Macau dá ares a Porto e a Coimbra

Le Journal, 7.nov.1925.

Le Journal, de Paris, em seu numero de 7 de novembro ultimo, publicava, logo na primeira columna, um curioso artigo - Notes de Voyage, com o subtítulo Macao, a colonia portuguesa encravada na China, celebre no passado por ser uma das estadias de Camões na peregrinação pelo mundo e celebre outra vez agora por ter sido o termo da heroica viagem aerea de Portugal ao Extremo Oriente, ha pouco realizada pelos bravos aviadores militares portuguezes - Paes e Beires – feito glorioso com que o exercito portuguez correspondeu ao glorioso feito da armada portugueza, antes realisado por Gago e Sacadura, na portentosa viagem de Lisboa ao Rio, tão difficil que o grande aviador italiano Casagrande, o heroico conde de Villavieira, em tentativa igual, está retido, ha muito tempo, em Marrocos, apesar de ser um dos maiores aviadores, não só da Italia, mas de todo o mundo, no dizer autorisado do almirante de mares e ares que é Gago Coutinho.

O artigo era assignado por Paul Morand e foi-me enviado por Alves de Souza. Pereceu-me que o grande jornalista brasileiro enviava o artigo do interessante jornalista francez ao apaixonado jornalista portuguez para que o commentasse. Aproveito a deixa, muito grato aos dois, ao que o escreveu e ao que m´o revelou, porque realmente esse artigo é muito impressionante, não só pelo pitoresco, mas, sobretudo, porque fórma consoladora excepção aos artigos que, em geral, no estrangeiro, e nomeadamente em França, se escrevem sobre Portugal e as coisas portuguesas, em que tudo apparece quasi sempre deformado ou por ignorancia ou por erro de visão critica, quando não por ligeireza ou má fé. 

Começa logo o chronista francez por frizar, numa imagen feliz, a importancia de Macau no passado. - «Foi o Hong-Kong portuguez do seculo XVI.» Quem canhecer a importancia, que hoje no Extremo Oriente tem a cidade ingleza de Hong-Kong fará, diante dessa comparação uma idéa exacta da influencia exercida por Macau nas relações entre a Europa e a China no secuIo XVI, pois que essa cidade era então o unico entreposto das duas grandes civilizações. Nota tambem Paul Morand que Macau foi a primeira, chronologicamente, das colonias européas da China, aliás o mesmo aconteceu com as nossas colonias da India e de todo o Extremo Oriente e do sul africano. Só na America é que se deu, desde o começo dos descobrimentos, o parallelismo da colonização hespanhola e portugueza. Referindo-se á vastidão do nosso imperio colonial d’outr’ora, Paul Morand numa gentileza toda de França, lembra (por consoler les portugais) «que os bens do mundo não fazem senão passar de mão em mão. Os phenicios, os gregos, os romanos, os hespanhoes, os holandezes, os inglezes occuparam tal ilha ou tal continente: a lista dos proprietarios não será nunca encerrada. A vida não é mais do que um bailado». 

Mas por que deseja Paul Morand consolar os portuguezes? Elle responde. «Porque esse é o unico povo que, com os romanos, ama a França por ella mesma e, apesar de tudo, como uma mulher.»

Devemos agradecer ao illustre chronista de Le Journal, sua boa intenção de consolar os portuguezes, enfileirando-nos ao lado dos outros povos que perderam todas ou parte das suas colónias, mas em boa verdade essa consolação suppõe que nós estamos desconsolados por esse motivo, o que não é exacto. O desconsolo nacional é todo de carácter interno (…) – a mudança violenta de regimen politico e a grande conflagração européa que perturbou todo o mundo civilizado (…).

Uma das felizes observações do Sr. Paul Morand é aquella em que acentua os ares que dá Macau, em certos aspectos, com o Porto e Coimbra. Não Lisboa, cidade cosmopolita, de carácter menos nacional. Este cunho portuguez que os portuguezes vincaram nas cidades que iam construindo ao longo das ilhas e continentes, pode ser ainda notado em muitas outras partes. 

Alexandre Albuquerque em O Paiz, 19. Dez.1925
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