Um dia em Macau

Tobacco and sprits merchant, China
Ía ser um grande dia em Macau e poucos são os dias em grande neste lugar de mortos-vivos onde qualquer acontecimento serve para quebrar a monotonia na vida das pessoas que, ao longo dos anos, fazem sempre o mesmo e da mesma maneira, tendo por cenário sempre as mesmas imagens, tudo se repetindo desde há muito. Mas agora era chegado um momento de alegria em que honravam um certo deus guerreiro, Hong Kung. 

Quem Hong Kung foi realmente é difícil dizer; os chineses são reservados e não gostam de dar informações sobre o seu país e dos seus heróis a estrangeiros a quem desprezam, mas parece que viveu há muitos séculos e que foi um feroz pirata e um ladrão ousado. Parece que tinha qualquer coisa de socialista porque roubava os ricos e dava aos pobres. Nisso, não se diferencia de um homem civilizado, mas a moralidade chinesa é mesmo assim, elástica como borracha e então, quando morreu, colocaram os seus restos mortais no mármore imortal, ergueram uma estátua em sua memória num templo em Cantão, e, como diz Cassius sobre Cesar «tornou-se um deus, e os que o homenageam e publicam os seus discursos» andam pelas ruas estreitas e sinuosas de Macau a ouvir a música de flauta e agitando um espanta-espíritos, de 15 em 15 anos.


Nem é preciso ter muita sorte porque se pode ver uma procissão chinesa a qualquer momento, até porque cada cerimónia de casamento se celebra com um desfile de culis contratados, com música e bandeiras, vendo-se desfilar pelas ruas os presentes de casamento para os felizes noivos e o mobiliário, armários, mesas e ... porcos assados; sim, toda a espécie de mobiliário e de pratos para o banquete, para toda a gente ficar a saber. 

Mas isto não se compara; esta festa é de grande importância para os filhos do Celeste Império, e, assim, a comunidade de Hong Kong, chinesa e estrangeira, invadiu a cidade. Vieram em barcos de Hong Kong e de Cantão. E até a companhia de navegação de Macau foi posta à disposição, e o capitão, um cavalheiro americano, da Geórgia, fez tudo ao seu alcance para prestar um bom serviço, apesar da confusão. Como na comunidade de Hong Kong quase todos se conhecem, apanhou o barco, esta manhã, um bem-humorado grupo de amigos empenhado em se divertir e, mesmo não encontrando um atendimento como de costume, todos pareciam estar mais entusiasmados do que nunca!

Era um barco americano, parecido com os nossos barcos a vapor, com a ressalva de que no convés havia várias armas e um homem que montava guarda com a espada desembainhada e um par de pistolas à cintura. Os barcos nunca deixam o cais sem estas precauções porque muitos chineses que transportam entre Cantão e Macau podem muito bem embarcar com a única intenção de assaltar os passageiros, o que já tem acontecido apesar de todos os cuidados.

No convés, os chineses descansam, deitados em cima de sacos e caixas, ou esticados ao comprido em cima de um pedaço de esteira. Alguns estão vestidos de cores berrantes e limpos, outros estão por barbear, trajados com trapos e sujos, muito sujos e para explicar isto, digo que ninguém pode ver nada mais sórdido do que um chinês imundo. Alguns estavam a tratar do seu pequeno-almoço: arroz, peixe salgado e verduras. Outros, com olhos sonhadores quase fechados, desfrutavam os efeitos do ópio, puxando o fumo por um cachimbo enorme, comprido, com uns sessenta centímetros; e havia os que, com um monte de dinheiro à vista, revelavam ser jogadores assíduos; outros, ainda, reunidos perto de um tanque de peixes, faziam as suas apostas no meio de grande algazarra e gesticulando muito. O jogo fazia-se com os dedos das mãos e cada aposta terminava em gargalhadas e numa rodada de samshoo.

Como os chineses gostam de isolar as mulheres, por respeito a esta peculiaridade, viajam num compartimento fechado e bem guardado. Há cerca de quarenta anos, muitas estavam tão empenhadas em assuntos ligados à beleza, que levavam um bom tempo, pela manhã, só para arranjar o cabelo e … quase perdiam o barco que partia bem cedo. Eram guardadas, não tanto por medo da pirataria que poderia tomar conta do comando do barco, mas para se manterem afastadas dos homens.

Macau fica a 38 milhas a partir de Hong Kong. A primeira metade do percurso faz-se entre ilhas majestosas, estéreis e pitorescas; às vezes, muito perto do continente, mas a partir da foz do rio Cantão há, durante 15 milhas, um mar aberto com ondas suficientes para fazerem o barco balançar e é onde as águas parece correrem para o mar. Em pouco tempo, o contorno do território vai ficando visível e no alto de um penhasco que pende sobre a água surge o farol, brilhando como uma manhã ensoleirada. Cá em baixo, a cidade, com suas catedrais e palácios como que arrumada numa curva, ao lado da montanha. 

Os edifícios de Macau são de tamanho médio e aos mais pretensiosos, como o de Sua Excelência, o Governador, chamam-se-lhe palácios. Nos Estados Unidos seriam moradias confortáveis. As igrejas, com uma excepção, são de um estilo arquitectónico vulgar. A excepção, que pode ser vista do mar, é a igreja que fica no alto dos outeiros, mostrando-se contra o céu azul, corajosa e desolada porque é uma nobre ruína. É a mais antiga estrutura estrangeira construída na China, com as suas paredes a ruir e enegrecidas pelo tempo e é encimada por uma grande cruz negra que tem resistido aos anos. Acerca da cruz conta-se uma história romântica, sabe-se lá se é verdadeira ou não, mas vou contar o que ouvi: há muitos anos, quando Portugal ainda era uma potência, um dos navios que chegavam a Macau foi apanhado por uma grande tempestade e, fustigado pelas ondas e pelos ventos, ficou sem mastro e à beira de um naufrágio. Os marinheiros, desesperados, fizeram uma promessa solene a Deus Todo-Poderoso: se o seu navio se salvasse e acostasse em segurança, aí mesmo edificariam uma igreja. O navio conseguiu aportar e os marinheiros cumpriram o seu voto, fazendo a cruz com a madeira do barco destruído.

Parece que naquela época faziam melhores construções do que agora, digo eu, olhando para o muro de alvenaria nas solitárias colinas que resistiu ao grande tufão de 1874, comparando-o com os edifícios situados no cume que, mais protegidos das tempestades, acabaram por ruir. À direita e debaixo destes escombros, existe um edifício de tijolo vermelho e de gesso branco, de muitas janelas, parecendo frio e rígido, apesar de novo; é um grande edifício de Macau que foi, por um curto período de tempo, um convento e está transformado em quartel e nos serviços centrais de polícia. 

O barco andou em linha recta, nas águas calmas da baía, como se os seus passageiros fossem sair na doca perto da casa do governador. Mas logo mudou o rumo para contornar uma língua de areia e entrar num rio largo que corre no lado contrário da cidade. 

Situada no alto de uma colina rochosa, uma fortaleza em ruínas abre-se para o rio – talvez, um dia, tivesse ostentado o orgulho dos seus soldados com uniformes garridos; talvez tivessem as suas paredes ouvido ecoar o toque de alvorada, talvez as colinas da ilha num eco sombrio, tivessem ouvido o rugido do canhão, agora silencioso, decadente, junto às grandes pedras do muro de alvenaria espalhadas pela montanha. 

Os rios da China são semelhantes, cheios de todo o tipo de artefactos. Entre os enormes juncos e lorchas, alguns quase enterrados sob as grandes cargas de madeira, sampanas e barcos dos hakka, o barco a vapor termina a sua viagem. A baía situada no lado oposto da cidade está deserta, mas é aqui que os barcos de pesca encontram protecção. Este rio fervilha de vida e foi um porto importante nos tempos de glória da cidade. É ainda o seu porto, mas a água apresenta um nível baixo e Macau, que já não tem navegação, perdeu o esplendor, a riqueza e o comércio. Uma pequena embarcação militar fundeada na enseada protege a cidade e revela que Portugal ainda mantém o seu domínio sobre estas águas e esta terra; embarcação que faz lembrar a dos gregos que Dickens descreve nas suas notas. Ancorada, também, a alguma distância da baía, uma barca aguarda uma carga de chá. 

O imperador da China cedeu esta cidade aos portugueses em 1585 como reconhecimento de terem expulsado piratas japoneses que infestavam a costa, embora, nessa época, já aqui tivessem fixado residência, dedicando-se ao comércio e até Camões, o maior poeta de Portugal, já aqui tinha vivido de 1555 a 1560. Foi essa uma época de grande importância comercial, mas a grandeza de Portugal perdeu-se e, pouco a pouco, o seu comércio decaiu até quase desaparecer e só o tráfico de cules lhe deu vida há alguns anos. 

É uma cidade pitoresca, situada nas encostas de uma colina em cujo sopé uma via atravessa o centro da cidade como uma espinha dorsal. As ruas são estreitas e tortuosas, e as suas designações são, ao que parece, os únicos sinais do idioma português. As casas são baixas, caiadas de branco e ocupadas quase apenas por chineses. Os descendentes do velho Português que fez desta cidade a sua casa são, maioritariamente, euro-asiáticos e formam uma comunidade distinta. 

Eram dez horas quando alcançámos o cais e fizemos o nosso caminho da melhor maneira possível no meio da multidão de cules, todos implorando pelo serviço, puxando as cadeiras desgastadas e impedindo a passagem, até que, às bengaladas, os afastam. O dia estava insuportavelmente quente e as ruas, sob o sol que cegava, exibiam uma brancura tão intensa e dolorosa que foi um alívio descansar à sombra e ser levado dali numa cadeirinha no seu solene e regular movimento. Mesmo sabendo que o comércio de Macau acabou, em certos bairros da cidade ouvimos os pregões dos vendedores; mas os bairros convertidos em locais de tráfego de culis são desertos e silenciosos. 

É muito divertido olhar para os letreiros, escritos num inglês pretensioso e colocados em locais bem visíveis. Um deles, em letras garrafais, dizia: «Firs trate Darber and Hair Dresseb», como se o operário soubesse quais as letras que tinha de usar mas não conseguisse colocá-las em ordem; outro: «A good Carpenter e Dress-maker»; outros ainda: «Sam Shing, No. I dentist»; «Ice-cream e Bread Bakery». Como pode um bom carpinteiro ser também alfaiate é coisa que só um chinês talentoso pode saber! 

A alguns passos do bairro chinês, a cidade transforma-se num mar de palafitas, construídas com a madeira dos estaleiros navais instalados na margem do rio e, faltando a madeira, com bocados de antigas esteiras de palha ou caixas de óleo e com tudo a que possam lançar mão. Uma ponte, que noutro lugar se diria prancha, liga as habitações que dão abrigo aos habitantes e a todos os seus pertences, como cabras e galinhas, o que dá a tudo um aspecto degradante. Entre as palafitas encontra-se uma dúzia de estaleiros navais e sucata, nem sei se devo dizer construção naval ou construção-de-lixo, apesar de parecer uma grande indústria. Ao ver estes grandes e pesados juncos, estando a ser construídos e sem pintura, com quatro ou cinco mastros instalados no deck, desordenados e atingindo uma grande altura, fico impressionado com a curiosa falta de apreço pela arquitectura naval ocidental que os chineses revelam. Não conseguiria sentir segurança, navegando naquilo, penso eu, fixando os olhos naquela coisa enorme e deselegante. 

Há alguns passeios públicos em Macau que é, para a maior parte das pessoas, uma grande cidade chinesa, com as ruas decoradas com todos os tipos de Ianternas e ídolos. Vendedores de fruta ocupam a calçada como as lojas de peixe seco, e as de patos desossados e achatados, mostrando uma magreza incrível. Restaurantes decorados com talha dourada, aqueles que os estrangeiros frequentam, às vezes por curiosidade, e aqui e ali, ermidas, pequenos pagodes e templos em cujos pátios parecem estar hospedados todos os sem-abrigo da cidade e onde nada falta que diga respeito ao bem-estar espiritual e temporal do chinês; mas há uma rua, a montra da cidade - a Praia Grande - que rivaliza em beleza com algumas das ruas de Hong Kong. 

Passando deste bairro chinês particularmente sujo para a parte da cidade ocupada pelos estrangeiros - Macaenses ou portugueses e outros - vê-se o surpreendente número de soldados marchando pelas ruas, em pequenos esquadrões, ou a descansar pelos cantos. Há cerca de duzentos mil na cidade e, desde o nascer do sol até muito tempo depois de escurecer, é comum ouvir-se nas ruas a sua corneta. A cidade é tão morta que parece não haver nada para os filhos de Macau fazerem a não ser juntarem-se ao exército ou às forças policiais porque estas vocações podem significar um rendimento mensal fixo.

Um barco de pescador com as suas velas de bambu move-se lentamente entre as ilhas rochosas que surgem aqui e ali. A baía, numa grande curva de um quilómetro ou mais, termina, de um lado, numa fortaleza e, do outro, numa enseada. Entre estes extremos, uma parede de alvenaria sólida emerge da água e se estende dois pés acima da estrada onde o governador tem a sua residência, havendo aí, num plano inclinado e feito de pedra, o cais para uso exclusivo de sua excelência, e só mais abaixo, outra rampa igual serve para o embarque e desembarque de passageiros. Na frente da casa do governador sobressai num pequeno semicírculo o lugar onde se ergue a vara com a bandeira de Portugal, tendo a seus pés duas ou três pequenos canhões. 

O governador também é cônsul da Tailândia e por isso, a uma centena de metros, está hasteada a bandeira vermelha com o seu elefante branco no centro. Em intervalos regulares ao longo da marginal, há árvores plantadas a poucos metros do muro. Do lado contrário, temos os grandes edifícios da cidade. Existem as casas de residentes abastados e as casas de férias de gente de Hong Kong. Há a farmácia, única loja estrangeira em toda a cidade, e aqui estão também os hotéis. Normalmente, esta rua, durante o dia é abandonada por todos e apenas um carregador ou dois se vê, descansando na sua cadeirinha e esperando pacientemente um serviço. E é uma longa espera porque quem é que consegue sair de uma casa fresca para o intenso calor da rua? Só depois do jantar, quando o sol escaldante desaparece é que as ruas ficam repletas de gente a passear em direcção ao Passeio Público, um pequeno parque perto da fortaleza, onde a banda de militares toca todas as noites. 

Hoje, apesar do sol, as ruas estão animadas o que é muito bom para os hotéis pois é raro terem os quartos ocupados ou ouvir-se lá dentro o som das bolas de bilhar. Tendo a receber troco, o gerente do Hotel Macao pagou-me os cinco centavos com prata, entregando-me a prata recortada e embrulhada em papel branco. Eu nunca tinha visto dinheiro assim, mas fiquei a saber que circulava como moeda. Os chineses têm o hábito de carimbar os seus caracteres na pataca mexicana, de prata e que, com o tempo, se torna cada vez mais pequena, partida que vai sendo em pequenos pedaços que são pesados, ficando o original como um disco cheio de caracteres gravados; e o estrangeiro aceita-a como tendo o valor completo, mas é pesada e descontada se apresentada a um chinês. É um mistério que só um chinês pode explicar o facto de não se aceitarem outras moedas aqui. 

A Praia Grande alcança a entrada da fortaleza que dá lugar a um pequeno passeio sinuoso, a meio caminho das falésias que emergem abruptamente da água. Com uma pequena elevação, espalha-se na colina onde um arco de granito revela a entrada de um cemitério parse, construído em terraços sobre a encosta. Há cinco ou seis destes terraços, cada um com oito ou dez sepulturas, todos do mesmo tamanho e com placas semelhantes de granito, sobre a qual estão gravados os nomes dos mortos em inglês. Do mar a construção peculiar deste cemitério térreo, com o mesmo estilo e disposição de túmulos, faz lembrar as teclas de um piano enorme. É claro que se sabe que os Parsees não costumam enterrar os mortos, mas na China, em Hong Kong ou em Macau não construíram as suas Torres do Silêncio, e tanto quanto as aparências indicam, fazem um funeral como se fossem cristãos. 

Há também um cemitério chinês em Macau, cheio de sepulturas e lápides de granito; algumas velhas, partidas, dando-lhe a aparência de um adro de uma igreja estrangeira. Normalmente, na região montanhosa do sul da China, os túmulos estão espalhados pelas encostas e cercados por um muro baixo em forma de ferradura. Uma laje de granito cobre o túmulo, com o nome, a idade, e a dinastia em que se deu a morte e, no centro da parede, um pequeno santuário para que os parentes, em datas estabelecidas, queimem pauzinhos votivos, de incenso.

Perto de Shanghai, as sepulturas são um pouco diferentes, mas aonde quer que se vá, de norte a sul, encontram-se sepulturas espalhadas pelos campos; e até que a China tenha uma mentalidade mais avançada, é provável que os enterros continuem a ser feitos assim, pois, para o chinês que adora o seu país e o vê através dos seus heróis, é importante colocar os seus ossos ao lado dos restos mortais dos seus antepassados. O local para o túmulo é escolhido por um sacerdote que consulta o Feng Shui e que, por sua vez, indica o melhor local para a sepultura. 

Esta adoração pelo país através dos seus heróis é provavelmente o que faz com que os chineses sejam conservadores e se encham de ódio pelos estrangeiros e pelas suas inovações e esta superstição em relação ao Feng Shui, o deus do vento, em manter esta sacralidade das sepulturas faz com que o chinês reaja contra a introdução dos caminhos-de-ferro. Como também não gostam de edifícios em altura, só permitem os pagodes erigidos para homenagear esse mesmo Deus e alguns estabelecimentos de penhores, em Cantão, e reagem contra a construção de edifícios pelos estrangeiros. Mas desde que Macau é uma cidade portuguesa, não estão autorizados a colocar as suas sepulturas nas colinas e são obrigados a enterrar os seus mortos num cemitério comum.

H. Y Eastlake in Catholic World (tradução livre), 1883
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