San Nin ou Ano Novo Chinês

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Largo do Senado, Ano Novo Chinês 2015

As seis principais festividades que o povo chinês se obstina em observar, a despeito de terem sido oficialmente abolidas, são as do Ano Novo, a do Barco Dragão, a da Colheita, a da Pura Claridade, a de Todas as Almas e a Outonal. As três primeiras são chamadas iân-chit, isto é, festividades destinadas aos mortais e as três ultimas kuâi-chit ou sejam, destinadas aos espíritos. De todas a mais prolongada, ruidosa e aparatosa – aquela que se festeja com o maior entusiasmo é de San Nin -Ano Novo- para a qual os chineses fazem todos os sacrifícios durante o ano com o fim de economizar aquilo que será dispendido, generosamente nos três dias de tão notável solenidade.

O dia do Ano Novo chinês é, vulgarmente, designado, por Nin-Tch´o-Iat- o 1.º dia do ano.

Convém esclarecer que China antiga a divisão do ano era muito diferente da nossa; era o ano repartido por doze luas, umas de 29 outras de 30 dias, o que daria ao ano 11 dias menos do que tem o nosso; todavia, remediavam isto repetindo em períodos de 2 a 3 anos a contagem de mais um mês lunar, a que eles denominavam mês lunar inercalar.

Continuando na descrição das festas do ano Novo Chinês, sabemos que uma semana antes dessa data ou mesmo antes, no dia 20 do ultimo mês lunar, as limpezas nos estabelecimentos chineses e as casas particulares a serem fornecidas do maior número de bigigangas, de grande profusão de floes naturais e artificiais, para ornamentarem as suas habitaçõescomo nós costumamos fazer por altura do Natal. À medida que as lojas se vão enfeitando, vão sendo postos em quantidade crescente à venda pelas ruas ramalhetes e vasos de flores.

É costume durante esta quadra festiva armar bancadas, em bambu, no Largo do Senado (na parte central da cidade), onde se expõem toda a especie de flores. 

Na última semana do ano, nenhum chinês deixará também de tomar um banho geral, sendo o corte de cabelo feito, igualmente, com a devida antecedência, pois nas vésperas do Ano Novo, as barbearias costumam levar o dobro do preço da tabela usual. As mulheres que ainda não abandonaram os hábitos antigos submetem, nesses dias, os seus cabelos às mãos hábeis de penteadeiras. As mais modernas não abandonam os cabeleireiros. 

No porto interior e nos portos das ilhas é considerável o número de embarcações que engalanam as suas melhores vestes com estandartes, bandeiras, etc.

Dois dias antes do Ano Novo recrudesce o entusiasmo. Os bairros comerciais chineses apresentam uma iluminação feérica. Ouve-se a musicata oriental por todas as ruas, é um nunca acabar de panchões. Nessa ocasião realizam-se inúmeras compras e liquidam-se todas as contas do ano. É nessa quadra que se verificam casos de suicídio de chineses por não poderem solver os seus compromissos.

As casas de jogos têm fabulosa concorrência com gente das regiões circunvizinhas e é a unica altura do ano em que os funcionarios públicos tambem as podem frequentar. É da praxe ir o governador e algumas famílias de funcionários públicos mais categorizados experimentar a sorte no fan-tan ou no ku-sec.

No dia de Ano Novo os chineses fazem os seus sacrifícios e as preces respectivas, por toda a parte, nas suas casas, nos pagodes, nas ruas e nas embarcações. Nesta época, visitam os seus parentes mais próximos e maiores amigos, e presenteiam-se mutuamente. À chegada de qualquer visita o chinês -que é tradicionalmente cheio de etiqueta- costuma recebê-la à porta da casa. A visita ao aproximar-se um ou dois metros do dono da casa, sauda-o, sendo simultaneamente correspondido, dizendo efusiva e mutuamente Kông Hei, Kông Hei e Kông Hei Fat Ch´oi que significa «respeitosas alegrias, respeitosas alegrias», e que «as riquezas se manifestem». Essas saudações são sempre acompanhadas de gesto respeitoso constituído pela elevação de ambas as mãos, com os braços arqueados de forma a que as extremidades dos dedos duma mão fiquem apoiados ligeiramente nos nós dos dedos da outra, movendo-se as mãos assim unidas airosamente, três vezes, de cima para baixo, da altura do nariz ao ventre.

Ao fim de três dias de festa, as lojas e as oficinas recomeçam os trabalhos -Hoi Nin-, sendo este acto também festejado com panchões e concluído com um grande banquete. (…)

Um dos assuntos que mais preocupa o chinês, na véspera do ano - a substituição dos dísticos auspiciosos colados não só nos dois lados e em cima da porta principal como em quase todas as portas do interior da sua residência, inclusivamente, as da cozinha. Tais dísticos exprimem desejos de ventura, sucesso nos negócios, numerosa prole, descendência ininterrupta, longa vida, honraria e riquezas, ocupando, porém, lugar proeminente o carácter Fôk (felicidade) elegantemente caligrafado, em grandes recortes de papel vermelho com o formato de losangos.

Usos e Costumes dos chineses de Macau, anos 50, de António Emílio Maria Rodrigues da Silva. 1997

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