarios. Urn grande ajuntamento de povo seguia aquella estranha procissão, a pé e correndo. 

O que estava presenceando era um enterro de algum homem distincto, pertencente a familia de mandarim. São estas funcções funebres muito do agrado dos chins e ha algumas em que se despendem grossas sommas, que chegam ás vezes a 30:000 e 40;000 patacas.

Logo que um doente se julga incuravel, e que a medicina chineza lhe tem lavrado a sentença de morte, a familia abandona-o, vota-o ao mais absoluto desprezo e começa os preparativos do funeral. Este principia por um grande banquete, que dura dias, e a que vão todos os amigos e parentes do que já se considera finado. Principia immediatamente a musica e os panxões, e pelo espaço de alguns dias successivos um concerto infernal, diurno e nocturno, atroa a vizinhança. Logo que o bonzo, o padre chinez, tem indicado o logar em que o finado deve ser enterrado, faz-se o saímento como descrevi, e os pagodes, os bonecos, as figuras de papel e de papelão, com muitos outros papeis encarnados e grande copia de pivetes, são queimados junto do tumulo. 

Os parentes e as pranteadeiras rolam-se pelo chão e fazern um alarido insupportavel. Para estes enterros dirigem-se convites, mesmo aos europeus, dentro em um sobrescripto enorme, em que se enaltecem as qualidades do finado, e pelos quaes todas as pessoas de familia, cada uma de per si, de joelhos e de mãos postas, participam o fallecimento do individuo, cujo elogio se faz em phrases bombasticas. Junto a cada convite vae uma pequena moeda de prata de 10 ou 20 avos e um lenço para enxugar o pranto. N´estas cerimonias funebres são os chins muito exigentes, e apesar de professarem pelos ministros da sua religião, os bonzos, o mais completo desprezo e desconsideração, cumprem religiosamente o que elles prescrevem. 

O respeito pelos mausoleus e illimitado e ai d´aquelle que lhes tocar... 

No Oriente, de Napoles á China (diario de viagem), Adolpho Loureiro. 1896
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