Hedda Morrison. China 1933-1946
Assim como nós dizemos «o pão nosso de cada dia», deveriam elles adoptar «o arroz nosso de cada dia». Cozem esta graminea de uma maneira especial; deitam o arroz em agua, sem sal e sem mais tempero algum, e põem-no ao lume n'uma vasilha; quando está cozido, tiram-no do fogo e deixam-no ficar tapado por algum tempo; logo que esteja transformado numa especie de massa compacta comem-no acompanhado de um conducto qualquer, a que chamam som. Os chinezes têem ordinariamente duas refeições por dia, sendo raros os que comem tres vezes. Almoçam e jantam, mas jantar que lhes serve tambem de ceia, porque a segunda refeição se verifica á noitinha.
Os operarios e as classes pobres alimentam-se de arroz, peixe miudo ou salgado, hortaliça e fructas. Só comem carne de porco ou pato, no primeiro dia de lua e no meiado d'esta. (…) Os negociantes, que em Macau constituem a classe superior, têem sempre ás suas mesas uma grande profusão de viandas. Preferem peixe e mariscos; gostam mais de comer de magro que de gordo. Todavia também se servem de carnes de porco, presunto, carne ensacada, pato (ade, em lingua de Macau), isto misturando sempre arroz e differentes verduras. Os seus acepipes mais dilectos e exquisitos são: o bicho do mar, asa de peixe e ninho de passaro. Qualquer d'estes tres manjares é de subido apreço.
O bicho do mar não passa de uma especie de enguia grossa e curta; a asa de peixe é a barbatana do tubarão e o ninho de passaro vem a ser a baba de umas certas aves da Oceania. Os ovos são baratos e os chins comem-nos crus, cozidos, salgados, e apodrecidos artificialmente, o que não obsta a que tenham mau cheiro e gosto como se se tivessem deteriorado naturalmente.
Não comem carne de certos animaes uteis á agricultura, taes como a de vacca, de bufalo e de cavallo, que são protegidos por uma especie de voto religioso, que os chins fazem nos templos, promettendo não matar animal dedicado ao trabalho. Em compensação abusam da carne de porco, peixe salgado, etc, o que concorre para desenvolver n'elles varias enfermidades, taes como escorbuto, chagas pelo corpo, etc, etc. Os patos salgados, siô-é, tambem são muito apreciados.
Digamos entre parenthesis, que a exdruxula e soez maneira por que dizem serem mortos estes palmipedes, o uso infame que em vida fazem delles, levam o estrangeiro a ver com repugnancia este animal á sua mesa. Os do povo comem em suas casas, em mesas ambulantes, que se vêem pelas ruas do basar, ou em culaus (casas de pasto).
Os chins não usam toalhas nas mesas em que comem. Nos jantares ostentosos as mesas são forradas de panno de cor e cobertas de bordados. As suas baixellas cifram-se na louça. Os pratos de que usam não excedem o perimetro dos nossos pires, quer desempenhem o papel de pratos de guardanapo, quer façam de travessa, etc. Não se servem de talheres, mas empregam em seu logar uma especie de estyletes do dobro do comprimento dos nossos lapis, a que chamam fai-chys. Ha-os de marfim, ebano e até de madeira ordinaria. O seu emprego é muito difficil para os europeus e requer uma gymnastica especial dos dedos. Os chinas manejam-nos com tanta, ou mais facilidade, do que nós nos servimos do garfo e faca.
Para os alimentos liquidos servem-se de pequenas colheres de louça, de cabo chato, curto e largo, cuja concha é quasi oval. A carne, aves, peixe, etc, vem sempre para a mesa em pequenos pedaços. O arroz serve-se em tijelas, que os commensaes, de quando em quando, approximam da boca, para ali introduzirem o alimento com auxilio dos fai-chys que movem com incrivel rapidez.
Tanto para a carne, como para peixe, empregam sempre oleo ou azeite, de algodão e coco, manteiga de porco, ou ainda molhos que compõem de varias hervas e especiarias, rasão pela qual em todas as suas comidas se encontra um gosto caracteristico, que repugna aos paladares europeus.
A fructa, pela maior parte, comem-na antes da perfeita maturação. Também a preparam secca, de conserva, etc, etc. Fazem doce de varios fructos e vegetaes e fabricam uma infinidade de bolos. Todos estes acepipes e guloseimas são muito vistosos, mas, em verdade, pouco appeteciveis para nós.
Macau e os seus habitantes, relações com Timor de Bento da França, 1897


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