Os bonzos passam letras de cambio pagáveis no céu

Escada do Caracol
Escada do Caracol

Povos idolatras são necessariamente supersticiosos. Em tempo de sécca rogam aos idolos, que lhes dêem chuva; em tempo de cheias, que lhes dêem estio. As mesmas súpplicas fazem, para ter saude; e as mulheres, para terem feliz successo, dão presentes aos bonzos, para lhe servirem de medianeiros perante os idolos; porém, se os maridos chegam a desconfiar do poder dos deuses, arrasam-lhe os templos, e perseguem os bonzos.

Os chinezes, apezar de supersticiosos, são activos, pacientes, e sobrios. O seu defeito imperdoavel é a vaidade: tratam de barbaras as outras nações; reputam-se mui superiores á mais illustrada, e humana; só têm por bom, o que se faz no seu paiz. Se o amor da patria é uma virtude, ninguem a possue em gráo mais elevado! (...)

HOJE houve larga palestra em casa do meu amigo Cha-Amui. Perguntei-lhe, se adorava o sol, ou a lua pela Divindade, ou se professava a religião do estado; e se fora CONFUCIO, ou Fou-Hi, quem a inventára? Respondeu: 

«A religião ensinada por KOUNG-TSEU, CONFUCIO, acha-se no Y-King, livro sagrado; funda-se em principios invariaveis; demonstra-se pela natureza da nossa especie, e de tudo o que nos rodea. Foi dada por Fou-Hi, e ampliada por Houan-hi, YAO, e outros virtuosos filhos do ceo. O Tien, Deus, deu ao homem sentidos, e memoria, por consequencia razão; permittio, que fizessemos uso d'ella, obrigados pela necessidade: assim aprendemos a fecundar a terra, a cultivar as sciencias, e as artes necessarias á vida. Pela razão temos conhecimento da sua vontade, ou do nosso dever, para com os outros homens. Eis a doutrina escripta em nossos livros sagrados. Deus manda, que os filhos da terra gozem de todas as commodidades, e prazeres compativeis com o bem. CONFUCIO extrahio estes principios do Y-King; formou-os em corpo de doutrina, e é a que meus pais me ensinaram, e sigo. Adoro o sol, a lua, e os outros planetas; porém como obras do Tien.»

Gostei de ouvir a explicação do Y-King, onde se acham decifrados os Trigrames de Fou-Hi; ver, que o meu amigo seguia religião limpa de superstições; e mostrar-te ao mesmo tempo, que os chinezes reconhecem, e adoram o Entendimento Supremo nas suas obras. (...)

«De todos os symbolos, que possam escolher-se para designar o altar sagrado, diz CONFUCIO, onde os homens rendem culto ao Pai de todas as luzes, não ha outro mais expressivo, do que a letra Ming; pois encerra os attributos de Gê, astro que preside ao dia; e os de Yué, que allumia de noite.»

Depois que Fou-Hi ensinou os homens a render culto á Divindade, e a modificar os impulsos naturaes, pela observancia de preceitos suppostos divinos, a primeira seita, de que os annaes fazem menção, é a de Tao-Se. (...)

A seita mais em voga na China, ha 1760 annos, é a de Boudha, divindade a que os chinezes chamam Fo. Póde considerar-se a religião da plebe. (...) O governo chinez é tolerante; comtudo, sustenta mandarins, encarregados de fazer conhecer ao povo a falsidade d'esta, e de outras similhantes seitas. A plebe em todas as partes do mundo, é tenaz em suas preoccupacões. Uou-Tsoung, imperador illustrado, mandou arrasar, como já te disse, mais de quarenta mil templos, de seitas diversas, no anno 845 da era Christã; mas ellas proseguiram. (...)

Perguntei a um sabio de grande credito, por que motivo se tolerava no imperio a seita de Fo, sendo a religião do estado simples, razoavel, e limpa de superstições? Respondeu: «O homem, para ser livre, não lhe basta considerar os seus bens, e pessoa, a salvo da tyrannia; precisa ter o espirito desembaraçado, para seguir sem obstaculo as idéas, que o fazem ditoso. Os povos são todos religiosos; porém, de maneiras differentes: adoram um, ou muitos deuses, e cada um a seu modo; isto é, como na infancia lhe disseram, que o deviam fazer. Assim, estão persuadidos, que o seu modo de ver, é o melhor: logo, não se devem estorvar do culto, que por seu gosto rendem á Divindade, para não os fazer desgraçados. Se é tyrannia despojar o homem dos seus bens, maior, mais cruel, e mais insopportavel é violenta-lo na opinião, que forma do Ente Supremo. A razão pede, que se tolerem no estado as seitas, adoptadas pelos cidadãos; e que haja balança justa entre uns, e outros, a fim de não se opprimirem. (...) Uns dão aos bonzos quanto possuem, julgando comprar assim prazeres, além da vida: os bonzos passam-lhes letras de cambio, no valor de um por cento, pagaveis no ceo, como se lá tivesse o dinheiro valor, ou elles correspondentes: outros affirmam aos seus devotos, não haver mais do que viver, e morrer; pois de ignorantes é cuidar outra cousa.»

Cartas escriptas da India e da China nos annos de 1815 a 1835, por José Ignacio de Andrade a sua mulher d. Maria Gertrudes. José Ignacio de Andrade, 1847.
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