O casamento na China é um dever religioso

o carro dos noivos
O carro dos noivos
Macau, Janeiro de 2012

Na familia o pae é o chefe da sociedade domestica e o pontifice do culto dos antepassados, devendo por isso ser respeitavel e virtuoso, ou ao menos apparental-o. A este assiste o direito de castigar qualquer membro da familia, até mesmo sua propria mulher, mas de fórma tal que lhe não produza fractura alguma, pelo que é responsavel perante a lei; póde expulsar do seio da communidade todo aquelle que por seus actos se tornou indigno de render culto aos antepassados, ficando ipso facto sem valor algum religioso as ceremonias que mais tarde os descendentes d’estes lhe tributem.

Por outro lado a familia é responsavel por todos os actos praticados pelo seu chefe, porque a lei presuppõe que todos os membros devem ter d’elles conhecimento; é por isso que se o pae é exilado toda a familia o acompanha. Se, porém, morre, a collectividade subsiste, tomando o filho mais velho a direcção da casa, para que nada se altere, e a familia se perpetue de geração em geração. É por isso que rarissimas vezes o filho que casa vae constituir familia independente da do pae, o que só se pode levar a effeito por meio de grandes ceremonias que têem logar quando leva para a nova residencia uma copia das taboletas dos seus maiores.

Para os chinezes o casamento é um dever religioso, porque é a base das gerações futuras, aptas para perpetuar o culto domestico; é um dever de piedade filial recommendado nos seus livros de moral, como um dos primeiros deveres do homem, constituindo finalmente a «ceremonia por excellencia». E aos chefes de familia que cabe a escolha das esposas para seus filhos, ajustando-se muitas vezes entre amigos o casamento de seus filhos menores, e até mesmo antes d’elles nascerem. Em outros casos os que querem dar-se uma mutua demonstração de boa amisade, casam seus filhos já falecidos, procedendo as ceremonias do costume, em que os noivos defuntos são representados por parentes; sendo os effeitos legaes d’estes singulares casamentos identicos aos communs, pois que até podem adoptar um filho, que será mais tarde o seu herdeiro e o continuador da geração! 

Os casamentos entre vivos exigem trabalhosas negociações, sempre a cargo de uma corretora ou casamenteira «mei-jin», que é quasi sempre uma pessoa de familia, e em todo o caso muito respeitada e considerada, honesta e discreta, que tem entrada franca em todas as familias, onde estuda o caracter das moças casadeiras.

Quando se quer casar um filho, lança-se mão dos bons officios da casamenteira, que vae e vem a dar conta das informações que pôde colher, discutindo com os paes do noivo a conveniencia da escolha. Depois resta-lhe ainda sondar as disposições do pae da pretendida noiva, para evitar uma recusa, que seria grave offensa entre pessoas de igual categoria. Assim avisado o pae da noiva, procura elle por seu lado informar-se do caracter e das habilitações litterarias do pretendente, se é que elle é pretendente, pois de nada sabe, e tem de sujeitar-se á vontade paterna, a qual não póde eximir-se senão em dois casos previstos pela lei: casando com uma estrangeira, judia ou mahometana, ou estando a tal distancia que o pae não possa ser consultado.

Dissipadas todas as duvidas de parte a parte, o pae do noivo manda pedir a mão da noiva, ou vae pessoalmente a casa do pae d’esta. A resposta do pae da noiva é sempre escripta, dizendo invariavelmente o seguinte: «A escolha que vos dignastes fazer de minha filha para ser a esposa de vosso filho, faz-me crer que conheceis a minha pobre e humilde familia mais do que ella merece; a minha filha é estupida, sem espirito, e nunca teve talento para ser educada; no entanto, tenho prazer em poder obedecer-vos n´esta occasião.»

Em seguida trata-se de fixar o dia para o casamento, tendo os paes ido aos tumulos dos antepassados avisal-os da sua resolução, e do sincero desejo que tem de fazer a felicidade dos seus filhos. O pae da noiva tem já recebido a pequena quantia que symbolisa a compra do corpo da esposa, e que a sujeita á obediencia e submissão do marido; e tendo recebido igualmente a noticia official do dia da ceremonia, acompanhada de alguns presentes, responde o seguinte, que é da praxe: «Recebi a vossa ultima resolução; quereis que as bodas se façam; tenho pena que a minha filha tenha tão poucos meritos, e que não tenha tido a educação precisa. Receio que ella não seja boa ou que não sirva para nada; mas como os augurios são favoraveis, não ouso desobedecer-vos; acceito os presentes, e consinto no dia escolhido para o casamento. Terei cuidado em ter tudo preparado.» 

As cartas trocadas entre os paes são depostas no altar dos antepassados, ligadas por um fio de seda encarnada, tendo as do pae do noivo pintado um dragão, e as do pae da noiva uma phenix. No dia do casamento a casa do noivo transforma-se em tumultuosa hospedaria pela chegada dos parentes e amigos; estão promptos os fogos de artificio, as vistosas lanternas de illuminação; os fornos preparam os mais delicados manjares; começam a entrar os presentes, e os parentes e convidados não descansam, dispondo grinaldas de flores, içando bandeiras, e collocando por toda a parte papeis com inscripções allegoricas. Estando tudo prompto, tocam as musicas e os «gongs», rebentam os petardos, e o parente encarrégado de ir buscar a noiva mette-se na sua cadeirinha, que precede aquella que ha de trazer a «jade transparente» e o cortejo põe-se a caminho.

A noiva e os seus parentes já estão á espera, e apenas chega o cortejo despede-se ella, chorando, de todos os objectos que até então a rodeavam, e tendo-se coberto de espesso véu na sala dos antepassados, entra na cadeirinha dourada, sem lhe esquecer o cesto do arroz que symbolisa a abundancia que vae levar á casa do esposo. Uns dizem que o noivo vac pessoalmente buscar a noiva, e que a vê pela primeira vez quando ella se despede de seus paes; outros affirmam que em toda a parte como em Cantão, o noivo espera a noiva á porta de casa, e é ali que elle, tomando a chave da cadeirinha das mãos de um seu parente, a abre e levanta o véu para ver se foram capciosas as informações da corretora.

N’algumas terras, o noivo, para mostrar a sua alegria e felicidade, finge que se embriaga, esconde-se, até que os amigos dêem com elle, e o levem a abrir a cadeirinha. Se lhe não agradou a noiva, fecha palanquim e devolve-o com o precioso conteúdo aos paes da que fôra escolhida para sua mulher, sem que lhe assista o direito de reclamar o dinheiro que por ella déra. Se ella, porém, lhe agrada, entram os dois em casa, vão agradecer ao céu, e a mulher faz quatro genuflexões ao marido, e este duas a sua esposa.

Trazem entâo dois copos de vinho, que elles bebem em parte, juntando os restos n’um só copo, pelo qual ambos depois bebem. A este tempo começam em salas separadas os banquetes, dos homens e das mulheres, prolongando-se as festas por tres dias. Entre as classes ordinarias em que não ha musicas nem cadeirinhas, vac a noiva a pé, apenas coberta com o espesso véu; e em casos de duvida sobre a virgindade da noiva, manda o marido no dia immediato ao sogro um porco com a cauda e um orelha cortada... se a noiva é devolvida! 

Cousas da China, costumes e crenças, Callado Crespo. 1898

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