A lingua chinesa não tem rr


.-.-.Able! Able! - a lingua chinesa não tem rr e os chineses não podem ou não sabem pronunciar esta letra, pelo que, em vez de abre, dizem: able. 

O Clu-clu é um jogo privativo do Ano Novo. O Ano Novo dá lugar à maior festa dos chineses, festa que participa do religioso e do profano, uma religiosidade à moda chinesa, diferente da nossa - festa da familla, festa do negócio, festa nacional. Nós não temos uma época festiva que corresponda, exactamente, ao Ano Novo chinês, conjunto de alegria em que se aliam misticismo e dinheiro, parentes e comunidade mas, até certo ponto, assemelha-se muito ao nosso Natal, ao Natal puro da tradição sem enxertos noelistas...

O Ano Novo é uma festa pagã em que se adora a esperança dum tempo melhor que está para vir, se saldam contas, se lavam as casas, se bate cabeça ante os idolos e se queimam pivetes nos altares, se presta culto aos espíritos dos mortos e as concubinas se prostam, ante a primeira mulher, de vestes de cerimónia, antigas, de sedas ricas e coloridas, batendo cabeça à rainha do lar...

O Ano Novo festeja-se em toda a parte, na terra e no mar, numa comunhão de alegria que brota de todas as almas, de pobres, ricos, miseráveis, de todos os filhos da terra amarela, cuja história nem o próprio tempo pode fazer desaparecer...

Pelo Ano Novo, o porto interior de Macau regorgita de lorchas que ali se juntam e que, por serem tantas, se arrumam em filas, encostadas umas às outras, formando verdadeiras ruas, onde correm seus vendilhões nos tankás, que, com pregões arrastados, vão vendendo lenha, comida, frutas, etc., pelo meio da população marítima, formando um bairro à-parte, característico e sem igual fora da China, onde lá impressionou o nosso famoso Mendes Pinto na sua visita a Cantão.

E são tão lindas as lorchas! São umas embarcações típicas, amarelas, de fundo chato, o leme de grade, as velas tristes, também amarelas, de vergas erguidas, como de braços abertos, que nos dizem, a toda a hora, uma nostalgia, uma saudade! Como elas passam, pela barra de Macau, e como singram, airosas, leves como gaivotas, em prodígios de manobra, rés-vés umas das outras, de bolina cerrada, virando como piões, no mesmo lugar, as velas enfunadas, com bandeiras vermelhas -côr da Felicidade- e vistosas borlas nos topes dos mastareus! Pelo Ano Novo, é uma esquadra inteira que se acolhe ao porto, e centenas de embarcações, ao passarem pelo famoso Pagode da Barra, onde a lenda quer que a deusa A-Ma tenha subido, dum rochedo ao Céú, é ouvir os tan-tans tocando com fôrça, por entre o estralejar dos panchões, numa homenagem sonorosa que prestam à deusa os homens do mar.

Tudo é festa! Até os sai-kós que as mãis levam às costas e que assim carregadas ajudam à manobra ou empunham o lio-lio, -remo comprido- quando é preciso, até os sai-kós, se apresentam presos com uma espécie de suspensórios vermelhos, a côr de festa e da Felicidade. E lá vão, muito sorrateiras, as lorchas, cujas velas se dobram como as varetas dum leque, lá vão, fiéis à inteligência dos bons manobreiros que são os chineses, alinhando-se, dòcilmente, como aves que se acolhessem ao ninho. San-Ning! - Ano Novo! A maior festa da China - festa em terra, em festa o mar! 

- Able! Able! 

Sôbre a banca de Clu-clu está uma tijela invertida que tapa os dados. Aproximam-se os jogadores e fazem as suas paradas. No tampo da mesa encontra-se traçado uma espécie de largo xadrez com números e caractéres chineses, numa policromia de côres que se casa bem com o ambiente festivo, e o banqueiro, metendo os dados na tijela que cobre com as mãos, vae-os sacundindo, o que produz um ruído característico, que se ouve por todas as ruas do Bazar, ao mesmo tempo que exclama - Able! Able! 

Poisa, então, os dados sôbre a mesa, conservando-os tapados com a tijela, à espera que os pontos se animem a jogar, cobrindo os diferentes quadrados, e convida ainda os jogadores, com o mesmo estribilho, às vezes variado com a expressão nhonha que, em dialecto macaense, significa senhora: - Able, nhonha, able!

E quando vê a banca suficientemente guarnecida, abre, isto é, levanta a tijela e os dados, não sendo raro suceder que o banqueiro dê às de Vila Diogo, abandonando a banca, quando esta vá à gloria. Os chineses são apaixonados pelo jogo e tudo lhes serve para jogar, até os dedos, quando não teem outro meio, mostrando dois jogadores uma das mãos, simultaneamente, com um certo número de dedos estendidos e verificando, a seguir, se o número de dedos apresentados é par ou impar.

Por isso, as bancas do Clu-clu, apesar de abundarem por todo o Bazar e imediações -naquele ano foram concedidas mais de quatrocentas licenças - é raro estarem desertas durante os cinco dias em que o jogo é permitido, constituindo tambem uma diversão para os europeus. Aquela primeira banca de Clu-clu com que topamos, é uma banca pobre, mal armada e quási solitária mas, à medida que avançamos, vão aparecendo outras, mais animadas, mais ricas cada vez mais frequentes, quási a cada passo, chegando, algumas, a ostentar certo luxo, desde a iluminação, à noite, uma iluminação a jorros, com electricidade e luzes de incandescência, até ao sortear dos dados, substituindo-se a tijela por uma esfera, donde saem, a correr, pela boca dum Dragão.

-Able nhonha, able, able! 
O pregão corre pelas ruas e travessas, de mistura com o tic-tac do bater dos dados, como uma nota caracterlstica do Ano Novo em Macau, e até nos pontos extremos da influencia festiva do Bazar, se veem míseras bancas de clu-clu, desgarradas e solitárias, iluminadas a custo com a luz amarela dum velho candieiro de petróleo.

O china triste fareja algum ponto de acaso e, com paciência evangélica, poisa ali horas a fio, até que acaba por levar a traquitana para outro lado. 

Quanta pataca fóra, Mimi? 
-Nunca ganhá! 
E a nhonhasinha galante, ao ser interpelada, esquiva-se à curiosidade do compatriota, a caminho dum Cou-lau, ou restaurante chinês, para saborear a tradicional sopas de fitas. É Ano Novo e o Clu-clu reina no Bazar. 

Able! Able!

Cênas da Vida de Macau, Jaime do Inso. 1927. Apud Cadernos Coloniais, nº 70, 1950

imagem do Templo da Barra, 18 de Fevereiro de 2015
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