No pagode a iluminação é escassa

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imagens do Templo da Barra, 18 de Fevereiro de 2015

Tudo é alegria no Bazar, uma alegria que nos faz mergulhar na calma tranquilidade chinesa, que nos invade e conquista, insensivelmente, como um filtro que se absorvesse ao respirar. A policromia das lojas; o vai-vem constante duma população activa mas que desconhece precipitações; os vasos de flores; os leitões assados e os patos salgados pendurados às portas, como uma tentação à voracidade dos chineses, para quem a comida é um dos maiores prazeres; as lampadas que começam a acender-se, como que soltando um hino à luz que os chineses adoram com verdadeira devoção pagã; as fugidias Pi-pa-chai que passam a caminho dos Cou-laus; todos aqueles sons do ambiente e da vida do Bazar, na atmosfera festiva do Ano Novo, vão-nos narcotizando, à mistura com o cheiro, enjoativo e doce, do ópio que anda pelo ar.

Começamos, então, a vislumbrar, ao de leve, um pouco da sensibilidade chinesa; arrastados a uma sintonização de nervos, pelo contacto e pela influência do meio, sentimos um pouco daquela delicadeza, tão dificil de sentir, que possuem os amarelos e que os leva a considerar-nos -oh que monstruosidade, às vezes, com razão!- como bárbaros do Ocidente! Pois que, será possível que, alguma vez, um europeu possa admitir visos de verdade em tão atrevida afirmação formulada pelos orientais a nosso respeito?

Teria, por ventura, razão, Afonso de Albuquerque, quando disse que entre os mestres dos juncos chineses tinha encontrado mais finura e delicadeza de trato do que entre certos fidalgos da nossa terra? Será possível que tudo isto seja verdade? Leitor amigo: é possível, é certo, mas não vale a pena insistir. Já Mendes Pinto, - por tantas coisas dizer da China, foi alcunhado de Mentes Muito... 

Seguimos, hipnotizados pela luz que brota a jorros, por toda a parte: das lojas, das varandas dos Cou-laus, das bancas do Clu-clu. As ruas são um chuveiro de luz e a multidão engrossa cada vez mais. Passam por nós chinesas esquivas que nos olham com uma espécie de terror: são forasteiras que veem das aldeias visinhas mergulhar na alegria compassada do Bazar.

Entramos num Pagode. Lá dentro, a iluminação é escassa, num contraste com o exterior. Sobem volutas de fumo de sândalo, dos pivetes que ardem em frente do altar. As esteiras redondas, ali postas no chão, - nunca estão vazias de devotos que batem cabeça ante a estátua de Buda e doutras estranhas divindades, espécie de anjos ou guardas dos santuarios. 

Entram famílias inteiras, homens, mulheres e crianças, de todas as classes sociais. Agora é um chinês rico, burguez pesado, de custosa cabaia de seda azul escura, o indispensável solideu na cabeça, trazendo pela mão um netinho roliço, de olhos espantados, de cabecita rapada, onde apenas deixaram um tufo de cabelo sobre a testa, amarrado com uma fita encarnada. Está envolvido em pequenas cabaias de cor, acolchoadas, redondo como um pacote de algodão, mas simpático, insinuante e profundamente chinês, dir-se-ia, até, no pensamento.

Entra uma tankareira, mulher de trabalho, tripulante do seu barco, o seu tanká, a sua casa, o seu mundo, com o filho às costas, numa espécie de alforge encarnado. Ajoelha sôbre uma esteira, curva-se várias vezes, com as mãos no chão, até quási lhe tocar com a cabeça; depois, pára uns instantes, como que em oração, e levanta-se, vai a um balcão ao lado, onde compra um amuleto, um pequeno triângulo de papel vermelho e doirado, que se prega no fato das crianças e cujo encantamento as livrará das influências dos maus espiritos. Os chineses, altamente práticos e dados ao comercio, nunca deixam de ter uma espécie de loja dentro dos pagodes, onde fornecem tudo aquilo que é mister para se cair nas boas graças da divindade. Mal se esvasia uma esteira, que logo outro crente ali cai, de joelhos, na mesma prostração de gestos automatos, a bater cabeça, sem que transpareça uma expressão de verdadeira fé naqueles rostos, sorrindo-se, às vezes, como se realizassem qualquer acto banal da vida cotidiana.

Uma chinesa de trajo antigo, de largas calças pretas e cabaia curta cintada, côr de anil -um trajo simpático de inverno- entra, com certa distinção, e vai consultar as palhetas de bambú. Não sabemos, necessáriamente, o que ela pretende -na vida chinesa não se dá um passo sem consultar os espíritos ou certas divindades, que esplritos são tambem- mas ficamos a olhar a operação que decorre com rapidez. Dentro de duas espécies de jarros, feitos de troncos de bambús, estão uns molhos de reguasinhas soltas, talhados na mesma cana, sobre as quais se inscreveram vários caracteres sibilinos da enigmática escrita dos chineses. Pega numa das jarras, sacode-a, de forma a baralhar as palhetas, escolhe algumas que tira para fora e debruça-se sôbre os caracteres para saber a resposta que procura. Foi boa? Foi má?

Não sabemos, que a fisionomia nada diz, nada nos revela e, mal se levanta, toma o lugar dela uma criança em que transparece a maior expressão de fé que ali nos foi dado observar. Fita, numa concentração estranha, a grande imagem oculta na penumbra do santuário, ainda mais obscurecida pelas bandeiras, espécie de kakimonos de seda vermelha, com caracteres doirados, que caem do tecto e que são oferendas de reconhecimento por favores recebidos daquela divindade. No grande perfumador que se eleva logo à porta de entrada, vão-se enterrando os pivetes, sem cessar, levados pelos fieis, tal como a fé cristã oferece velas ante os altares, cujo fumo, com o decorrer do tempo, já manchou de negro as paredes e o tecto do templo, donde saímos atormentados com o eterno problema da Verdade...

Cênas da Vida de Macau, Jaime do Inso. 1927. Apud Cadernos Coloniais, nº 70, 1950

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