Já lá vai uma boa duzia de anos, mas nunca mais nos esqueceu aquela imagem focada em plena rua, á entrada do Bazar, ou bairro china de Macau. Era pelo Ano Novo e tôda a China estava em festa. Macau, como uma parcela, um miradoiro da China imensa, imutável, conservadora fiel da tradição, coloria-se de alegria e de galas, duma alegria sui generis, como os chineses sabem exteriorizar, uma alegria calma, concentrada, que não é como a nossa alegria, mas que se expande fracamente, qual aroma dum subtil perfume que torna doce aquele exótico sentir.
Macau estava em festa, ou, para melhor dizer, a China estava em festa dentro de Macau, e nós, que sempre gostámos de observar, iamos já antegozando as sensações sempre novas pelo colorido e variedade, que a China nos faculta a cada passo, ora com agrado, ora com repulsa, em sobressaltos de contradição, defeito e qualidade que tornam a China indelével na nossa memória e na nossa emotividade. Iamos entrando naquela descida que leva à rua da Felicidade. Rua da Felicidade - que fantasia, que irrisão!
Fantasia que chega a ponto de, quando da inauguração da rua de Macau, na Exposição do Mundo Português, de 1940, a nossa Imprensa ter anunciado, como coisa certa e indubitavel, que aquela rua reproduzia um trecho da rua da Felicidade, com os seus clubes (sic) de Fan-tan, prédios de vários andares, pagodes, casas de chá e não sabemos que mais fantasias do bom reporter que, por certo, ficará muito admirado se um dia chegar a saber que naquela rua, de estilo tártaro, não há predios de mais de um andar, clubes nem Fan-tan, pagodes ou casas de chá, e que só há a felicidade da desventura de certas Pi-pa-chai -chamemos-lhe assim- que, por um eufemismo, muito do gosto dos chinas, deram fama à rua, emprestando-lhe este nome tão querido dos chineses e cujo carácter ideográfico se vê espalhado por toda a parte - Felicidade!
Mas, continuemos na nossa digressão. Na parte-alta, era o socego do burgo português setecentista (...); na parte baixa, era o formigar estonteante da vida chinesa, com o colorido inimitável dos seus caracteres ao vento, as lojas escancaradas, como montras, com tudo á venda, as cosinhas pelas ruas, a abarrotar de arroz, sopa de fitas, peixe, molhos esquisitos para o nosso paladar, carne em bocadinhos, hortaliças, etc., tudo como em picados para bonecos, que se comem levados à boca com dois fai-t'chi - era a música dos Cou-laus e o cantar dolente das Pi-pa-chai...
lamos, pois, a caminho da China imutável e milenária, da China sórdida mas estonteante, que atrae, que se namora, que nos narcotiza e encanta! E mal entramos nela, alguns passos dados, apenas, eis que a visão esperada com sofrega anciedade, se esbate na mais cruel contradição: à porta duma casa pobre, dois vultos de amarelo; são dois bonzos, estão de costas, não enxergamos mais. Vê-los ali, em ocasião de tal festa, afigura-se-nos caso estranho. Aproximamo-nos e descobrimos, horrorizados, por detrás deles, o cadáver dum china estendido numa esteira, sôbre uma tarimba. As feições estão serenas mas a tês é dum citrino horrível, que faz arripios! - e os bonzos amarelos vão continuando aquela litania, que parece a mesma em tôdas as religiões, com que se pretende suavisar o passamento dos mortos. É este um costume enraizado nos chineses desde remotas eras: quando um doente entra na agonia ou se considera in articulo mortis, é retirado do leito e colocado sôbre uma esteira, à porta da rua, com os pés para fôra, para que o espírito saia de casa com facilidade e não perturbe os vivos.
Aquele desgraçado, certamente que não fôra para ali transferido depois de morto, mas, talvez, com a consciencia de que ia morrer, o que, para nós, seria motivo de tortura, e muito embora tal não deva suceder com os chineses, o tetrico quadro em nada diminuia do repulsivo horror.
E, por momentos, toda a China, a China opiante, que perturba, fere e dilecera a nossa sensibilidade, se concentrou ali, ante os nossos olhos, trágica e envolvida no soturno mistério da morte!
Cênas da Vida de Macau, Jaime do Inso. 1927. Apud Cadernos Coloniais, nº 70, 1950
imagem do Templo de A-Má, 18 de Fevereiro de 2015
imagem do Templo de A-Má, 18 de Fevereiro de 2015
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