O céu revelou ao homem o calendário

Ano Novo Chinês 2015
Lanternas de Ano Novo Chinês 2015
Largo do Senado

De acordo com Confúcio, explica Callado Crespo,

A «Sublime doutrina» póde resumir-se em nove regras fundamentaes, de que nós só apresentâmos as seis mais curiosas, e que são as seguintes: (...) As cinco cousas periodicas que o céu revelou ao homem: o anno, a lua, o sol, as estrellas, planetas e constellações, o calendario. (...)

Os chinezes gostam muito de flores, a que quasi tributam um culto nas festas do anno novo, em que não ha ninguem que não tenha, ou pelo menos não toque alguma flor; sem isso quasi não ha salvação possivel no julgamento da sua alma, se ella durante esse anno se desprende da terra. Por aquella occasião dão-se, pedem-se, vendem-se, ou obtem-se por qualquer forma, comtanto que em casa haja uma planta ao menos com botões; é então que o «Tiú-chung fá» «Aeschynanthus reticulatus» attinge preços fabulosos (...).

Não contam os chinezes a idade como nós, dia a dia, mas sim de anno a anno; o que faz com que todas as creanças nascidas durante o mesmo anno civil sejam consideradas como tendo a mesma idade. Assim, por exemplo, uma creança que nasce na vespera do dia do anno novo, tem «um anno» n’esse dia, e no dia immediato faz «dois annos», ficando por isso considerada da mesma idade de outra creança que veiu ao mundo vinte e tres mezes antes! (...)

FESTA DO FIM DO ANNO

Começam as ferias dez dias antes do anno findar, para que todos se possam preparar para essa grande solemnidade, que comprehende muitas festas religiosas, e um banquete em honra do deus annual que se vae embora, e para lhe agradecer os beneficios recebidos durante o anno. O banquete mais importante é o dedicado ao deus do lar no vigesimo quarto dia da decima segunda lua em que se despedem da divindade que se vae, talvez cansada da sua missão e se faz a recepção solemne da que chega para presidir á felicidade da casa no proximo anno. Parece, pois que os deuses na China têem um poder temporario como o dos nossos cargos electivos; linda a sua missão, em geral não se falla mais d’elles. O altar do deus do lar está sempre na cozinha, e diante do qual ardem todo o anno os pivetes e o incenso costumados. E defronte d’esse altar que se serve a ceia da despedida, depois do que o nome do deus é substituido pelo do novo deus, com certo ceremonial, findo o qual se serve um novo banquete, o da recepção, ao som dos indispensaveis petardos.

No ultimo dia do anno, expõe-se ao ar um bolo de arroz enfeitado com folhas de cypreste, sobre as quaes se põem papeis encarnados com dizeres de felicidade. Á meia noite é substituido por outro bolo de arroz, que fica exposto durante alguns dias antes de ser comido. Assim se chama a um o arroz do anno velho, e a outro o arroz do anno novo.

Inutil é dizer que as ceremonias feitas na cozinha são tambem feitas diante do altar dos antepassados, não esquecidos em ceremonia alguma.

FESTA DO ANNO NOVO

Logo ao nascer do sol, em todas as casas é saudado o rei dos astros com petardos enormes, depois do que todos os funccionarios e pessoas importantes vão ao templo imperial apresentar as suas felicitações diante da taboleta em que está inscripto o nome do soberano. Cumprido este dever vão render homenagem aos templos do céu, de Confucio, do deus da litteratura, e ao deus da guerra; e depois fazem visitas uns aos outros durante os primeiros cinco dias, dizendo-se reciprocamente «Kunghi! Kunghi!» boas festas, boas festas. 

Aos recemcasados que fazem visitas, offerece-se, alem do chá e bolos do costume, um sacco de laranjas e pevides de melancia, como signal de desejo de que elles tenham muitos filhos. Ha lavagem geral a pessoas e cousas (verdade seja que é lavagem para todo o anno), gratificam-se os creados, e ás creanças dão-se barras de prata envolvidas em papel encarnado; as pessoas de distincção offerecem sapecas de differentes feitios, onde estão gravados os melhores desejos de felicidade.

No quarto dia da primeira Lua celebra-se a festa do deus da riqueza e da felicidade, illuminando-se todas as salas em que o nome da divindade está escripto em papel encarnado collado na parede. 

No setimo dia é a festa do nascimento ou apparecimento do homem na terra e «Jin-ji», festa em que se póde ver talvez uma recordação confusa da creação do mundo; e assim successivamente, havendo cada dia sua festa com que vão passando… o tempo em divertimentos, banquetes e jogos até á festa das lanternas.

Os primeiros dez dias distinguem-se por nomes especiaes: O primeiro, da gallinha, «Cai-iete». O segundo, do cão, «Kun-iet». O terceiro, do porco «Tchu-iet». O quarto do carneiro, «Iong-iet». O quinto, do boi «Ngao-iet». O sexto, do cavallo «Má-iet». O setimo, do homem «Ien-iet». O oitavo, dos cereaes «Coc-iet». O nono, do linho «Mâ-iet». O decimo, do feijão «Tao-iet».

No dia do anno novo ha muita gente que não come carne, porque, segundo a lenda, um certo philosopho a quem tinham offerecido um pombo n’aquelle dia, soltou-o dizendo «hoje, dia grande; todos os seres devem ser felizes com a sua liberdade». N’esse dia os petardos, signal sempre de alegria, têem ainda por fim expulsar os espiritos maus, que fogem espavoridos com medo dos tiros, não vindo por isso perturbar a felicidade dos viventes.

É tambem objecto de grande superstição o vento n’esse dia: se sopra do S., é anno de secca com certeza; se vem do norte, colheita mediocre; se do O., a guerra que se approxima; se do L., as inundações; vindo do SE., haverá epidemias; do NE., anno pacifico. Assim como a direcção do vento prognostica o anno, assim a primeira palavra que se escreve ou pronuncia n’este dia, exerce uma grande influencia sobre o individuo durante esse anno; eis porque toda a gente logo de manhã escreve cartas que comecem por uma palavra que traduza felicidade, riqueza, etc., para que o anno lhe corra bem.

Cousas da China, costumes e crenças, Callado Crespo. 1898
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