A divisão do anno china é muito differente da do nosso; é este repartido por doze luas, umas de vinte e nove, outras de trinta dias, o que daria ao anno d'elles menos onze dias do que tem o nosso; todavia remedeiam isto repetindo em periodos de dois a três annos a contagem de uma das suas luas. O principio e meio de cada lua é um dia assignalado para elles (...). Anno novo, que é o dia mais celebrado e festivo para os chins. N'esse dia ninguem trabalha, todos cuidam apenas de sacrificios e festanças. É o primeiro do anno consagrado a jejum; n'esse dia todos estreiam fatos novos, e até os proletarios descobrem modo de se cobrir com alguma peça de vestuario por usar.
Oito dias antes do anno novo principiam as lojas do bazar a ser sortidas de novas bujigangas, grande profusão de flores naturaes e artificiaes, a ser armadas, emfim, como costumam entre nós acontecer nas confeitarias pela semana santa. Ao passo que as lojas se vão enfeitando, tornando-se garridas e vistosas, deparam-se-nos pelas ruas do bazar varios ramalhetes de flores á venda e vêem-se chins, aqui e ali, jogando aos dados, etc., etc.
Na Praia Grande e porto interior destacam-se os embandeiramentos das embarcações, cujo numero é extraordinario. De todos os lados soam musicas e estalam panchões. Reina grande animação. A cidade enche-se de chinas dos arredores, que fervilham em todas as direcções.
Na vespera do anno novo recrudesce o enthusiasmo, augmenta a panchonada e crescem de ponto as musicatas. Não ha beco, ou recanto, onde se não vejam chins a jogar. O espectaculo que offerece o bazar á noite é deslumbrante; de todos os lados jorra luz. As flores, os arbustos caprichosos e as colgaduras são aos centos. As ruas parecem compridas salas, de cujos tectos pendem milhares de lustres e onde se destacam truanescos theatros de titeres; as lojas, illuminadas a capricho e adornadas com riqueza, afiguram-se-nos outros tantos e luxuosos gabinetes phantasticos.
A multidão é enorme e espantosa a ordem no seio d'aquelle cahos.
No mar, as embarcações apinhadissimas produzem, depois de illuminadas, uma vista que, contemplada de terra, é realmente grandiosa e imponente. N´esta noite realisam-se innumeras vendas e compras. As casas do jogo téem fabulosa concorrência, sendo de uso n´esta occasião a gente mais grave arriscar algumas patacas. É costume tambem ir o governador, funccionarios e algumas familias macaenses dar lustre ao fan-tan. Ao bater a meia noite fecham-se todas as lojas, cessando completamente o commercio e todo o genero de trabalho entre os chins.
No dia do anno novo, os chinas, de envolta com as suas festas, que n´este dia são estrondosissimas, sobretudo a bordo, fazem os seus sacrificios por toda a parte, isto é, nas habitações, nos pagodes, nas ruas e no mar. N´esta epocha é preceito da etiqueta visitarem-se e presentearem-se mutuamente. Muitos chins, que tèem relações com familias macaenses, costumam receber d'ellas presentes, que retribuem por occasião do nosso natal.
Também é da praxe liquidarem-se por então todos os negocios, dando as casas commerciaes os seus balanços. É frequente haver bastantes suicidios, pois que os chins, que não podem solver os seus compromissos, preferem envenenar-se com opio, ou enforcar-se, a sobreviver a tamanha vergonha.
As festas continuam por mais ou menos dias, não excedendo geralmente oito, e são estes os unicos que os chins guardam em absoluto durante todo o anno. Ao cabo d'este praso abrem de novo as lojas e officinas, recomeçando os trabalhos. Este acto é também festejado com panchões, etc, etc.
Macau e os seus habitantes, relações com Timor de Bento da França. 1897
imagem das lanternas de Ano Novo Chinês 2015, Ano da Cabra.
Largo do Senado
imagem das lanternas de Ano Novo Chinês 2015, Ano da Cabra.
Largo do Senado
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