Só uma vez por anno ha festa, dia santo, ou como quizeres chamar-lhe - é o dia do anno novo, festa movel, porque corresponde ao primeiro dia da primeira lua do anno chinez; tudo folga n´essa occasião, menos os devedores insoluveis, que ou se suicidam ou fogem, porque é a epoca de ajustar contas! Os ricaços prolongam por alguns dias esta festa.
Um passeio de sete mil leguas: cartas a um amigo, Francisco Maria Bordalo. 1854
A approximação e principio do anno novo é para os Chinas a mais solemne e importante épocha. Ha obrigação de ajustar então as contas, de pagar todas as dividas, desempenhar as hypothecas ou penhores, etc, e o credor inexoravel não deixa a casa do seu devedor remisso, até ao momento de bater a meia noite, que termina o anno velho: momento magico, e o mais delicioso para os tristes devedores, pois nelle se opera uma transformação completa.
Das mais assiduas e desabridas exigencias, das mais renhidas disputas, do mais violento odio e ameaças, passam os authores e pacientes destas scenas ás mais cordiaes zumbaias, e congratulações. O devedor conta então com um alivio ou folga, que se estende muitas vezes por todo o seguinte anno, succedendo também frequentemente fazerem-se grandes abatimentos nestas dividas: elle sente-se transportado de repente a uma nova situação nos seus meios de viver.
Não ha povo algum na terra onde haja tanta confiança mutua, e facilidade de venderem a credito, ou de fazerem fornecimentos e obras a pagar a longos prasos, e mesmo emprestimos de dinheiro, quasi sempre sob palavra, ou simples escripto particular. Estas disposições tambem as estendem aos estrangeiros; mas infelizmente muitos destes as tem diminuido, por abusos repetidos de boa fé.
Voltando porém a fallar do anno novo, diremos que o primeiro dia delle é de jejum geral para todos os Chinas, e o unico que elles tambem tem de guarda ou geral suspensão de trabalhos corporaes, e de toda a qualidade de serviços. Todas as lojas ou boticas se fecham, não ha transacções algumas, e só os absolutamente miseraveis se entregam a algum serviço ou venda para grangearem o sustento.
Todas as embarcações recolhem aos portos a descançarem mais ou menos dias, embandeiradas, e tocando suas bategas, espécie de timbales de bronze de estrondoso e discordante som.
A Macáo concorreram este anno mais que nos precedentes: talvez duzentas estavam ancoradas apinhadamente no rio em a noite de 31 de Janeiro e seguintes, todas com os seus lampiões no gosto china. Na mesma noite igual illuminação e muita diversidade de lanternas de variados feitios e lustres, esclareciam todas as boticas ou lojas do basar, mui curioso de se visitar nestas occasiões.
Á meia noite estrondosa bulha de panxões, conhecidos em Portugal pelo nome de estalos da China, annunciava a entrada do novo anno. Os Chinas gastam estes panxões com immensa profusão nas suas festas, e correspondem aos foguetes do ar na nossa patria. Todos os Chinas no primeiro dia do anno apparecem com os melhores fatos que teem, ou que compram para estes dias, durante os quaes se visitam, banqueteam, e jogam; prolongando por mais ou menos tempo estas ferias e regalos, segundo as possibilidades de cada um, chegando os mais ricos a fazel-as durar de quinze a trinta dias. Entre os Chinas de Macáo se passou esta notavel épocha com a maior quietação, tanto no mar como na terra.
No basar reinou a melhor ordem: patrulhas dobradas o percorreram constantemente nestes dias, e nem um só roubo ou perturbação teve logar; cousa bem admiravel entre os Chinas nestas occasiões, em que deliberadamente concorrem os lanchaes, ou ladrões de terra e mar aos basares para roubarem quanto podem.
Apontamentos d'uma viagem de Lisboa a China e da China a Lisboa, Carlos José Caldeira. 1853
imagem do Templo da Barra, 18 de Fevereiro de 2015
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