Ninguem em Macau anda a pé

riquexó, Shanghae, 1890 1900

Demorei-me em Macau seis mezes (…). Desde o dia da minha partida de Coimbra (25 de abril de 1883) até o do meu regresso a Lisboa (6 de agosto de 1884), decorreram quinze mezes e onze dias, durante os quaes trabalhei muito no desempenho da commissão official de que fôra encarregado, soffri variadissimos incommodos, e senti pungentissimas saudades da minha patria, dos meus amigos e da minha familia; mas, em compensação, vi muito, espraiei o espírito por largos e vastos horisontes, conheci climas novos, examinei costumes para mim desconhecidos, e colhi agradabilissimas impressões do muito que tive occasião de admirar. (…)

Mas que gente tão repellente, tão antipathica, tão pouco limpa, tão feia, e, para coroar a obra, dizem que de tão mau caracter!.. . (…)

Ninguem em Macau anda a pé. Ha as cadeirinhas de praça, com tarifas approvadas pela camara, que em Macau se appellida Leal Senado. Uma pessoa que se présa tem, porém, a sua cadeirinha, com os seus dois culis uniformisados. A minha devia ser esplendida, com vidraças e stores, e os meus culis teriam cabaias e calções brancos, orlados de azul, com seus grandes chapeus de palha de bambu tambem pintados de azul e branco. Já se vê que o meu hospede era todo patriota, com decidido fraco pelas côres nacionaes... (…)

Tomamos cadeirinhas de praça, seguimos pela formosa e alegre avenida da Praia Grande (...)

Principiei hoje a servir-me da cadeirinha, que mandei fazer, e que se esmeraram em alindar. É na verdade muito commoda, e o balanço que dá a elasticidade dos seus longos varaes de bambu torna-se agradavel. Os meus dois culis são atarracados, fortes, musculosos, mas duvido que a China, tenha jamais produzido dois exemplares mais hediondos… 

No Oriente, de Napoles á China (diario de viagem), Adolpho Loureiro. 1896

Em 1833, por um edital do mandarim Tso-tang, prohibe-se aos chinas pegar em cadeirinhas com christãos. (...) Os chinas abastados de Macau fazem-se quasi sempre transportar em cadeirinhas. Estes palanquins são uma especie de liteiras, construidas de cannas de bambu, forradas por fora de oleado, pintado de verde ou branco, podendo ainda ser feitas de tiras de bambu e do mesmo modo pintadas; as cadeirinhas saem dois grandes varaes, chamados pingas e são carregadas por dois homens, que as levam aos hombros e aos quaes se chamam culis; também podem funccionar com quatro d'estes moços. 

Ha cadeirinhas de luxo; umas todas de madeira, forradas de panno e envidraçadas; outras com ornatos doirados, coxins de velludo ou damasco, etc, etc. Estas ultimas só servem em dias duplices. (...)Se analysarmos os altos commerciantes e argentarios, veremos que estes levam vida á parte; levantam-se tarde, tratam dos seus negocios deitados e fumando opio; têem mil empregados ao seu serviço, nunca saem senão de cadeirinha e passam as noites até deshoras nos seus gremios ou no auto (theatro china). As mulheres d'estes vivem cercadas de luxo e ostentação, todavia são umas infelizes, pois não têem quasi convivio algum com os maridos; acham-se sempre rodeadas de creadas e são vigiadissimas. Não fazem cousa alguma dia e noite, sendo do estylo trazerem as unhas muito crescidas para mostrar que não podem trabalhar, mas vivem entre quatro paredes. (...)

Depois de alguns mezes de residência em Macau são as cadeirinhas acceitas como excellente meio de transporte. Entabolam-se relações com facilidade, a vida é barata, o mercado abundante e a gente da terra obsequiosa para comnosco.

Macau e os seus habitantes, relações com Timor, Bento da França. 1897

Para as pequenas distancias faz-se uso da «cadeirinha», de que ha duas variedades: a «de montanha», muito leve, que se compõe de dois varaes parallelos, tendo ao meio um pequeno assento de pau suspenso das varas por cordas de 0m,2 e uma outra travessa um pouco mais á frente, e tambem suspensa por cordas de 0m,5 para os pés se apoiarem. 

A cadeirinha fechada, ou de visitas, é uma especie de guarita quadrada de cobertura alongada para a frente e para trás, com janelas aos lados, e com entrada pela frente, e dentro da qual se vae commodamente assentado. A suspensão da cadeira faz-se igualmente por meio de varaes, que são mais afastados entre si no centro que nos extremos, onde se distanceiam apenas o preciso para os carregadores os apoiarem nos hombros. Segundo é mais ou menos elevada a categoria das auctoridades, assim as cadeiras são pintadas de verde ou azul, e conduzidas por dois, quatro ou oito carregadores. 

Cousas da China, costumes e crenças, Callado Crespo. 1898 

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