Umas fumaças de opio e de nada mais precisam

Um opiómano, Frey-Wyssling. 1926 Um opiómano, Frey-Wyssling. 1926
Um opiómano, Frey-Wyssling. 1926

Dizem que ha mais de oitenta mil chins em Singapura. São os homens que mais trabalham ali e em Pinang, porque os malaios são indolentes e descuidosos. Os chins, raça paciente, perseverante, naturalmente avara e trabalhadora, prestam-se aos mais rudes trabalhos, e, vivendo miseravelmente enthesouram tudo quanto lhes sobra da sua parca alimentação. Por isso conseguem juntar grandes fortunas, e entre as principaes firmas commerciaes de Singapura e de Pinang o maior numero é d’esses filhos do sol. Ao mesmo tempo vêem-se outros nus, horrendos, asquerosos, vergados sob pesados fardos, ou atrelados aos varaes de um pequeno carro, a que chamam shiring-car e que arrastam penivelmente, como verdadeiras bestas de carga, através das lamas ou no meio de ondas de pó, com uma velocidade ás vezes muito grande. Que tenham meia duzia de grãos de arroz e que possam tomar umas fumaças de opio, e de nada mais precisam. As proprias lojas de generos europeus são quasi todas pertencentes a chinezes, que são tambem os que ali cultivam as diversas artes e officios. (…)

Á noite dei, em companhia do meu amigo Cinatti, um passeio pelo bazar, que estava muito animado e illuminado a giorno. Estivemos no estabelecimento do Vae-seng, á testa do qual está um dos chinas mais ricos de Macau. O filho, um moço verdadeiramente distincto e muito sympathico, está encarregado da escripturação. O pae é quasi um velho caduco, magro e macillento, mas muito obsequiador e attencioso. Fallando sobre o uso do opio, disse-me que tinha aquelle vicio ha vinte annos, e que lhe fôra aconselhado pelos medicos, quando deitava sangue pela bôca e soffria extraordinariamente. 

Devo a minha vida ao opio, dizia elle.

O fumista só fuma o opio, deitando-se, de verão em uma cama ou tapete de palha, de inverno sobre uma almofada de panno estufado de pennas ou de algodão, e sempre com um dos taes travesseiros a que já me referi. Uns taboleiros de xarão ou de ebano, marchetados e com embutidos de madreperola, contêem todos os objectos precisos para a operação: lampada, frasco onde se guarda o opio, raspadeiras, caixa para os residuos da combustão, diversos instrumentos para limpeza do cachimbo, que tern um tubo de madeira escura com virolas de metal amarello, etc. Todos os preparativos para a operação são cuidadosamente feitos pelo fumista, que depois começa, docemente reclinado, a aspirar com delicia o producto da combustão do opio.

Aquelle chim fallou-me com enthusiasmo e profunda convicção d´aquelle prazer inebriante, convidando-me a experimental-o, ao que, confesso-o, não me resolvi, receiando gostar, e adquirir tambem aquelle vicio, que é caro, custando, a quem só quer fumar opio muito purificado e da melhor qualidade, uma a duas patacas por dia. Dizia-me elle que a falta do opio lhe produzia um mal indefinido, mas atroz; que as lagrimas lhe rebentavam dos olhos espontaneas e contra vontade; que a cabeça lhe pesava e lhe pendia insensivelmente; que sentia nos ouvidos um zumbido estranho; que se julgava incapaz de conciliar duas idéas, ou de fazer trabalho algum; emfim, que a nhonha a mais formosa lhe não acordava sentimento algum agradavel. Todo o mal estar desapparecia, como que por encanto, aos vapores magicos d´aquelle especifico, sem que lhe produzisse embriaguez, nem sonhos, nem visões phantasticas. É admiravel! E não será a sua magreza proveniente do uso excessivo do fumo, do opio, perguntei eu?...

Não, me respondeu elle de um modo secco e que contrastava com a amabilidade que até ali tinha mostrado. Quando saimos fizeram-me notar a inconveniencia que eu commettêra, fazendo a um china a offensa de chamar-lhe magro. Incommodou-me o facto, e protestei emendar a mão, achando-o rosado, rochunchudo e nedio, na primeira vez que ali voltasse, embora estivesse mirrado e secco como uma mumia.

No Oriente, de Napoles á China (diario de viagem), Adolpho Loureiro. 1896
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