O ajuste de casamento é o legal nó entre os chinas

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Um casamento em Pequim, 1933-1946 
Hedda Morrison 

Affiançou-me o meu cicerone Liáo que a cerimonia do ajuste de um casamento entre os chinas fórma por si só o verdadeiro e legal nó deste estado, e apenas ha então, não uma outra cerimonia, mas antes uma festa no dia aprazado pelas familias dos contrahentes para estes se juntarem, o que as vezes é depois de bastantes annos, segundo a idade da noiva na occasião em que se contractou o seu casamento. Este dia mesmo, ha todo o cuidado em não se marcar senão depois de consultados os horoscopos dos noivos. 

A noiva não leva dote nenhum, pois que achando-se como dito fica em estado de escravidão, são os parentes do noivo, ou este proprio, quem ainda teem de dar a somma em que se convenciona para a adquirir, além das joias, vestuario, enfeites, moveis, etc., para seu uso, mas se acaso o pai d´ella morre sem filhos varões, que só teem direito de serem herdeiros, com exclusão absoluta das filhas, fica obrigado a deixar á noiva alguma cousa da totalidade dos bens que formam o patrimonio, porque os pais mesmo que não tenham filhos varões preferem antes deixar quasi tudo aos sobrinhos e collateraes, do que ás proprias filhas, não só para se assegurarem de que aquelles farão com o funeral as cerimonias e despezas do estylo, mas tambem porque, embora as filhas desejassem cumpril-as não lhes seria isto permittido porque as mulheres são reputadas indignas de se intrometterem em cousas destas!

Quando se trata do casamento os preliminares são todos da competencia das «meijin» (ou casamenteiras) e as duas familias não se visitam senão depois que tudo fica definitivamente contractado, mas, ainda que todos podem ver então a noiva, o noivo tem de se fiar unicamente no que della lhe disserem, porque só para elle é que ha prohibição de se avistar com a sua futura! 

No dia aprazado para a consummação do casamento, é levada com grande pompa a esposa para casa do marido, que ali lhe falla pela primeira vez ao recebê-la á porta. Esta procissão é realmente apparatosa e causa a maior surpreza ao viajante, quando casualmente encontra no meio das ruas aquellas interminaveis fileiras de criados, parentes e amigos que com musicas, bandeiras e trophéos ou outros objectos allegoricos acompanham o soberbo e vistoso palanquim em que se acha encerrada a noiva, vestida riquissima, com mil pedrarias nas transas e em cima de si (a ponto que quando não têem pedrarias suas alugam-n'as) e coberta com o véo, que a mãe lhe da á despedida, entre choros e gemidos, quando a timida esposa é arrebatada apparentemente de casa, como é de rigoroso estylo!

Chegada á casa conjugal, umas poucas de gyrandolas de foguetes e as bombas que sem cessar fazem estourar annunciam tão feliz acontecimento, fazendo a noiva, apenas entra, quatro genuflexões diante do marido, depois fazem ambos as suas orações ante o altar dos seus antepassados, cumprem as libações prescriptas e bebem pela mesma taça ou copo, que é quebrada em continente. 

Segue-se o grande banquete dos homens das duas familias, comendo as mulheres em separado e é só no quarto nupcial que o marido vê pela primeira vez a sua fortuna ou acerto, porque é unicamente quando sua mulher tira de cima de si o comprido véo, que durante todo aquelle cubria inteiramente o seu rosto e figura! 

Da Oceania a Lisboa de Francisco Travassos Valdez, 1866


- No Oriente, ha um costume devéras singular: as mulheres não vêem os seus maridos senão depois de casadas – observou um rapaz, jovem oficial de marinha, e que tinha feito a estação de Macau, ás senhoras com quem, numa sala, estava conversando. 
- Que original! – exclamou uma das senhoras. 
- Pois, nesta parte do mundo, é depois disso que ellas raras vezes os vêem. 

Fon fon, 8 set. 1917
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