As tancareiras

Friedrich Carl Peetz. 1900
Friedrich Carl Peetz. 1900

Apenas começava a alvorecer o dia 27 de Outubro, saíu João António de casa da timora, e dirigiu-se para a alfândega. Êste edificio grandioso, que serviu em outro tempo de casa fiscal do pôrto, estava agora repartido para diferentes usos, visto que Macau havia sido declarado pôrto franco (...).

O motivo que levava João António naquela direcção era ser o espaçoso cais da alfândega o lugar em que comummente embarcavam e desembarcavam as tripulações dos navios de guerra, tanto dos surtos no rio como dos ancorados na Taipa, pequeno pôrto defronte da cidade, onde então se achava a fragata D. Maria II. Ligeiros tancás (pequenos barcos, cujo nome se traduz por casca de ovo) guarnecidos por engraçadas mulheres chinesas, que falam um patois português divertidissimo, não pronunciando o r e substituindo-o sempre pelo l, e fazendo ainda outras transformações, tudo em cadência musical, conduziam a bordo os nossos marítimos, alguns dos quais morriam de amores pelas belas tripulantes. 

E em verdade que tinham razão; aquelas carinhas morenas das tancareiras, molduradas em óptimos cabelos, escuros como os seus olhos pequeninos, mas vivos, com lindos dentes, mãos pequenas, pés delicados, apesar de costumados a andar descalços, estatura baixa mas esbelta, trajo assás pintoresco; cabaia e calça azul ou preta, lenço de côres vivas na cabeça, sapatos de prodigiosa altura, um certo requebro no andar, era tudo isto de certo muito mais bonito do que os rostas cobreados das timoras, e dessas raças cruzadas de malaio, chim e europeu, que parecem haver sido achatados ainda no berço.

Até aqueles barquinhos, onde elas vivem de dia e de noite, parecem chamar os passageiros, pelo seu extraordinário aceio; e com tudo dentro de um fraco tancá, tem uma familia o seu pagode, espécie de deuses penates, sempre alumiado e bornido; cozinha, camas, bancos, enfim; a mobília completa de uma pobre casa; as tancareiras aí vivem, aí cozem o seu arroz e o comem, aí dormem, rezam e folgam. A sua religião manda-as dedicar à alegria até encontrarem marido, e elas cumprem à risca este preceito, em quanto um esposo feliz não opõe a barreira do himeneu a essa torrente de loucuras; desde então a tancareira tornou-se uma mulher séria; não ri para o viandante, não responde a nenhuma provocação, senão mostrando uma fita preta lhe cinge o pescoço, e que quer dizer: sou casada. A variedade acabou para ela!

Os nossos marinheiros e soldados gostavam apaixonadamente de tudo isto, e João António, que contemplava agora algumas delas, empregadas a lavar escrupulosamente os seus barquinhos, comparava-as com Floriana, e dava-Ihes a preferência; porém, se êle fugia para a baixa do Monte, é porque a hediondês da sua figura causava terror àquelas aceiadas criaturas, que fugiam dêle chamando-lhe diabo, e não sei quantos nomes mais, que haviam aprendido em português, para insultarem os que se portavam mal. As pobres tancareiras até tinham medo de o conduzir a bordo, mas com isso se importava êle pouco; e ía saltar para dentro de um barco, para obrigar as raparigas a Ievá-Io à fragata, quando enxergou a lorcha do serviço do seu navio, que vinha atracando ao cais, para receber a ração da maruja.

F. M. Bordalo em O Panorama, 1854, apud Boletim Geral das Colónias, Novembro de 1928
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