A China é uma esfinge que encanta e arrepia

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Decorações de Ano Novo Chinês
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As lojas iluminam-se, por dentro e por fora, mostrando os doces e as frutas, em estendal, num verdadeiro mar de luz que festeja o Ano Novo, a inundar-nos de Felicidade... São milhares de pessoas que passeiam, que comem, que se divertem; que aspiram o prazer, como numa colmeia humana de estranhas fantasias, mas não há desordens nem barulho, quási não se ouve sussurro! As horas passam, e as Pi-pai-chai cruzam-se nas ruas, hieraticas, esfíngicas, revestidas de sedas vistosas, trajando à antiga, calça e cabaia, ou de saia, num mixto de traje europeu e oriental. Vão a caminho dos Cou-laus, cantar. Sendo os chineses tão concupiscentes e sensuais, ninguém se mete com elas, nem se observa a provocação dum olhar. Estranho povo! 

É tarde, são horas de ceia, mas antes, vamos visitar, ainda, o Fan-tan, naqueles dias frequentado pelos europeus, num desafio à fortuna, à espera do milagre! Iááát! - Sâââm! Numa voz muito arrastada, o pregoeiro -se assim se lhe pode chamar- vai cantando os números -um, três!- em que os pontos jogam, ao mesmo tempo que descem num cesto, preso por um cordel, as patacas, dos andares superiores, sôbre a mesa do Fan-tan que fica em baixo, na abertura das galerias onde os jogadores se sentam, nos dois andares superiores. 

Está-se noutro mundo, vive-se noutras eras, assiste-se a outra civilização, vibram os nossos nervos duma maneira desusada, e a China milenária, atractiva e repelente, carinhosa e verduga, incongruente e sábia pela experiencia feita, a China conquista-nos, por fim, pela mais traiçoeira sedução... Mergulhando nêste estranho cenário, a Europa esquece, esvai-se, como um sonho indesejavel, distante... 

O nosso amigo; da última vez que veiu à Europa, andava afático, triste, constrangido, ia sendo vitima duma neurastenia fatal. Que quere você, -dizia ele em Lisboa- os carros eléctricos fazem-me doer as costas, faltam-me os ric-chós e ha muito que não como sopa de fitas... - e tão triste andava, que voltou para Macau.

Era tarde. Saimos do Fan-tan, onde ganhamos, numa vaquinha, cerca de vinte patacas, e fomos passar o resto da noite, num Cou-lau, ouvindo, à ceia, as Pi-pa-chai.

A China é uma esfinge que encanta e arrepia, como mulher formosa e inocente, ou megera desbragada; a China é um símbolo que nos prende a pensamentos profundos, ao mesmo tempo que é gracejo, uma bobice, um brinquedo de crianças; a China é a fenix que renasce, continuamente, dum pesado destino de martlrio, confiante, juvenil, de sangue novo e ridente; a China, qual seára exuberante e florida onde fecundam infindas aspirações, a China -a eterna contradição!- é um oceano de tristeza insondavel, fatídica, absorvente, a China constitue uma forma diferente de encarar a grande ilusão - a Vida! 

Cênas da Vida de Macau, Jaime do Inso. 1927. Apud Cadernos Coloniais, nº 70, 1950
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