imagens de um funeral
Pequim, 1933-1946
Hedda Morrison
Nisto, como passassemos justamente pela porta de um china onde tinha lugar a festa do seu funeral, assentamos portanto, de entrar. Não se viam senão flautistas, trompeteiros, musicos de tam-tans, e de exquisitos instrumentos de cordas, acompanhados de zabumba mas fazendo o possivel por inspirar solemnidade e sentimento com as suas monotonas e tristes musicas. Achavam-se postados á entrada de uma especie de arco de triumpho feito de esteiras todas pintadas, bonitas e de valor. Viam-se ali tambem muitos templos, torres cheias de campainhas, bandeiras com dragões, de papel dourado e de varias côres, gostos e preços elevados. Estes objectos achavam-se ali, para lembrar ou pedir aos seus deuses quizessem conceder ao defunto no outro mundo cousas tão boas ou melhores do que estas; e a musica era para denotar a dôr dos parentes; ou antes (quanto a mim) para dar a morte aos transeuntes e facilitar, desta fórma que o finado tenha companheiros na sua viagem ultima!
Na salla ou galeria de entrada, que se achava toda ricamente armada, de alto a baixo, estavam os amigos e conhecidos do defunto, cujo retrato vimos pendurado por cima das estatuas dos deuses domesticos e do altar dos antepassados. Servio-se um banquete sumptuoso e para guardar as conveniencias tivemos de tomar assento, com os demais convidados, ás mezas d'ante-mão já preparadas, porque se suppõe que é o finado diante de quem se põem as eguarias e viandas de que mais gostava, quem convida a comer. Ao menos não se via o caixão, por ser costume têl-o n'um quarto retirado. Mas, eis que o gong faz soar as pancadas que annunciam o sahimento. Todos se levantam. Apparecem á cabeça os porta-pendões, bandeiras ou não sei como lhes chame, despregando-os ao vento e levando tambem espetados em páos de côres, com mil adornos, bandeirolas, quadros, e globos, com inscripções de louvor ao morto.
Segue-se a musica, depois vinha o bonzo (ou o seu padre) levando ás costas altares e estatuas de divindades, e precedendo o caixão que estava montado sobre uma immensa eça, com grandes pannos mortuarios de muito valor, e com grossas borlas de seda penduradas. O carro ou palanquim funebre em que assentava aquella eça fazia a mais brilhante vista já pelos seus muitos doirados, já pelas côres vistosas dos adornos, que se achavam cheios de dezenhos. Trinta a quarenta homens carregavam este pezadissimo objecto, e ia atraz uma porção de carregadores para se revezarem sempre que fosse preciso. Seguiam-se mais uma porção de mulheres (mas não chinas) todas cobertas com seus véos, e cabeça baixa, fazendo o officio das nossas antigas «choradeiras» e juntando, pois, em desarcorde som, o seu prantear nazal ao sombrio e grave ruido dos instrumentos dos musicos. Finalmente vinha a familia, escondendo-se em cadeirinhas forradas de fazendas brancas e levadas pelos liteiros, sendo do melhor gosto e da maior delicadeza que os parentes do defunto não se deixem vêr, tal se deve crêr a dôr a que se acharão entregues!
E, no meio de tudo isto, fazem o possivel por conservar o maior socego e silencio abstendo-se de atirar bombas e foguetes, nesta occasião, apezar dos chinas gostarem tanto de deitar fogo. Mas note-se que isto não era o funeral de um china dos mais ricos, segundo me informou Liáo, porque, por pobres que sejam, gastam nisto até ao ultimo real. O dia da morte de um china, é por assim dizer, o mais bello da sua vida! Levam toda a vida a enthesourar para o despender nesta occasião. Há familias mesmo que ficam completamente arruinadas!
Não valia a pena acompanhar o enterro até ao cemiterio para vêr este e observar como são as sepulturas porque, já o tinha presenciado em Surabaya quando ali estivera como presidente da commissão do governo da provincia de Timor. Para dar ao leitor uma idéa destas cousas, dir-lhe-hei, em poucas palavras, que os cemiterios chinas ali constam de extensos campos, de ordinario sem muros alguns, onde as sepulturas são umas pequenas emminencias conicas em fórma como de pão de assucar, tapetadas com relva florida e cercadas de chorões, zimbreiros e outras arvores verdes. Os caixões são postos no chão e cobertos então de um monticulo de terra, que serve assim do que chamo sepultura, visto que não cavam a terra, de sorte que as chuvas torrenciaes, seguidas de seccas grandes, lavam as terras, dissolvem os nichos, fazem estalar a madeira e assim chegam até a apodrecer os cadaveres que enchem dos seus miasmas a terra e desenvolvem sem duvida, a insalubridade ou pelo menos contribuem muito para as epidemias que se experimentam a miudo naquele paiz, pois que, o governo, apezar do seu poder, interesse e desejo, ainda não teve força bastante para se oppôr abertamente a este principio religioso dos chinas, cujo numero se eleva já a alguns centos de milhares nas Indias Neerlandezas, e, talvez sejam os mais ricos e emprehendedores dos seus habitantes.
Quando citei as «choradeiras» accrescentei logo que não eram mulheres chinas, porque as que são naturaes do imperio celestial é raro sahirem dos genycêos e quando apparecem nas ruas, o que succede raras vezes, e quasi sempre fechadas nas suas liteiras, palanquins e carruagens, tal e o recato e a severidade com que vivem, e o mesmo acontece ás que são filhas dos chinas e das javanezas e malaias, até porque elles são excessivamente ciosos, além de que têem, segundo os seus costumes, todo o poder para assim fazerem, porque é principio inquestionavel na China, que as mulheres são escravas e propriedade unicamente dos homens. «Uma filha (dizem elles) está sujeita a seu pai; a esposa a seu marido; e uma mãe a seu filho!»
Quanto ás mulheres pobres, embora saiam, trabalhem e não possa haver tão grande vigilancia para com ellas como para com as ricas, tambem é raro serem naturaes da China ou mesmo filhas dos chinas e das mulheres javanezas ou malaias. Quasi sempre pertencem a estas duas ultimas raças.
Em tudo são infelizes as mulheres, porque, como se lhes não bastasse acharem-se em estado de escravidão e sujeitas a polygamia, não só se casam geralmente ainda na sua infancia, e, por consequencia sem conhecerem os maridos ou delles fazerem a menor idea, mas tambem nem enviuvando têem si quer o direito de se tornarem a casar, porque se consideraria isto deshonroso para a memoria do defunto!
Da Oceania a Lisboa de Francisco Travassos Valdez, 1866



















Sem comentários:
Publicar um comentário