A Província de Macau por A.P.

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A cidade de Macau tem magníficas ruas e edifícios, apresentando um aspecto deveras interessante e pitoresco. As suas avenidas, com grandes árvores, proporcionam passeios agradáveis, pela frescura da sombra dessas árvores. As suas igrejas, de arquitectura medieval, atestam por tôda a parte o esfôrço dos missionários portugueses, os primeiros que prègaram a religião cristã entre os povos chineses, no Extremo-Oriente. Vários jardins, admirávelmente cuidados, embelezam a cidade que, com os seus monumentos, os seus edifícios modernos, os seus hoteis, o seu característico bairro china, lhe dão um aspecto fora do vulgar, que é notado em todas as descrições dos viajantes que tiveram ocasião de visitar esta colónia portuguesa, por forma sempre altamente elogiosa para nós, quando se referem a êsse scenário deslumbrante que nos apresenta aquela linda cidade de Macau.

É muito pitoresco o seu rio, coalhado de juncos (pequenas embarcações), que por tôda a parte sulcam as águas, com as suas velas sobromaneira típicas, que tanto despertam a atenção. 

Êste rio Cantão, cujas águas pertencem já, em grande parte, ao pôrto interior, separa a cidade de Macau da ilha da Lapa, que se contempla do outeiro da Penha, donde se disfruta todo êsse panorama maravilhoso, formado pela península de Macau, prolongado para além da peninsula com o vasto território chinês, que completa a beleza do scenário.

O «Farol da Guia», se avista no outeiro dêste nome, foi a primeira luz que iluminou os navegadores nas costas da China, construído pelos portugueses. A Praia Grande, que forma a mais encantadora esplanada da cidade, a «Montanha Russa», a Areia Preta, são outros tantos pontos interessantes de Macau. A Porta do Cêrco é digna de ser visitada. Além fronteira, em território chinês, encontra-se Pak-Sa-Leang, que os portugueses chamam Passaleão e que representa um episódio emocionante da nossa história. Ali, Vicente Nicolau de Mesquita, resistiu, com 39 homens apenas, às fôrças chinesas, em 1849, libertando Macau pela sua coragem e bravura. 

A gruta de Camões relembra, em Macau, a memória de um dos maiores poetas da raça latina, que foi Luís de Camões, autor do poema Os Lusíadas, no qual se cantam todos êsses feitos que imortalizam a Nação Portuguesa, pelas suas descobertas e conquistas. Monumentos, relíquias históricas, igrejas, atestam por tôda a parte a beleza de Macau.

O bairro china representa um aspecto acentuadamente típico e original. Em todos o sitios se vendem bugigangas chinesas, se improvizam mercados, se encontra um estendal de artigos, de muitos dos quais se não chega a perceber a utilidade. Vêem-se caracteres chinas em todas as portas e em todas as taboletas, uns horisontais, outros verticais, em amálgamas de pinturas do todos as feitios e côres, quási sempre artísticos nas suas incomparáveis fantasias e graciosa disposição. Êste contraste de vida do bairro china com a vida do bairro europeu mais contribui para tornar Macau uma cidade, sob todos os pontos de vista, curiosa e típica como poucas.

A China actual está sendo um teatro de lutas intestinas, sociais e políticas, tendentes a revolucionar os sistemas conservadores que vinham desde longe. A falta de unidade de vistas entre as diversas facções políticas têm convertido a China num país desorganizado e irrequieto, de que têm resultado as constantes lutas armadas entre os partidos do Norte e os partidos do Sul do Império. Só no futuro, quando vierem as reconciliações, pela dura lição da experiência, a China entrará num período de desenvolvimento, saindo dos processos rotineiros de outros tempos, para se lançar afoitamente na evolução dos princípios da moderna civilização.

ldeias de progresso estão criando raízes nos povos do «Celeste lmpério» e essas ideias hão-de certamente transformar a China numa das nações mais industriais do mundo. Portugal não pode manter-se indiferente perante essas transformações que se vão operando naquela nação, nem perante a maior expansão comercial e industrial que se venha a produzir, como é natural. Tôda a região ao noroeste de Macau tem faIta de trabalhadores mas a terra é fertil em agricultura. Macau poderá vir a ser por isso o porto de saída das mercadorias de todos êsses territórios, que a êle acorrerão devido à sua privilegiada situação, sendo, ao mesmo tempo, o centro da distribuição dos produtos originários de Portugal e das suas colónias da África, da Índia e de Timor. Para êste objectivo, Macau necessitava um pôrto que fosse uma garantia segura para o seu desenvolvimento e prosperidade. Foram estas e outras considerações que levaram o Govêrno da Colónia a propôr a construção dêsse explêndido pôrto que deverá estar concluído dentro de pouco tempo. (…) 

O Clima de Macau é um dos melhores, senão o melhor, de todas as cidades ao sul da China. As condições de salubridade são explêndidas, recomendando Macau como uma estação de inverno em relação ás regiões do Norte que são freqüêntemeute apoquentadas pelas baixas temperaturas. A temperatura média em Macau é aproximadmente de 21° centígrados regulando a média das máximas 36º,2 e a das mínimas 5°,8. Os dias de completa calma são raros e as chuvas mais abundantes no verão repetem-se por vezes na primavera, sendo raras no outono e no inverno.

O último senso da população é de 1920 e por êle era computada a população de Macau em 83.984 habitantes, podendo-se fazer dentro dêste número as seguintes classificações: 
População chinesa 79.807 / Não chinesa 4.177 (…)

A população deve ter crescido extraordinàriamente até 1926, supondo-se que o próximo censo deverá acusar um aumento de população de 100% sôbre o censo de 1920 (…).

Além do Liceu Central de Macau, onde se ensina actualmente todo o curso dos liceus, Macau possui 125 escolas, sendo 4 do govêrno, 7 subsidiadas por êste, 4 missionárias, 10 do Município e 100 particulares. (…)

São várias as companhias de navegação que mantêm um serviço diário entre Macau e os portos vizinhos. Assim, a «Hong Kong, Canton & Macau Steamboat G» mantém duas carreiras diárias entre Macau e Hong-Kong, gastando-se cerca de 4 horas. Esta Companhia e a «Taig-seng & C.°» mantêm carreiras diárias com Cantão, gastando cêrca de 8 horas. Outras, como a Companhia de Navegação «Tong-Heng», fazem carreira para Saigon, Singapura, Swatow, Formosa e Japão. Há ainda carreiras para Kwong-Chow-Wan, Pak-hos Hainam e Tonkin. Em Macan existem ainda Agências de várias companhias de navegação de longo curso, como sejam a «Pacific Mail», «Messageries Maritimes», «P. & O.», «Canadian Ocean Services», «Toyo Lissen Kaisha», «Nipon Kaisha», «Companhia Transatlântica», etc. (…)

O principal comércio de Macau consiste em vinhos, licôres, azeites, louças, carvão mineral, madeiras, algodão, charão, chá, arroz, etc. Além de pequenas indústrias, como sejam tecidos, cimentos, conservas de fruta, tijolos, calçado europeu e chinês, etc., as suas principais indústrias são indiscutivelmente o fogo de artifício e a indústria do peixe. Existem 10 fábricas de fogo de artifício, sendo muito considerável a sua exportação. Estas fábricas empregam 20 a 30.000 pessoas, na sua maior parte mulheres e crianças. A indústria da pesca, que emprega cêrca de 20.000 pessoas, é uma das maiores riquezas de Macau. Perto de um milhar de juncos de alto mar estão empregados nesta indústria e o valor da sua exportação em peixe salgado anda por 3.000.000 de patacas. O peixe salgado é exportado para tôda a parte do mundo. Em ligação com a pesca existe a construção de juncos que não deixa de ser uma indústria digna de ser mencionada. Existem ainda produções importantes de óleo, essências e vegetais.

Um dos ramos do comércio de Macau é o ópio, que é importado crú e depois preparado ou cosido para a exportação. Macau tem sido injustamente atacado, tendo-se chegado a insinuar que o contrabando do ópio é muitíssimo grande e que o povo é incitado ao seu uso. (…). O comércio do ópio em Macau é de importância insignificante se se comparar com o de outras cidades pertencentes à China, com o de Hong-Kong, com o de Java, etc., e para o provar basta dizer que nas indústrias e comércio de Macau estão actualmente empregados 85 a 40.000 pessoas, isto é, aproximadamente metade da sua população acusada pelo censo de 1920, e dêste número apenas cerca de 60 pessoas se empregam na indústria do ópio. (…) Idênticas considerações se podem fazer a respeito do jogo do Fantan onde se empregam 174 pessoas. (…)

Em Macau existe actualmente o maior cônforto e comodidades, hotéis com todos os requisitos modernos, clubes admiràvelmente instalados, tenis vários, jardim e recreios, jogos, etc. Um grande número de automóveis das melhores marcas tem substituido a pouco e pouco os rik-shaws (pequenos carros de duas rodas puchados por chinas), facilitando pela sua rapidez os serviços de viação na cidade. Encontra-se ali tudo quanto se possa desejar numa cidade moderna. Para se fazer uma ideia segura da forma como Macau é sempre justamente apreciada por todos aqueles que tiveram a oportunidade de a conhecer, remataremos com as palavras dum critico, que por ser estrangeiro, não poderão conter a mais pequena sombra de parcialidade. Escreveu Endore de Colombau: 

«Macau! J’ai prononcé son nom! Et no semble-t-on pas deja ouir dans la chute de ses syllabes d’or, toute l’harmonie des flots qui bercent la vieille cité lusitanienne? Macau! mais c’est l’enchantement dans la realité, le rêve dans la splendeur, le calme dans le mouvement, le silence dans la majesté, l’isolement dans le passé! Jamais il n’y eut sous le ciel d’Asie, de cité plus etrange! Jamais on n’en connut d’aussi historique, d’aussi pieuse et d’aussi atrayante!»

A.P. em Província de Macau, Boletim Geral das Colónias, Março de 1927
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